No Café com Democracia, o historiador Evaldo Lima reconstrói a epopeia da jangada São Pedro, de Fortaleza ao Rio em 1941, e lembra como a luta dos pescadores virou conquista trabalhista e memória política
A saga de quatro pescadores cearenses que enfrentaram o Atlântico numa jangada, guiados “pelas estrelas”, para cobrar direitos diretamente do presidente da República, voltou ao centro do debate público no Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na Atitude Popular. A conversa com o historiador professor Evaldo Lima foi ao ar na quarta-feira (25), às 7h30, e resgatou uma das travessias mais simbólicas do trabalho organizado no Brasil.
As informações e falas desta matéria têm como base o programa Café com Democracia, da Atitude Popular, conforme transcrição fornecida no episódio “A saga da jangada São Pedro”, com Evaldo Lima.
Logo na abertura, o convidado definiu o tom do encontro: era dia de recordar “uma das histórias mais emocionantes do nosso país”, marcada por “coragem, ousadia” e pelo modo como o poder também se alimenta de imagens e narrativas. “É uma história de coragem, de heroísmo, de consciência social, de protagonismo nordestino”, afirmou o historiador.
1941, um Brasil autoritário e um litoral invisibilizado
Evaldo situou o episódio no ano de 1941, em pleno Estado Novo, quando o país vivia um regime autoritário ao mesmo tempo em que consolidava a legislação trabalhista urbana. A contradição era brutal para quem vivia do mar: “Os pescadores, os jangadeiros, eles não tinham direito à aposentadoria, assistência médica, reconhecimento como trabalhadores. Eles eram invisíveis perante o Estado”, disse.
Segundo o historiador, a travessia ganha sentido justamente nesse choque entre a promessa de modernização trabalhista e a exclusão de categorias inteiras. E ganha mais densidade quando se lembra que Fortaleza era então uma cidade de cerca de 200 mil habitantes e que as colônias de pescadores se espalhavam pelo litoral cearense, com forte presença na antiga Praia do Peixe, atual Praia de Iracema.
Jacaré, Tatá, Mané Preto e Jerônimo: a jangada como protesto
O programa lembrou os nomes que atravessaram décadas como símbolo de luta: Jacaré (Manuel Olímpio Meira), Tatá (Raimundo Corrêa Lima), Mané Preto e Jerônimo. Evaldo contou que Jacaré, presidente de uma zona de pescadores, confessou à professora Dona Leirice Porto um sonho aparentemente impossível: aprender a ler e escrever e “falar diretamente com o presidente Getúlio Vargas”.
O projeto individual virou gesto coletivo. Tatá, mais velho, se juntou às aulas desde o primeiro dia. E o desejo de reconhecimento virou rota política pelo mar: uma travessia de cerca de 2.500 km até o Rio de Janeiro, numa jangada “comum” e precária, sem motor e sem os recursos que hoje parecem óbvios. “Uma viagem épica”, descreveu Evaldo. “Eles não estavam buscando aventura, eles estavam reivindicando direitos trabalhistas.”
O apresentador, Luiz Regadas, insistiu no espanto prático: como sobreviver em mar aberto, como dormir, como levar água, como atravessar tempestades. O historiador reforçou a dimensão coletiva da façanha: um protesto que, a cada parada na costa, mobilizava cidades, pescadores e imprensa. “Em cada parada eles eram tratados como heróis, como intrépidos, como lobos do mar.”
Catete, Getúlio e a virada: da invisibilidade ao direito
Ao chegar ao Rio, os jangadeiros foram recebidos no Palácio do Catete. Evaldo relatou a frase atribuída a Getúlio no encontro: “Contem a verdade, contem tudo, não me escondam nada”. O desfecho, segundo o historiador, foi concreto e rápido: “Foi a partir desse momento que os pescadores saíram da sua invisibilidade”. E completou: “Em apenas três dias… foram reconhecidos também para fins previdenciários”, além de garantias relacionadas à remuneração.
Para Evaldo, o ponto central é entender a saga não como folclore, mas como história de conquista social: “Não é apenas uma aventura… é uma história de conquista e de luta e de mobilização dos próprios trabalhadores”.
Orson Welles, “It’s All True” e a tragédia no set
A conversa também atravessou o cinema. O historiador lembrou que a saga impressionou Orson Welles, que decidiu filmá-la no projeto It’s All True. O programa exibiu imagens históricas e citou o fotógrafo Chico Albuquerque, associado ao registro visual da epopeia.
Mas a história carrega uma ferida: durante as filmagens, Jacaré morreu afogado, e seu corpo nunca foi encontrado. “Durante as filmagens do filme do Orson Welles, o Jacaré morreu”, disse Evaldo, reforçando que o projeto foi abandonado após a tragédia e só décadas depois imagens reapareceriam e seriam reconstruídas. O historiador evitou alimentar especulações e “teorias conspiratórias”, defendendo que “a história por si só, ela é fantástica”.
Memória no Mucuripe e a história fora do “livro oficial”
O programa também apontou como a saga sobrevive na paisagem de Fortaleza, ainda que pouco conhecida. Evaldo citou homenagens no Mercado dos Peixes, no Mucuripe, com referências aos jangadeiros e relatos de suas trajetórias, além de grafites e imagens espalhadas na região.
Para ele, há um motivo para resgatar essas páginas: “Algumas páginas… são arrancadas dos livros oficiais de história”. Daí a defesa do papel de iniciativas como o Café com Democracia: fazer leitura conjuntural do presente sem perder a memória das lutas que formaram direitos.
A lição política: trabalho, democracia e o voto
Na reta final, o historiador transformou a epopeia marítima em recado contemporâneo. Sua síntese, que dá título a esta matéria, foi direta: “Direitos não são dádivas, são conquistas.”
Evaldo ampliou: “Trabalhadores organizados podem transformar a realidade… a saga da jangada São Pedro mostra que democracia e direitos trabalhistas se constroem com coragem e com memória”. E conectou a história de 1941 a pautas atuais: “Que a saga… nos inspire para lutar pelo fim da jornada 6 por 1”.
Provocado por um comentário sobre protestos e democracia, Evaldo comparou cenários e afirmou que, enquanto a Argentina vivia resistência social a medidas que ampliam a exploração, no Brasil “os golpistas estão presos” e é preciso defender “a vida concreta do povo brasileiro”. Ao ser questionado sobre a lição para o eleitor, foi explícito: “Devem ter consciência crítica… analisar a realidade objetiva, econômica… trabalho, emprego, renda…”. E arrematou com um alerta sobre o desvio de foco: “Quando você escutar alguém ficar falando de costumes… pode ter certeza, ele tá querendo te enganar”.
A jangada São Pedro, no retrato de Evaldo, não é só um feito marítimo: é uma metáfora do que o povo faz quando o Estado não enxerga. Uma marcha pelo mar, sem garantia, sem conforto e sem promessa — mas com a certeza de que, quando a luta vira memória, o direito deixa de ser favor e passa a ser conquista.
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