Da Redação
Cúpula de Nova Délhi consolidou uma mudança histórica: África do Sul, Egito e Etiópia estão no núcleo do BRICS, Nigéria e Uganda participam como parceiros e a União Africana ganhou espaço crescente na arquitetura do grupo. Mas representação política avança mais rapidamente que os resultados econômicos. O teste agora será transformar essa presença em financiamento, ferrovias, energia, indústria, integração continental e agregação de valor às matérias-primas africanas.
A expansão do BRICS produziu uma transformação silenciosa na relação do agrupamento com a África. Durante mais de uma década, a África do Sul foi o único país do continente sentado permanentemente à mesa de decisões. Os demais governos africanos apareciam sobretudo como convidados de cúpulas, participantes do chamado BRICS+ ou interlocutores externos.
Esse desenho mudou.
África do Sul, Egito e Etiópia fazem hoje parte do BRICS. Nigéria e Uganda integram a categoria de países parceiros. A União Africana aparece de maneira cada vez mais sistemática nas articulações do agrupamento. Na 18ª Cúpula, realizada em Nova Délhi nos dias 12 e 13 de setembro, representantes africanos estiveram presentes em praticamente todos os níveis dessa nova arquitetura.
Essa mudança institucional levou o pesquisador Nikolay Golovko, do Centro de Estudos Africanos da Higher School of Economics, de Moscou, a formular uma questão importante em artigo publicado pela RT neste domingo: depois de ampliar a presença política africana, o BRICS conseguirá transformar essa aproximação em resultados econômicos concretos?
É uma interpretação do autor, não uma posição consensual sobre o agrupamento. Mas a documentação oficial da Cúpula de Nova Délhi confirma o problema central levantado por ele: a África conquistou mais espaço dentro do BRICS, enquanto financiamento, investimentos e grandes projetos conjuntos ainda precisam alcançar escala equivalente.
É aí que começa uma etapa mais difícil.
Durante os últimos anos, o crescimento do BRICS podia ser medido principalmente pelo número de novos integrantes, parceiros e mecanismos de cooperação.
Agora, a pergunta passa a ser outra: o que essa arquitetura efetivamente entrega?
Para a África, isso significa saber se participação política será convertida em estradas, ferrovias, portos, eletricidade, sistemas de pagamentos, crédito de longo prazo, industrialização, tecnologia e cadeias produtivas capazes de manter dentro do continente uma parcela maior da riqueza produzida por seus recursos naturais.
Da África convidada para uma África dentro do BRICS
A mudança ocorreu rapidamente.
Quando a África do Sul ingressou no então BRIC, em 2010, tornou-se a única representante africana entre Brasil, Rússia, Índia e China.
A expansão iniciada em 2024 incorporou Egito e Etiópia. Posteriormente, Nigéria e Uganda passaram a integrar o sistema como países parceiros. Na cúpula deste mês, a Nigéria foi representada pelo vice-presidente Kashim Shettima e Uganda pela vice-presidente Jessica Alupo. Também participou o presidente do Burundi, Évariste Ndayishimiye, na condição de presidente em exercício da União Africana.
A África deixou, portanto, de aparecer apenas como região sobre a qual os membros do BRICS discutem.
Governos africanos agora participam da produção dos próprios consensos do grupo.
A Declaração de Nova Délhi oferece sinais concretos dessa mudança. O documento defende maior participação dos países em desenvolvimento — destacando expressamente África, Ásia, América Latina e Caribe — nas estruturas internacionais de decisão. Também trata da sub-representação dessas regiões nos postos superiores das organizações multilaterais e defende maior participação africana na governança global.
No campo da segurança, o BRICS propõe ampliar a cooperação com a União Africana em prevenção de conflitos, missões de paz e processos de mediação. A crise do Sudão também recebeu atenção na declaração, dentro da defesa de soluções políticas e maior participação das instituições africanas.
Há ainda ganhos diplomáticos específicos.
O documento apoia maior representação africana nas instituições internacionais e acolhe a candidatura da Etiópia, respaldada pela União Africana, para uma das novas cadeiras destinadas a regiões sub-representadas no Conselho da Organização da Aviação Civil Internacional.
Nada disso representa transferência automática de poder.
Declarações de cúpula não reformam por si mesmas o Conselho de Segurança, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial ou outras instituições.
Mas mostram uma alteração na composição das coalizões que pressionam por essas reformas.
E o peso quantitativo do BRICS aumentou consideravelmente. Segundo dados divulgados após a cúpula, seus 11 integrantes representam aproximadamente 48,5% da população mundial, 39% da economia global e 23% do comércio internacional.
A questão é saber quanto dessa escala poderá ser transformado em capacidade econômica para os membros africanos.
