Atitude Popular

“A reforma trabalhista tentou acabar com os sindicatos, mas nós seguimos vivos”

Eleito presidente do Seeaconce, Josenias Gomes analisa o novo crescimento da sindicalização no Brasil e explica por que o setor de asseio e conservação tornou-se exemplo nacional de reorganização da classe trabalhadora

Sindicalização volta a crescer no Brasil e reacende debate sobre reconstrução da representação trabalhista

O Democracia no Ar desta terça-feira recebeu Josenias Gomes, presidente eleito do Seeaconce — o Sindicato dos Trabalhadores em Asseio, Conservação, Serviços Administrativos e Limpeza Pública e Privada do Ceará — para discutir um dado que surpreendeu até os mais experientes: o número de trabalhadores sindicalizados no Brasil voltou a crescer depois de quase uma década de queda.

De acordo com o IBGE, fonte citada no programa, o país chegou a 9,1 milhões de trabalhadores sindicalizados em 2024, número que representa 8,9% da força de trabalho e reflete um crescimento de 812 mil pessoas em relação ao ano anterior. O avanço quebra uma tendência de retração contínua desde 2016, impulsionada pelas reformas implementadas no governo Michel Temer e aprofundadas pela política anti-sindical do bolsonarismo.

Sob apresentação de Sara Goes e comentários do sindicalista Antonio Ibiapino, o programa analisou por que esse movimento está acontecendo agora e como setores tradicionalmente precarizados, como o de asseio e conservação, estão reorganizando sua base e recuperando capacidade de luta.

“A reforma trabalhista transformou a CLT nas leis do capital”

Ao relembrar os retrocessos recentes, Josenias não suavizou a avaliação:

“A reforma trabalhista transformou a CLT nas leis do capital, subtraindo direitos e enfraquecendo os sindicatos.”

Ele citou ainda a lei da terceirização irrestrita, aprovada em 2017, como um golpe profundo na capacidade de organização dos trabalhadores terceirizados — categoria que hoje representa cerca de um terço de todas as relações de trabalho no país.

Mesmo diante desse ambiente hostil, o dirigente observa uma mudança sensível desde 2023:

“A gente percebe hoje uma facilidade maior de filiar trabalhadores do que na época do governo bolsonarista.”

Segundo ele, o clima de medo, perseguição e desinformação que marcou o período anterior deu lugar a uma percepção concreta de que é impossível enfrentar isoladamente a precarização crescente.

Um setor precarizado que virou exemplo

O Seeaconce representa trabalhadores e trabalhadoras que atuam nas áreas mais invisibilizadas da economia urbana: limpeza predial, conservação, portaria, serviços administrativos terceirizados e coleta. É um dos segmentos que mais sofreram com a reforma trabalhista — e justamente por isso vem se tornando vitrine de reorganização.

Josenias explicou que o sindicato reúne entre 8.000 e 8.500 associados, cerca de 10% da categoria, índice superior à média nacional. E o crescimento tem se concentrado especialmente após 2022.

“Os trabalhadores entendem que, se o sindicato não existir, eles ficam entregues ao patrão. A filiação volta porque as pessoas sabem o que foi viver sem nenhuma proteção.”

A pandemia também deixou marcas profundas. Além de agravar a precarização, ceifou vidas dentro da categoria e expôs, como disse Josenias, “o que significa ter direitos básicos negados”.

Ele compartilhou, emocionado, sua trajetória pessoal:

“Eu perdi um filho de 32 anos na pandemia. Muita gente perdeu. E quem comandava o país dizia que quem estivesse sem ar que se virasse. Quem não lembrar disso escolheu esquecer.”

Por que o trabalhador está voltando ao sindicato?

Segundo o convidado, há três motores centrais no atual crescimento da sindicalização:

  1. A volta dos direitos e da geração de empregos

Josenias relaciona diretamente o aumento da sindicalização à política econômica e social do atual governo:

“Onde o PT governa, há mais concursos, mais emprego e, portanto, mais sindicalização. Nos estados com governos bolsonaristas, o crescimento é menor.”

  1. A busca por proteção concreta

O perfil dos filiados mostra uma curva geracional:

trabalhadores de 40 a 60 anos são os mais engajados;
jovens entre 18 e 30 anos ainda chegam impregnados pelo discurso empreendedorista;
mas muitos acabam mudando de visão quando entendem o que está em jogo.

“A filiação cresce quando mostramos o que a convenção garante: plano de saúde, vale-alimentação, cesta básica, assistência jurídica. Nada disso é dado pela CLT. É conquista do sindicato.”

  1. A formação política no cotidiano

O sindicato tem apostado em formação permanente, seminários, assembleias e rodas de conversa — e também no exercício prático da negociação coletiva.

“Cada reunião é uma escola. A cada dia o trabalhador aprende um pouco mais sobre de onde vêm seus direitos e por que eles existem.”

A batalha das ideias e o papel da extrema-direita

Sara Goes e Antonio Ibiapino ressaltaram que a luta sindical se tornou também uma disputa de narrativas — enfrentando o discurso neoliberal, religioso e anti-coletivo que cresceu muito durante o bolsonarismo.

Josenias confirma:

“Tem trabalhador que chega dizendo que sindicato é trampolim da esquerda. Isso vem do envenenamento ideológico. Mas quando ele conhece a luta real, muda de opinião.”

A presença de filiados bolsonaristas, para ele, não é problema — é oportunidade:

“Quando eles convivem com a luta coletiva, percebem que defender patrão nunca os levou a nada.”

Um alerta para 2026

Em vários momentos, a conversa virou alerta político. Ibiapino lembrou que a destruição de direitos sempre acompanha projetos autoritários. Josenias foi direto:

“Se Fortaleza tivesse eleito um prefeito bolsonarista, seria uma catástrofe para os trabalhadores. E se Bolsonaro tivesse ganhado de novo, eu não sei se estaríamos vivos.”

O recado é claro: o crescimento da sindicalização é positivo, mas não garante o futuro. É preciso manter a formação, ampliar a base e disputar cada voto — do chão de fábrica ao transporte público.

O sindicato como escola da consciência

A conclusão de Josenias retoma a essência histórica do movimento sindical:

“Reajustar salário é importante, mas não basta. O sindicato existe para formar consciência. Sem isso, a gente trabalha 14 horas por dia, sofre assédio e ainda vota em quem quer destruir nossos direitos.”

Ele defende núcleos de base, formação política permanente e participação ativa nos debates públicos — inclusive nas eleições municipais e federais.

“Nós temos que fortalecer a democracia e impedir o retorno daqueles que tratam o sindicato como inimigo. A luta é permanente.”

📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 33.829.340/0001-89

compartilhe: