Victor Panchorra detalha como advogados do 8 de janeiro adotam discursos padronizados, priorizam Bolsonaro e sacrificam seus próprios clientes, enquanto denúncia de Soraya Thronicke amplia pressão política sobre o caso
A denúncia feita pela senadora Soraya Thronicke (Podemos) na quarta-feira (12) — de que advogados de réus e condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro estariam atuando com “motivação política”, autopromoção e até “escondendo clientes foragidos” — ganhou novas camadas no Democracia no Ar desta semana. A parlamentar foi categórica ao afirmar que muitos desses profissionais repetem “narrativas idênticas”, buscam projeção política e, na prática, trabalham mais em defesa de Jair Bolsonaro do que dos próprios clientes.
A declaração repercutiu em Brasília, sobretudo após Soraya pedir investigação rigorosa sobre possíveis vínculos financeiros e político-partidários desses escritórios. Mas o tema já vinha sendo acompanhado de perto pelo convidado do programa desta segunda-feira: o comunicador e analista jurídico Victor Panchorra, conhecido pelo exame minucioso dos processos do 8 de janeiro.
A transmissão, apresentada por Sara Goes pela TV e Rádio Atitude Popular, aprofundou o debate com base na experiência direta de Panchorra, que acompanha cada audiência desde o início dos julgamentos.
“As defesas são idênticas”: o alerta que virou denúncia
O ponto central da entrevista foi o mesmo que levou Soraya ao plenário do Senado: a padronização das defesas. Panchorra descreveu, mais uma vez, aquilo que testemunhou pessoalmente ao analisar mais de 50 processos antes de publicar seu primeiro vídeo sobre o tema:
“As defesas são idênticas. Não tem como dizer que isso é coincidência. Os advogados trabalham em conjunto, isso eu já provei por A mais B.”
Segundo ele, a repetição não se limita à estratégia jurídica. Ela aparece no léxico, nos mesmos termos usados, nas mesmas justificativas e até nas omissões coordenadas durante as audiências. O padrão mais evidente — e mais grave — é o silêncio absoluto quando o juiz pergunta sobre Bolsonaro:
“Eles respondem a tudo, inventam histórias, mentem descaradamente, mas quando o juiz pergunta: ‘Bolsonaro te influenciou?’, todos dizem: ‘Prefiro ficar em silêncio’.”
Para Panchorra, isso não é espontâneo: “Não pode ser feito aleatoriamente. Houve orientação”.
A ponte com a política: a autopromoção nas defesas
A denúncia de Soraya ganhou corpo quando Panchorra detalhou o que já vem mostrando há meses: muitos dos advogados se utilizam das audiências como palanque pessoal.
“Teve advogado chorando no julgamento, ex-desembargador fazendo discurso político e chamando ministro de odiado pelo povo. Isso não é defesa técnica. É propaganda eleitoral.”
Segundo ele, vários desses advogados já estão filiados a partidos, muitos ao Novo ou a legendas bolsonaristas. Outros possuem cargos em gabinetes de parlamentares de extrema direita — como no caso da advogada com salário de R$ 12 mil no gabinete do senador Eduardo Girão, que também ensaia futura candidatura.
A senadora Soraya citou exatamente esse fenômeno ao denunciar a atuação “politizada e oportunista” desses profissionais.
Sacrifício dos clientes, blindagem de Bolsonaro
A crítica mais dura de Panchorra é sobre a função do advogado — e o modo como ela estaria sendo traída:
“O papel do advogado é buscar a melhor condição possível para o réu, ainda mais quando ele é culpado. Mas o que vemos é o contrário: os advogados sacrificam o cliente para proteger Bolsonaro.”
Ele explica que quase ninguém usa a atenuante prevista no Código Penal para quem colabora com a investigação. Em vez disso, os réus insistem em narrativas desmentidas pelas perícias da Polícia Federal.
O resultado? Penas mínimas dentro da lei — mas ainda assim altas, porque os crimes somam cinco artigos distintos, todos sancionados em 2021 pelo próprio Jair Bolsonaro.
“Alexandre de Moraes deu as penas mínimas. O problema não é o STF. O problema é que eles mentem até o último nível.”
A promessa da anistia
Um dos momentos mais impactantes da conversa ocorreu quando Panchorra revelou o que ouviu de familiares de presos:
“Eles têm certeza absoluta de que haverá uma anistia. Foi isso que me disseram. É mais cruel ainda.”
Para ele, essa ilusão — alimentada por advogados e influenciadores — mantém centenas de pessoas presas numa narrativa de sacrifício inútil.
A conexão com Bolsonaro — e o silêncio calculado
Panchorra ressaltou que desde o início alertou os próprios bolsonaristas sobre os riscos legais que estavam assumindo. Mas a pergunta que ele insiste em fazer — e que Sara retomou no programa — é a que desmonta toda a narrativa de “manifestação legítima”:
“Se era tão pacífico e ordeiro, por que nenhum deputado bolsonarista estava lá? Por que Bolsonaro não estava lá? Por que Michele não estava lá? Por que nenhum influenciador estava lá?”
A resposta, segundo ele, é simples: todos sabiam que era crime.
O “inferno astral bolsonarista” e o medo de fuga
No início da entrevista, Sara lembrou que Bolsonaro já está “conformado” com sua condição e “apodrecendo por dentro”, como escreveu recentemente em sua coluna. Panchorra, no entanto, vê algo estranho:
“Ele está calmo demais. Calmo demais. Será que já sabe que não vai ficar preso? Será que tem fuga planejada?”
Segundo ele, há algo “muito esquisito” no comportamento do ex-presidente, enquanto centenas de seguidores fugiram para outros países.
“OAB, olha aí, OAB”: a ética abandonada
O bordão de Panchorra virou quase sinônimo do caos jurídico das defesas do 8 de janeiro. E ele foi direto ao ponto:
“Isso é patrocínio infiel. É o maior pecado do direito: prejudicar deliberadamente o próprio cliente.”
Para ele, a OAB tem responsabilidade direta em investigar, e a ação encaminhada por Soraya à PGR pode ser o começo dessa apuração.
A denúncia de Soraya e o cerco político
No Senado, Soraya falou explicitamente em motivação política, autopromoção e até ocultação de foragidos. Os fatos expostos por Panchorra dão ainda mais substância ao que ela descreveu como “um esquema organizado”.
A senadora também afirmou que os advogados defendem mais o ex-presidente do que seus constituintes — exatamente o que Panchorra demonstra em cada transmissão.
Uma disputa jurídica — e uma batalha moral
Ao encerrar o programa, Sara resumiu o drama:
“Essas pessoas estão sendo prejudicadas duas vezes: primeiro porque acreditaram em Bolsonaro, depois porque estão tendo uma defesa esquisita.”
A entrevista expôs uma engrenagem que vai muito além das narrativas golpistas: envolve advogados em campanha, manipulação política de réus vulneráveis, ilusões de anistia e o esforço coordenado para proteger a figura central do bolsonarismo.
Uma engrenagem, como Soraya apontou no Senado e como Panchorra demonstra caso a caso, onde a defesa jurídica virou arma política — e onde os acusados são apenas peças descartáveis.
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