O verdadeiro teste começa no Banco do BRICS
É no Novo Banco de Desenvolvimento, o NDB, que essa discussão deixa o terreno diplomático e encontra um instrumento financeiro concreto.
Criado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o banco foi concebido para financiar infraestrutura e desenvolvimento sustentável em economias emergentes e países em desenvolvimento.
Sua presença africana, entretanto, começou concentrada principalmente na África do Sul.
Isso também está mudando.
Egito e Argélia passaram a integrar o NDB, enquanto novas adesões africanas vêm avançando. O artigo da RT destaca Etiópia, Angola e Zimbábue entre os países cujo ingresso foi aprovado pelo Conselho de Governadores e depende da conclusão dos respectivos procedimentos.
Se todas essas adesões forem concluídas, a presença institucional africana no banco ficará muito maior que durante sua primeira década.
Mas novamente surge a diferença entre ser membro e receber investimento.
A carteira africana continua fortemente concentrada na África do Sul. Golovko argumenta que o próximo indicador relevante não será simplesmente quantos países africanos ingressarão no banco, mas quando aparecerão carteiras significativas de projetos no Egito, Argélia e, posteriormente, nos novos integrantes.
A própria direção do NDB reconhece que sua segunda década precisará operar em escala maior.
Em seu pronunciamento na Cúpula de Nova Délhi, a presidente da instituição, Dilma Rousseff, afirmou que os primeiros dez anos construíram a capacidade financeira do banco e que a segunda década deverá mobilizar recursos numa escala capaz de multiplicar seu impacto sobre o desenvolvimento.
Dilma apresentou também um número importante sobre outra ambição do NDB: em 2025, quase 46% dos financiamentos aprovados pelo banco estavam denominados nas moedas dos próprios países integrantes.
A utilização de moedas nacionais possui relevância especial para economias sujeitas a fortes oscilações cambiais.
Um projeto que gera receita em moeda local, mas contrai dívida em dólar, pode sofrer deterioração financeira quando a moeda nacional se desvaloriza. Ampliar financiamento em moedas locais pode reduzir parte desse descasamento, embora não elimine outros riscos relacionados ao custo do crédito e à capacidade de pagamento.
A estratégia 2022–2026 do NDB havia estabelecido como meta aprovar US$ 30 bilhões em financiamento, ampliar operações em moedas locais e direcionar recursos para infraestrutura e desenvolvimento sustentável.
Na Declaração de Nova Délhi, os líderes voltaram a pedir que o banco amplie sua capacidade de mobilização financeira, diversifique suas fontes de recursos, aumente operações em moedas nacionais e financie infraestrutura, integração econômica e redução das desigualdades.
Para a África, esse será um dos pontos em que a retórica poderá ser medida.
Quantos bilhões?
Para quais países?
Em quais setores?
Com quais moedas?
Em quais condições financeiras?
E, sobretudo, para construir que tipo de economia?
A questão não é apenas financiar infraestrutura, mas decidir para que ela serve
Uma ferrovia pode produzir dois modelos econômicos muito diferentes.
Pode ligar uma região mineradora diretamente a um porto para acelerar a exportação de minério bruto.
Ou pode integrar minas, siderúrgicas, fábricas, cidades, mercados internos e cadeias regionais de produção.
Nos dois casos existe infraestrutura.
Mas o resultado sobre industrialização é radicalmente diferente.
Esse problema está no centro da agenda apresentada pela África do Sul no BRICS. O governo de Cyril Ramaphosa levou a Nova Délhi prioridades como industrialização, agregação local de valor, expansão do comércio e dos investimentos e infraestrutura vinculada à Área de Livre Comércio Continental Africana, a AfCFTA.
É uma questão decisiva porque grande parte da inserção internacional africana continua organizada em torno da exportação de commodities e importação de bens com maior conteúdo tecnológico e industrial.
Petróleo, gás, cobre, cobalto, manganês, platina, ouro, bauxita e outras matérias-primas possuem enorme peso em diferentes economias do continente.
A transição energética mundial aumenta ainda mais o valor estratégico de vários desses recursos.
O desafio africano é capturar uma parcela maior das etapas posteriores da cadeia: refino, processamento, componentes, manufatura, tecnologia e serviços.
Nesse sentido, a questão para o BRICS não é simplesmente aumentar o comércio com a África.
É saber qual comércio.
Se China, Índia, Rússia, Brasil e outros integrantes apenas ampliarem compras de matérias-primas africanas e vendas de produtos industrializados ao continente, parte das antigas assimetrias da economia mundial poderá permanecer sob novos parceiros.
O nome dos polos comerciais mudaria.
A estrutura produtiva, muito menos.
