Em entrevista ao Café com Democracia, o historiador Evaldo Lima conta “causos” do coração da capital, explica a origem do nome e mostra como a praça virou palco de humor, memória e mobilização política
A Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza, atravessa gerações como um lugar onde a cidade se reconhece. Ali, o cotidiano vira história, a política encontra a rua, a sátira se mistura ao protesto e a memória popular frequentemente se impõe à versão oficial. Foi esse percurso, entre causos e fatos, que guiou a entrevista do historiador professor Evaldo Lima ao Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na Rádio e TV Atitude Popular.
A conversa foi ao ar no programa Café com Democracia, da Atitude Popular, retransmitido por uma rede de rádios parceiras citada na abertura por Regadas, incluindo emissoras comunitárias e sindicais. Logo no início, o apresentador saudou a audiência e colocou no centro do debate o que muitos fortalezenses repetem de boca em boca: a Praça do Ferreira é o “coração” da cidade.
Evaldo respondeu elevando o tom simbólico. “A Praça do Ferreira é uma espécie de capital da República do Ceará, moleque”, disse, antes de comparar a formação de outras capitais brasileiras com a singularidade de Fortaleza. Para ele, se a cidade nasceu a partir de um forte — “a fortaleza de Nossa Senhora da Assunção” — o pulso cotidiano passou a bater em outro lugar: “o coração da cidade, a capital da República do Ceará é a Praça do Ferreira”. Em seguida, resumiu a dimensão afetiva do espaço com uma imagem que se repetiria ao longo da entrevista: “Na verdade, Luís, a cidade respira na Praça do Ferreira”.
O historiador enumerou cenas que atravessam o imaginário local: “uma praça em que o povo já vaiou o sol”, “as grandes manifestações políticas do estado do Ceará aconteceram na Praça do Ferreira” e, num dos episódios mais pitorescos, “até um bode foi eleito vereador a partir da sua popularidade”. Para Evaldo, esse conjunto de histórias não é folclore solto: é o retrato de um lugar onde “riso, crítica, sátira” convivem com “resistência”.
A praça que não nasceu pronta
Ao ser questionado sobre a origem do espaço, Evaldo fez questão de desfazer a ideia de que a Praça do Ferreira sempre foi como é. “É importante que a gente tenha a dimensão de que a praça ela não nasceu pronta”, afirmou. No começo do século XIX, explicou, o local era conhecido como Praça do Areal, um largo informal sem desenho urbano definido, mas já estratégico como ponto de passagem, encontro e circulação de notícias.
Foi nesse cenário que surge o personagem que daria nome definitivo ao lugar: o boticário Antônio Rodrigues Ferreira. Evaldo afirmou que ele “existiu de fato” e que a praça passou a ser chamada assim pela força do uso popular. “Naquele tempo, Luís, botica não era só um comércio”, explicou. Era “consultório improvisado”, “ponto de encontro”, espaço onde “as notícias se espalhavam”, num período em que médicos eram raros, jornal circulava pouco e o café ainda não era hábito amplamente popular.
O historiador lembrou que houve tentativas de rebatizar o espaço ao longo do tempo, conforme os ventos políticos. A praça chegou a ser chamada de Largo da Quitanda, depois, no Império, Praça Dom Pedro II, e também Praça Municipal. Mas nada pegou. “O povo sempre batizou aquele lugar como a Praça do Ferreira”, disse. E concluiu com uma frase-síntese sobre Fortaleza e suas disputas simbólicas: “Mostra que a memória popular sempre fala mais alto do que a memória oficial”.
Os marcos do entorno e o “fio” da memória
A entrevista também passou pelo entorno histórico, em especial por elementos que, na visão do historiador, conversam entre si como um arquivo vivo. A pergunta de Regadas sobre a Farmácia Osvaldo Cruz abriu espaço para uma conexão direta com a tradição da antiga botica. Evaldo afirmou que o estabelecimento atual fica nas proximidades do ponto onde funcionava a botica do Ferreira e destacou sua preservação como referência da memória urbana. “A farmácia Osvaldo Cruz preserva esses traços originais”, disse, explicando que ela é “tombada pelo patrimônio histórico da cidade” e reconhecida pelo Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico e Cultural de Fortaleza (Confic), ligado à Secretaria de Cultura.
Nesse mapa simbólico, a farmácia “dialoga com a coluna da hora”, com o Cinema São Luiz e com o Hotel Excelsior, citado por Evaldo como prédio marcante e hoje “abandonado”, lembrado especialmente no período natalino, quando o Centro recebe apresentações de coral. A ideia, para ele, é simples: a praça não é só chão e cimento, mas um conjunto de camadas onde a cidade se vê.
Ceará Moleque: humor como identidade e sobrevivência
Um dos trechos mais ricos da conversa foi o dedicado ao Ceará Moleque, expressão que se confunde com a irreverência local e, muitas vezes, serve como explicação para o modo como o fortalezense reage ao poder, à dureza e até à própria tragédia. Evaldo definiu o Ceará Moleque como “símbolo da irreverência de um povo que é capaz de vaiar o sol, de transformar um bode em peça de museu e rir da própria miséria”.
O historiador citou obras e memorialistas que registraram essa tradição e apontou a origem da expressão “moleque” associada à cidade: “surgiu no século XIX no romance naturalista do Adolfo Caminha”. Na praça, segundo ele, essa molecagem atravessou classes sociais e se materializou em personagens populares, boêmios e figuras que viraram lenda do cotidiano: “Manezinho do Bispo”, “Bembém Garapeiro”, “poeta da Praça do Ferreira”, além do próprio “Bode Oiô”.
