Da Redação
Assessor internacional de Lula classifica assassinato do líder iraniano como “inaceitável”, denuncia precedente grave nas relações internacionais e aponta risco de conflito prolongado após ataque de EUA e Israel.
A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, após os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel, provocou forte reação dentro do governo brasileiro e consolidou uma leitura crítica sobre a escalada militar no Oriente Médio. O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, foi direto ao classificar o episódio como “totalmente condenável” e “inaceitável”, apontando que a eliminação de um chefe de Estado por ação externa representa um precedente perigoso para a ordem internacional.
A declaração de Amorim não se limita à condenação moral do ato. Ela carrega uma leitura estratégica e histórica sobre o sistema internacional. Ao afirmar que “ninguém pode se arrogar em juízo do mundo”, o diplomata aponta para um problema estrutural: a tentativa de potências militares de assumirem o papel de árbitros globais, decidindo unilateralmente quem deve governar ou não determinados países.
O assassinato de Khamenei ocorreu no contexto da ofensiva iniciada em 28 de fevereiro de 2026, quando EUA e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã, atingindo instalações estratégicas e lideranças do país. A morte foi confirmada posteriormente pelo próprio governo iraniano, marcando um dos episódios mais graves da geopolítica contemporânea recente.
Para Amorim, o impacto dessa ação vai muito além do caso iraniano. Ele alerta que a normalização desse tipo de operação — a eliminação direta de lideranças estrangeiras — pode abrir caminho para um cenário de instabilidade permanente, no qual a soberania dos Estados passa a ser relativizada pela força militar.
Outro ponto central da análise do assessor é a ineficácia política desse tipo de estratégia. Segundo ele, a morte de Khamenei não fortalece a oposição interna iraniana nem contribui para mudanças democráticas no país. Pelo contrário, tende a produzir um efeito de coesão nacional diante de uma agressão externa.
Essa leitura dialoga com experiências históricas recentes, nas quais intervenções externas e tentativas de mudança de regime resultaram em cenários de caos prolongado, fragmentação institucional e aumento da violência. O próprio Amorim sugere que o caso iraniano tende a ser ainda mais complexo do que conflitos anteriores, indicando que não haverá solução rápida ou simples.
A análise também desmonta uma narrativa recorrente: a de que ações militares desse tipo poderiam acelerar transformações políticas internas. Para o diplomata brasileiro, essa expectativa ignora a realidade sociopolítica do Irã, que, apesar de suas contradições internas, não é um Estado colapsado nem completamente desestruturado.
O episódio ocorre em meio a uma escalada mais ampla, que já envolve retaliações iranianas contra alvos israelenses e bases norte-americanas na região, ampliando o risco de um conflito de grandes proporções. Esse cenário reforça o alerta de Amorim sobre a natureza duradoura e imprevisível da crise.
No plano diplomático, a posição do assessor está alinhada à tradição da política externa brasileira, que historicamente defende o multilateralismo, o respeito ao direito internacional e a resolução pacífica de conflitos. Ao condenar a morte de Khamenei, Amorim não faz uma defesa do regime iraniano, mas sim de um princípio: o de que a ordem internacional não pode ser regida pela lógica da força.
O caso também expõe uma fissura cada vez mais evidente no sistema global. De um lado, potências que utilizam a superioridade militar para impor decisões estratégicas. De outro, países que defendem a soberania e a não intervenção como pilares da estabilidade internacional.
A fala de Amorim, portanto, não é apenas uma reação a um episódio específico. Ela sintetiza uma disputa mais ampla sobre o futuro da ordem mundial. Ao afirmar que ninguém pode se colocar como juiz do mundo, o diplomata brasileiro aponta para o risco de um sistema internacional cada vez mais instável, no qual a força substitui o direito e a guerra volta a ocupar o centro da política global.