A agenda defendida pelos governos africanos procura justamente alterar esse ponto.
A AfCFTA pode ser o elo entre BRICS e industrialização africana
A África possui uma ferramenta própria para tentar mudar essa estrutura: a Área de Livre Comércio Continental Africana.
O objetivo da AfCFTA é integrar progressivamente os mercados de 54 economias num espaço continental de aproximadamente 1,5 bilhão de pessoas.
O problema é que eliminar tarifas no papel não basta para criar um mercado continental.
Empresas precisam atravessar fronteiras.
Mercadorias precisam circular por ferrovias e estradas.
Portos precisam conversar com corredores interiores.
Sistemas aduaneiros precisam ser interoperáveis.
Eletricidade precisa chegar às fábricas.
Pagamentos precisam funcionar entre moedas diferentes.
Telecomunicações e infraestrutura digital precisam conectar empresas.
O Banco Mundial estima que aproximadamente 60% dos custos comerciais africanos decorrem de obstáculos internos ou existentes atrás das fronteiras: atrasos alfandegários, logística ineficiente, restrições de transporte, padrões fragmentados, barreiras em serviços e infraestrutura insuficiente.
Atualmente, o comércio intrarregional representa aproximadamente um quinto das exportações da África Subsaariana. O mesmo estudo observa que cadeias regionais tendem a ser mais diversificadas e mais intensivas em manufatura que as exportações africanas destinadas ao restante do mundo, ainda fortemente concentradas em commodities.
É exatamente aí que o NDB e os demais mecanismos econômicos do BRICS poderiam produzir impacto estrutural.
Financiar uma estrada isolada é uma coisa.
Financiar corredores ferroviários transfronteiriços, redes elétricas regionais, infraestrutura digital, sistemas interoperáveis de pagamentos e cadeias industriais conectadas à AfCFTA é outra.
Nesse segundo cenário, financiamento externo passa a fortalecer a integração econômica africana em vez de simplesmente facilitar a extração e exportação de recursos.
Essa distinção determinará parte do resultado da aproximação entre África e BRICS.
O problema da dívida torna o financiamento ainda mais importante
A disputa por financiamento para o desenvolvimento acontece num momento particularmente difícil para países do Sul Global.
A UNCTAD informou em junho que 99 países em desenvolvimento, onde vivem aproximadamente 5,5 bilhões de pessoas, registraram entre 2018 e 2024 aumento dos pagamentos de juros capaz de reduzir o espaço fiscal disponível para escolas, saúde, infraestrutura e políticas climáticas.
O problema não é apenas o volume da dívida.
É o preço do dinheiro.
Economias em desenvolvimento geralmente pagam juros muito superiores aos cobrados de países ricos para captar recursos internacionais. Isso significa que duas obras semelhantes podem ter custos financeiros radicalmente diferentes dependendo do país que contrata o empréstimo.
Para governos africanos, portanto, ampliar alternativas de financiamento não constitui apenas uma disputa geopolítica abstrata sobre “Ocidente” e “Sul Global”.
Pode alterar diretamente a viabilidade de uma ferrovia, uma usina, uma rede de saneamento ou um sistema energético.
Mas a existência de um banco ligado ao BRICS também não garante automaticamente crédito barato, sustentável ou adequado.
O NDB precisa captar recursos, preservar sua situação financeira e avaliar riscos. Países tomadores continuam responsáveis pelo pagamento das operações.
A questão relevante será comparar, projeto por projeto, prazo, juros, moeda, garantias, condicionantes e impacto econômico dos financiamentos.
É nesse terreno que a promessa de uma arquitetura financeira alternativa será efetivamente testada.
A África também está construindo suas próprias instituições financeiras
Outro elemento frequentemente perdido no debate é que o continente não espera apenas soluções externas.
Instituições africanas vêm construindo mecanismos próprios.
O Afreximbank informou ter desembolsado mais de US$ 17,5 bilhões em financiamento comercial em 2024 e estabeleceu como objetivo elevar seu financiamento ao comércio intra-africano para US$ 40 bilhões até 2026.
O banco defende também mobilizar fundos soberanos, fundos de pensão, seguradoras e outros investidores institucionais africanos para capitalizar instituições regionais de desenvolvimento e financiar agricultura, manufatura e comércio.
Isso coloca outra questão para o BRICS.
A alternativa não precisa ser NDB contra Banco Mundial, FMI ou bancos africanos.
O potencial maior pode estar na construção de mecanismos de cofinanciamento entre instituições diferentes.
O próprio NDB prevê parcerias, garantias e cofinanciamento como instrumentos para mobilizar recursos adicionais.
Para projetos continentais gigantescos — energia, ferrovias, industrialização, infraestrutura digital — essa combinação pode ser mais importante que a origem individual de cada dólar.