A história do Bembém Garapeiro, narrada com gosto de anedota e crítica, virou um retrato do choque entre a elite que queria “uma pequena Paris” e a inventividade popular que devolvia tudo em forma de piada. Evaldo contou que, no auge da Belle Époque fortalezense, o vendedor de garapa teria ido a Paris e, ao voltar, decidiu abandonar o apelido original: “Ele não queria ser mais chamado de Bembém Garapeiro, não. Ele queria ser chamado agora de ‘bien garrapier’”.
Na interpretação do historiador, o humor não é apenas entretenimento: é linguagem social. “Mais do que um simples deboche, Ceará Moleque revela uma identidade que enfrenta a dureza da vida com humor, com criatividade, com desafio”, afirmou. E completou: “A molecagem cearense também [é] uma forma de resistência”.
A praça como ágora: riso e protesto no mesmo chão
Quando Regadas levou o tema para a dimensão política, lembrando atos contra racismo, violência contra mulheres, mobilizações em defesa da democracia e comícios — incluindo o de Lula na campanha de 2002 e o grande comício mais recente para a Prefeitura — Evaldo reforçou a Praça do Ferreira como espaço de disputa pública.
Ele descreveu o local como uma “verdadeira ágora popular”, referência ao espaço de debate nas cidades gregas, e listou episódios históricos. Durante a Segunda Guerra Mundial, disse, foi ali que ocorreram mobilizações para que o Brasil participasse do conflito “ao lado dos países aliados para defender a democracia contra o fascismo”. E chamou atenção para um capítulo menos lembrado: “aqui no Ceará havia um movimento fascista muito forte”, com a Legião Cearense do Trabalho e lideranças que influenciaram o integralismo nacional.
A Praça do Ferreira, ressaltou, é um palco onde “o riso, a sátira, a irreverência” convivem com “a palavra dura, o protesto, o engajamento cívico”. E, fiel ao espírito do lugar, completou com uma imagem típica da praça: aplausos, vaias, piadas e comentários ferinos atravessando discursos e candidatos como um “julgamento popular” permanente.
Cajoeiro da Mentira: fantasia como crítica
A pergunta sobre o Cajoeiro da Mentira trouxe o retrato de uma tradição em que exagero e invenção viram pacto coletivo. Evaldo explicou que havia um “cajoeiro botador” onde o que mais “proliferava” eram contadores de causos, os potoqueiros, narrando “as mentiras mais fantásticas” para uma plateia cúmplice. “Quanto mais absurda, inacreditável era a história, melhor”, disse.
O ponto central, segundo ele, é que todos sabiam tratar-se de invenção. “As pessoas sabiam que era mentira, sabiam que era brincadeira”, afirmou, descrevendo o espaço como “um jogo coletivo”. Para Evaldo, ali a mentira não é falsidade: “Hoje, Luís, mentira era linguagem, não era falsidade”. E mais: funcionava como crítica indireta ao poder, válvula de escape social e exercício de criatividade popular. Ele ainda citou a permanência simbólica do cajoeiro em eventos atuais, lembrando ações do humorista Jader Soares (Zebrinha) no local.
Bode Oiô e a vaia ao sol: dois mitos que viraram documento
Nos minutos finais, Evaldo resumiu dois causos que condensam a fama da praça. Sobre o Bode Oiô, disse que o animal teria vindo do sertão na seca de 1915, escapado da panela de uma firma inglesa e passado a circular “da Praça do Ferreira para a praia do Peixe” (atual Praia de Iracema). O bode virou personagem: “frequentava os cafés”, “fumava charuto”, “tomava uma cachacinha” e “levantava a saia das mulheres casadas”, segundo a narrativa do historiador. A celebridade chegou ao auge quando “acabou sendo eleito vereador de Fortaleza”, “de uma forma de protesto”.
A morte do bode, contou, entrou para o rol dos mistérios: “Até hoje, Luís, a gente não sabe do que é que o Bode Oiô morreu”. Na lista de hipóteses, Evaldo citou “crime político”, “crime passional”, “cirrose hepática” e, por fim, a explicação mais simples: “morreu mesmo foi de velho”. A história não terminou ali: o bode “foi empalhado e levado ao Museu do Ceará” e virou uma de suas peças mais famosas.
Já a vaia ao sol teria acontecido em 1941, após uma semana inteira de chuva e céu fechado. Quando o sol reapareceu, “levou uma grande vaia dos populares” que estavam na praça. O episódio virou assinatura da irreverência local e, ao mesmo tempo, prova de que a Praça do Ferreira não é um cenário passivo: é plateia, júri e personagem.
Democracia como prática de rua
No fecho da entrevista, Regadas pediu que Evaldo relacionasse a praça à democracia. O historiador respondeu com uma definição que atravessa toda a conversa: democracia nasce do espaço público vivido. “A Praça do Ferreira ensina que democracia não nasce só das leis ou das instituições, nasce do uso vivo do espaço público”, afirmou. Para ele, ali “não era preciso o microfone para opinar” e até o riso vira instrumento político: “o riso também é política”.
Evaldo concluiu que a praça ensina pluralidade, divergência e cidadania ativa, porque ali “ninguém tá acima do riso ou da crítica”. E arrematou com a imagem que sustenta a entrevista inteira: a Praça do Ferreira como coração — “o coração da República do Ceará Moleque”.
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