Projeto prevê a aquisição de 36 obuseiros ATMOS, montagem no país, participação da Avibras e transferência de tecnologia para modernizar a artilharia do Exército
Da Redação
O Brasil prepara um dos maiores projetos recentes de modernização da artilharia do Exército. O governo do Presidente Lula autorizou o avanço das negociações para viabilizar a aquisição de 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 155 mm, com participação da indústria nacional e utilização da estrutura da Avibras, tradicional empresa brasileira do setor de defesa.
O projeto envolve um entendimento entre a AEL Sistemas, a israelense Elbit Systems e a Avibras Aeroco. A proposta é construir um arranjo industrial que permita realizar no Brasil etapas de montagem, integração, testes, manutenção e suporte dos novos sistemas de artilharia.
O programa pretende substituir parte da artilharia de campanha mais antiga e ampliar a capacidade de atuação a longas distâncias. O ATMOS é um sistema de 155 milímetros instalado sobre caminhão de alta mobilidade, com alcance superior a 40 quilômetros, dependendo da munição empregada, e capacidade de entrar em posição, realizar disparos e se deslocar rapidamente.
A negociação também pode representar um impulso importante para a recuperação da Avibras, empresa responsável pelo desenvolvimento do sistema de foguetes ASTROS e que enfrentou uma longa crise financeira nos últimos anos.
Licitação começou em 2023
O processo para a aquisição dos novos obuseiros começou em 2023, quando o Exército abriu uma concorrência internacional para o projeto denominado Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado 155 mm Sobre Rodas, identificado pela sigla VBCOAP 155 mm SR.
Em abril de 2024, o ATMOS, produzido pela Elbit Systems, foi declarado vencedor da concorrência. O modelo apresentado ao Brasil utiliza um canhão de 155 mm e 52 calibres instalado sobre um chassi Tatra T-815 6×6. A proposta israelense superou concorrentes europeus e asiáticos, entre eles o Zuzana 2, o francês CAESAR e sistemas chineses.
O planejamento prevê a aquisição de até 36 unidades, quantidade destinada a reequipar unidades da artilharia divisionária e de brigadas mecanizadas. A estimativa inicial do programa apontava investimento próximo de R$ 900 milhões apenas nos equipamentos, sem contar despesas adicionais com treinamento e capacitação das tropas.
A contratação, entretanto, ficou paralisada após a escolha do vencedor. O impasse ocorreu em meio à deterioração das relações políticas entre o governo brasileiro e o governo de Israel, especialmente após a ofensiva israelense na Faixa de Gaza.
Agora, a alternativa discutida procura combinar a necessidade militar apresentada pelo Exército com maior participação da indústria instalada no Brasil.
Avibras pode participar da montagem dos equipamentos
A proposta em negociação prevê a utilização da estrutura industrial da Avibras, em Jacareí, no interior de São Paulo, para a montagem e integração dos obuseiros.
A empresa brasileira atravessou uma grave crise financeira, com recuperação judicial, paralisações, atrasos salariais e sucessivas negociações para encontrar uma solução capaz de preservar sua capacidade tecnológica.
A participação em um programa de longo prazo do Exército poderia contribuir para a retomada das atividades industriais e para a manutenção de empregos especializados. A Avibras possui experiência acumulada no desenvolvimento de sistemas de artilharia de foguetes e mantém uma estrutura industrial considerada estratégica para a defesa brasileira.
Pelo arranjo em discussão, a AEL Sistemas, empresa brasileira controlada pela Elbit, participaria do projeto ao lado da fabricante israelense e da Avibras. Ainda precisam ser definidos detalhes sobre transferência de tecnologia, participação nacional na produção e responsabilidades de cada empresa.
A questão central será determinar quanto do processo será efetivamente realizado no Brasil. A montagem final dos equipamentos, isoladamente, produz efeitos industriais diferentes de um programa que envolva desenvolvimento de componentes, integração de sistemas, formação de engenheiros e técnicos e domínio de tecnologias necessárias para manutenção e futuras atualizações.
O que muda com o ATMOS
O ATMOS representa uma mudança relevante na mobilidade da artilharia brasileira. Diferentemente dos obuseiros rebocados, que precisam ser transportados, posicionados e preparados para disparar, o sistema reúne o canhão e os equipamentos necessários em uma plataforma móvel.
Essa característica permite reduzir o tempo entre a chegada à posição de tiro, a realização da missão e o deslocamento para outra área.
Essa mobilidade ganhou importância nas guerras atuais. Sistemas de localização de disparos, radares de contrabateria e drones tornaram mais perigosa a permanência prolongada de uma unidade de artilharia na mesma posição.
O novo sistema também permitirá ampliar o alcance da artilharia de tubo. O projeto do Exército foi formulado para superar limitações de equipamentos mais antigos, alguns deles baseados em projetos desenvolvidos há várias décadas.
O Exército também opera obuseiros autopropulsados M109, de origem norte-americana, empregados principalmente no apoio às brigadas blindadas. O ATMOS, por utilizar rodas, possui características operacionais diferentes e maior facilidade de deslocamento por rodovias.
Modernização ocorre em momento de tensão internacional
A tentativa de destravar o projeto ocorre em um período marcado pela elevação das tensões militares internacionais e pelo aumento dos investimentos em defesa em diferentes regiões.
Para o Brasil, o debate envolve uma questão adicional: a capacidade de manter sistemas militares complexos sem dependência completa de fornecedores estrangeiros.
A participação da indústria nacional pode determinar o grau de autonomia do país para realizar manutenção, produzir componentes, atualizar sistemas e manter os equipamentos operacionais durante décadas.
O Brasil possui experiência própria no setor de artilharia por meio do sistema ASTROS, desenvolvido pela Avibras. A possível participação da empresa no programa dos novos obuseiros associa a modernização do Exército ao esforço de preservar uma capacidade industrial construída ao longo de décadas.
O avanço das negociações ainda não representa a conclusão definitiva do contrato. Os detalhes do acordo industrial, os valores finais, o cronograma de entrega e as obrigações relacionadas à transferência de tecnologia precisarão ser definidos.
Caso seja concretizado nos termos atualmente discutidos, o programa poderá alterar a capacidade da artilharia brasileira e oferecer uma encomenda relevante para a indústria de defesa instalada no país.