O BRICS conseguiu uma demonstração política importante em Nova Délhi
A cúpula deste mês produziu também um teste político que não estava diretamente relacionado à África.
O BRICS atualmente reúne países com interesses geopolíticos bastante diferentes.
Irã e Emirados Árabes Unidos chegaram a Nova Délhi em lados opostos da guerra no Oriente Médio. Apesar disso, ambos aceitaram uma declaração conjunta que pediu contenção, proteção de civis e solução diplomática das disputas.
Isso não significa que o BRICS tenha resolvido o conflito.
Mas demonstrou capacidade para produzir consenso entre integrantes diretamente envolvidos numa grave disputa regional.
A diversidade interna é simultaneamente força e limitação do agrupamento.
Brasil, China, Rússia, Índia, África do Sul, Irã, Emirados, Egito, Etiópia, Indonésia e Arábia Saudita não formam uma aliança militar, não possuem uma política externa única e divergem em diferentes temas. A expansão aumenta seu peso demográfico e econômico, mas também torna consensos mais difíceis.
A África está inserida nessa contradição.
Mais países africanos dentro do BRICS significam maior capacidade de colocar prioridades continentais na agenda.
Mas também significa negociar essas prioridades com potências que possuem seus próprios interesses sobre energia, mineração, mercados, infraestrutura e influência política no continente.
Por isso, simplesmente classificar o BRICS como instrumento de “emancipação africana” seria precipitado.
Assim como descrevê-lo apenas como expansão da influência chinesa ou russa seria insuficiente.
A resposta precisa ser procurada nos fluxos concretos de capital, tecnologia, comércio e propriedade que a nova arquitetura produzir.
2026 marcou a passagem da expansão para a execução
Esse talvez seja o ponto mais importante levantado pelo artigo que originou a discussão.
A Cúpula de Nova Délhi não anunciou uma nova onda espetacular de países integrantes.
Isso poderia parecer perda de dinamismo depois dos anos de rápida expansão.
A leitura alternativa é que o BRICS entrou numa fase diferente.
A arquitetura aumentou.
Agora precisa funcionar.
O próprio NDB resumiu essa transição durante a cúpula. A instituição pretende ampliar membros, operações, financiamento em moedas locais e projetos de infraestrutura e desenvolvimento no Sul Global.
Para os países africanos, a avaliação poderá ser feita por indicadores muito mais concretos que comunicados diplomáticos.
Se o banco passar a financiar grandes projetos fora da África do Sul.
Se Egito, Etiópia, Argélia e outros integrantes construírem carteiras relevantes.
Se investimentos ajudarem a criar cadeias industriais africanas.
Se infraestrutura BRICS conectar economias africanas entre si, e não apenas minas africanas a portos de exportação.
Se empresas locais participarem dos projetos.
Se tecnologia for transferida.
Se pagamentos em moedas nacionais reduzirem vulnerabilidades sem criar novos riscos.
Se a AfCFTA ganhar infraestrutura física e financeira capaz de transformá-la num mercado efetivamente integrado.
Esses serão resultados verificáveis.
A própria Declaração de Nova Délhi reconhece a dimensão do desafio ao pedir que o NDB apoie infraestrutura, integração econômica, redução das desigualdades e desenvolvimento sustentável, ao mesmo tempo que amplie financiamento em moedas locais e diversifique suas fontes de recursos.
A África possui, portanto, uma posição singular dentro do novo BRICS.
É simultaneamente uma das regiões onde a expansão política do agrupamento avançou mais rapidamente e uma das regiões onde a distância entre representação institucional e transformação econômica permanece mais evidente.
Há três países africanos dentro do núcleo político do BRICS.
Há parceiros africanos.
Há presença africana crescente no NDB.
Há apoio formal à reforma das instituições internacionais.
Há uma zona continental de livre comércio em implantação.
Há recursos naturais estratégicos para a economia do século XXI.
Há um mercado de 1,5 bilhão de pessoas em processo de integração.
O que ainda precisa ser demonstrado é se esses elementos formarão um sistema capaz de alterar a posição do continente nas cadeias mundiais de produção.
Essa é a diferença entre ter a África dentro do BRICS e ter um BRICS que contribua efetivamente para a transformação produtiva africana.
O primeiro processo já aconteceu.
O segundo está apenas começando.
E é por isso que, depois da Cúpula de Nova Délhi, a África se tornou um dos testes mais importantes para saber se a multipolaridade defendida pelo BRICS será apenas uma redistribuição de poder entre Estados — ou também uma redistribuição das capacidades de financiar, industrializar, produzir tecnologia e reter riqueza dentro do Sul Global.