Da Redação
Consumo de carne bovina na Argentina despenca ao menor nível em duas décadas enquanto inflação, recessão e perda brutal do poder de compra aprofundam crise social sob Javier Milei.
A Argentina vive uma cena que há poucos anos pareceria impensável:
o país mais associado ao churrasco, à carne bovina e à cultura do asado começa a abandonar o consumo de carne porque simplesmente não consegue mais pagar por ela.
Sob Javier Milei, o consumo anual de carne bovina despencou para 44,5 quilos por habitante em 2026, o menor patamar em cerca de 20 anos e muito distante da média histórica argentina, que por décadas girou acima de 70 quilos anuais por pessoa.
É uma mudança econômica.
Mas também cultural e simbólica.
Porque na Argentina a carne nunca foi apenas alimento.
Sempre foi identidade nacional.
O churrasco argentino ocupa posição quase mítica na cultura do país, atravessando:
família,
futebol,
política,
amizades,
datas comemorativas
e a própria ideia de pertencimento nacional.
Agora esse símbolo começa a virar artigo de luxo.
Segundo os dados divulgados pelo Instituto Argentino de Promoção da Carne e pela Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados, a combinação entre inflação persistente, recessão econômica, queda salarial e explosão dos preços transformou a carne bovina em produto inacessível para milhões de famílias argentinas.
Os números impressionam.
A carne acumulou alta superior a 60% em apenas um ano, enquanto os salários ficaram muito abaixo da inflação. Em muitos casos, trabalhadores argentinos passaram a substituir carne bovina por frango, porco, ovos e até alternativas consideradas culturalmente impensáveis poucos anos atrás.
O fenômeno já começa a produzir cenas quase distópicas.
Recentemente, reportagens locais mostraram aumento da procura por carne de burro em regiões da Patagônia argentina. O que antes era tratado como curiosidade marginal virou alternativa econômica concreta para famílias pressionadas pelo colapso do poder de compra.
É talvez uma das imagens mais simbólicas do experimento econômico de Milei:
o país mundialmente famoso pela carne bovina começa a trocar churrasco tradicional por proteínas alternativas de sobrevivência.
Enquanto isso, existe outro lado da história.
As exportações de carne dispararam.
Segundo os dados mais recentes, as vendas externas cresceram mais de 50% no primeiro trimestre de 2026 e ultrapassaram US$ 1 bilhão, impulsionadas pela flexibilização comercial promovida pelo governo Milei.
Ou seja:
enquanto os argentinos deixam de comer carne, os frigoríficos exportam cada vez mais.
É praticamente um retrato didático do modelo ultraliberal implementado pelo governo argentino:
o mercado externo prospera,
o dólar entra,
os exportadores ampliam receitas
e o mercado interno entra em colapso social.
A lógica econômica de Milei sempre foi extremamente clara:
redução brutal do Estado,
cortes de subsídios,
desregulamentação,
arrocho fiscal
e liberalização econômica agressiva.
O problema é que o choque econômico atingiu violentamente o consumo popular.
Desde que assumiu a presidência, Milei promoveu:
desvalorização da moeda,
cortes em políticas públicas,
redução de investimentos estatais
e retirada de subsídios sobre serviços essenciais.
O resultado aparece agora no cotidiano das famílias.
Segundo entidades do setor alimentício argentino, muitas pessoas simplesmente abandonaram o hábito tradicional do churrasco de fim de semana. Açougues relatam queda contínua nas vendas e substituição crescente da carne bovina por alternativas mais baratas.
E talvez o aspecto mais cruel da crise seja justamente o seu peso simbólico.
Porque a carne sempre funcionou na Argentina como marcador social e cultural de abundância nacional.
O país construiu durante décadas uma imagem internacional ligada à fartura alimentar, ao agronegócio pecuário e à forte presença da carne no cotidiano popular.
Agora essa identidade começa a se fragmentar.
A crise também ajuda a desmontar parte da narrativa construída pela extrema-direita latino-americana em torno de Milei como suposto “milagre econômico” ultraliberal.
Embora alguns indicadores fiscais tenham melhorado parcialmente, os impactos sociais começam a se tornar cada vez mais visíveis:
queda de renda,
precarização do consumo,
desemprego,
informalidade
e deterioração das condições alimentares da população.
O mais impressionante é que tudo isso acontece justamente em um dos maiores produtores de carne bovina do planeta.
A Argentina exporta bilhões de dólares em proteína animal enquanto parte crescente da própria população já não consegue consumir aquilo que historicamente definiu sua cultura alimentar.
É quase uma metáfora brutal do neoliberalismo contemporâneo:
o mercado global prospera,
mas o povo deixa de comer.
E na Argentina de Milei, até o churrasco virou privilégio.
