Atitude Popular

Análise de Lukyanov: “Espírito de Anchorage” está perdido em relações EUA-Rússia

Da RT

O analista Fyodor Lukyanov afirma que, apesar de encontros diplomáticos entre Estados Unidos e Rússia, as duas potências não partilham uma visão comum sobre o que significa a cúpula de Anchorage e muito menos o futuro das relações bilaterais e da ordem global, ressaltando que os interesses estratégicos de cada lado estão em rotas divergentes.

Em um ensaio recente publicado em veículo russo, o analista Fyodor Lukyanov — um dos principais pensadores em relações internacionais na Rússia e editor-chefe da revista Russia in Global Affairs — questiona se o chamado “espírito de Anchorage” realmente existe e se os encontros diplomáticos entre Estados Unidos e Rússia têm significado substancial na configuração da ordem mundial. A expressão espírito de Anchorage foi adotada após uma reunião no estado americano do Alasca entre líderes russos e estadunidenses, cujo conteúdo oficial nunca foi totalmente divulgado, mas que ganhou um componente simbólico significativo.

Lukyanov lembrou que, na história das relações entre grandes potências, expressões semelhantes tiveram papel simbólico pleno: o espírito de Yalta delineou as bases da ordem internacional do pós-Segunda Guerra, o espírito de Helsinque consolidou um equilíbrio precário mas funcional durante a Guerra Fria, e o espírito de Malta marcou simbolicamente o fim da confrontação bipolar. Eles não foram apenas encontros protocolares, mas marcos de uma redefinição sistêmica.

No caso de Anchorage, contudo, Lukyanov afirma que não há evidências claras de que tenha surgido um entendimento comparável. Segundo ele, a reunião focou oficialmente na guerra na Ucrânia, mas esse tema por si só não é suficiente para fundar um novo paradigma internacional se os principais protagonistas não compartilham um propósito comum. Nos termos do analista, um dos lados — os Estados Unidos — não demonstra nem capacidade nem motivação para orientar seus esforços a um novo quadro de segurança global, como ocorreu nos encontros históricos do século XX, mas foca em administrar conflitos pontuais.

O que Moscou enxerga, segundo Lukyanov, é a tentativa de transformar Anchorage em algo que vá além da simples gestão de crise, elevando-o ao plano de definição de princípios mais amplos de segurança e regras de convivência entre grandes potências. Essa diferença de perspectiva é central: enquanto a Rússia propõe “um novo conjunto de regras” que possa dar sentido sistêmico às relações internacionais, Washington parece mais interessado em negociações transacionais e pragmáticas, tratando temas específicos como questões isoladas em vez de uma ordem global unificada.

Essa divergência é ilustrativa de uma lacuna ainda maior na política externa estadunidense contemporânea: segundo Lukyanov, os Estados Unidos não demonstram uma ambição estratégica de moldar uma nova ordem global abrangente que transcenda interesses nacionais imediatos — ao contrário do que foi o caso em encontros como Yalta ou Helsinque. Em vez disso, a diplomacia americana teria mudado para um modelo mais fragmentado e instrumental, aplicando pressão econômica e militar de forma seletiva em diferentes regiões e contextos, sem abordar princípios estruturais de governança global.

Para Lukyanov, isso cria um problema fundamental de comunicação: os dois lados não estão “falando a mesma língua” quando se trata de propósito e dimensão das negociações. Enquanto Moscou investe simbolicamente em Anchorage como um possível marco de redefinição de segurança europeia e global, Washington vê essas conversas como parte de uma série de gestões diplomáticas pontuais, sem a intenção de construir um tecido estratégico mais amplo.

Lukyanov também observa que um acordo duradouro sobre conflitos regionais — como a guerra na Ucrânia — é inviável sem a participação direta das partes envolvidas e do conjunto de atores que influenciam sua dinâmica. Nesse sentido, ele sugere que um verdadeiro processo diplomático teria que incluir, além da Rússia e dos EUA, a própria Ucrânia e a União Europeia, que desempenha papel crucial no equilíbrio geopolítico europeu moderno.

Ao final, a avaliação do analista é que o “espírito de Anchorage” corre o risco de se tornar “um fantasma” — uma ideia com perfume de simbolismo histórico, mas sem substância real nos termos que definiram encontros diplomáticos verdadeiramente transformadores no passado. Ele afirma que esse risco persiste enquanto os interlocutores adotarem visões incompatíveis do que constitui uma ordem mundial estável e sustentável, colocando em xeque o potencial de qualquer marco duradouro emergir desses encontros diplomáticos superficiais.

A crítica de Lukyanov lança luz sobre a dificuldade de reconfigurar relações entre grandes potências em um mundo onde prioridades estratégicas divergem e onde interesses nacionais imediatos eclipsam projetos de ordem comum. Se o encontro em Anchorage quis simbolizar uma nova fase de relações entre Estados Unidos e Rússia, ele ainda não cumpriu essa promessa — permanecendo suspenso entre ambições diferentes e uma real falta de convergência sistêmica.