Em entrevista ao programa Democracia no Ar, o professor James Onnig analisa a reedição da Doutrina Monroe sob o governo Trump e alerta para o cerco dos Estados Unidos à América Latina, destacando o papel diplomático e tecnológico do Brasil na defesa do Sul Global
No programa Democracia no Ar, transmitido pela Rádio e TV Atitude Popular em 22 de outubro, a jornalista Sara Goes recebeu o professor James Onnig, em diálogo com o comentarista Reynaldo Aragon, para discutir o avanço da nova doutrina imperial dos Estados Unidos sobre a América Latina e o papel do Brasil na construção de uma alternativa soberana.
Durante a conversa, transmitida em rede por mais de 30 emissoras comunitárias, o convidado abordou com profundidade o redesenho geopolítico em curso, em que a chamada “nova Doutrina Monroe” — reeditada sob o discurso agressivo e anacrônico de Donald Trump — volta a colocar o continente sob risco de intervenção direta.
“A única alternativa que nós temos é levantar a bandeira da soberania”, afirmou Onnig, ao defender a reconstrução da unidade latino-americana diante do que chamou de “cerco assimétrico” dos Estados Unidos.
A Doutrina Monroe de Trump e o cerco ao Sul Global
Ao longo da entrevista, Onnig explicou que a estratégia imperial norte-americana se atualiza no contexto da sociedade 4.0, onde a informação se tornou o principal instrumento de dominação. “A transformação técnica, científica e informacional é a tangente mais importante do sistema capitalista hoje. Tudo o que acontece no mundo passa por ela”, observou, citando o geógrafo Milton Santos como referência para compreender as dinâmicas contemporâneas de poder.
Segundo o professor, a nova Doutrina Monroe não opera mais em nome da “defesa hemisférica”, como no século XIX, mas se apoia em relações bilaterais desiguais para enfraquecer blocos regionais como o Mercosul e a CELAC.
“O governo trampista está tirando o foco das negociações multilaterais e reduzindo tudo a confrontos diretos entre dois países. É Estados Unidos e Argentina, Estados Unidos e Brasil, nunca Estados Unidos e Mercosul. Assim, eles garantem a assimetria e o constrangimento político”, analisou.
Para Onnig, o objetivo de Trump é retomar o controle sobre as rotas comerciais, especialmente no Caribe e na Amazônia, e conter o avanço chinês na região. “O cerco que estamos assistindo é estratégico: todos os países pressionados — Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia — têm fronteira com a Amazônia”, lembrou.
A soberania como resposta e o papel do Brasil
O convidado diferenciou nacionalismo e soberania, ressaltando que o segundo conceito deve guiar os países do Sul Global.
“Eu tenho certo temor com a palavra nacionalismo. Gosto da palavra soberania — a soberania de quem mora aqui dentro, seja quem for, e defender os interesses desse povo que trabalha”, destacou.
Onnig lembrou que a Amazônia Legal ocupa cerca de metade do território brasileiro, o que torna o país um alvo central de pressões internacionais. Por isso, defendeu que o Brasil assuma um papel diplomático de liderança regional, combinando firmeza e negociação:
“O peso do presidente Lula é fundamental. Ele pode se colocar como anteparo aos discursos radicais e, ao mesmo tempo, como mediador capaz de unir a América Latina.”
Sara Goes reforçou essa leitura ao observar que, sob Trump, a linguagem do imperialismo voltou a ser explícita — e por isso mais fácil de reconhecer.
“Antes, quando alguém usava as palavras ‘imperialismo estadunidense’, era chamado de anacrônico. Hoje, Trump acabou com os eufemismos. Ele é o ridículo que escancarou a verdade”, disse a apresentadora.
Terras raras, Amazônia e autonomia tecnológica
No debate com Reynaldo Aragon, o professor também destacou a importância das terras raras e da indústria de semicondutores como eixo de soberania no século XXI. O comentarista lembrou que o Brasil possui grandes reservas minerais estratégicas, mas exporta matéria-prima e importa produtos de alto valor agregado — como chips e baterias.
Onnig concordou e defendeu que o país invista em autonomia tecnológica com transferência de conhecimento, e não apenas em extração.
“Nós temos um tesouro nas mãos. O que o presidente Lula precisa fazer é um projeto que envolva transferência de tecnologia. Cinco pesquisadores nossos, cinco deles. Dez engenheiros deles, dez nossos. E o recurso é nosso. Só assim essa riqueza vira soberania”, afirmou.
O professor celebrou também a criação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará, destacando o Nordeste como polo de excelência científica e exemplo de democratização do ensino tecnológico.
Trump, as big techs e a militarização da informação
O diálogo também abordou o avanço das big techs como braço operacional do imperialismo norte-americano. Aragon lembrou que empresas como Palantir — especializada em vigilância de dados e ligada a figuras como Peter Thiel — estão se expandindo sobre os governos da América Latina, com apoio de parlamentares brasileiros.
“Há um golpe em curso no mundo: o golpe das corporações de tecnologia contra o Estado”, alertou o comentarista, que pesquisa guerra híbrida e soberania informacional.
Onnig acrescentou que as plataformas digitais e o comércio eletrônico global se tornaram armas de disputa econômica e política, movimentando “trilhões de dólares em mercados online”. Ele descreveu o uso das redes e das fake news como parte da “trincheira informacional” que definirá as eleições de 2026.
“O informacional vai ser a trincheira de 2026. Precisamos estar atentos a isso, porque é ali que os Estados Unidos e a extrema direita jogam suas fichas”, afirmou.
Estados Unidos à beira da ruptura
Nos minutos finais, a conversa derivou para o cenário interno norte-americano. Onnig relatou que a convivência social se tornou insuportável sob Trump, com políticas de perseguição a imigrantes e militarização da vida cotidiana.
“Chegou ao ponto de um presidente sugerir, na internet, que defeca em cima do próprio povo. Isso diz tudo sobre o estágio moral de um governo”, criticou.
Sara Goes complementou, dizendo que o trumpismo provocou “um processo de balcanização social” dentro dos Estados Unidos, semelhante ao que o bolsonarismo gerou no Brasil: “A gente passou a olhar as pessoas com desconfiança, a romper amizades e a duvidar das instituições. Essa cicatriz vai durar muito tempo.”
Onnig encerrou com uma comparação simbólica: “Quando o Trump tira um quartel de um estado só porque o governador é de oposição, ele deixa de governar um país para governar um feudo. Isso não é mais uma nação unida — são Estados cada vez menos Unidos.”
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