Atitude Popular

“Cinema negro e cinema indígena são o cinema brasileiro”

Em edição especial de Novembro Negro, Kalor Pacheco e Lilian Solá Santiago defendem que mudar o audiovisual exige romper com o racismo das telas e, sobretudo, dos bastidores

Encerrando a série especial de Novembro Negro, o programa Vozes pela Democracia dedicou a edição da sexta-feira (28) às “narrativas negras no audiovisual”. A conversa, apresentada por Sousa Júnior e produzida pela rádio e TV Atitude Popular em parceria com o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), reuniu duas mulheres que têm construído, na prática, um outro cinema possível: Kalor Pacheco e Lilian Solá Santiago.

Ao longo de pouco mais de 25 minutos, as duas desmontaram o mito de que cinema negro e indígena seriam “de nicho” e apontaram o núcleo do problema: quem continua decidindo o que entra na programação, mesmo em TVs públicas, ainda é uma elite branca. “Cinema negro, que a gente chama de cinema negro, cinema indígena, é o cinema brasileiro”, resume Lilian, ao criticar a lógica que empurra a maioria da população para as margens da tela.

Do trauma dos anos 70 e 80 à urgência de outras imagens

Cineasta, documentarista e doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela USP, Lilian Solá Santiago fala de um lugar muito específico: é alguém que cresceu dentro dos sets de filmagem, mas sem se ver nas histórias que o cinema contava.

Ela lembra da televisão e do cinema das décadas de 1970 e 1980 como um campo de violência simbólica permanente:

“A televisão e o cinema dos anos 70 e 80 eram absurdamente racistas.”

Na memória da cineasta, pessoas negras só apareciam como escravas em novelas de época, quase sempre em cenas de tortura. Povos indígenas eram invisíveis ou interpretados por atores brancos, como quando ela via “Aritana”, em que um ator de ascendência italiana e Bruna Lombardi encarnavam personagens indígenas. Japoneses apareciam em papéis estereotipados, com apelidos racistas, vendendo pastel.

“Nós temos uma sociedade linda, riquíssima na sua diversidade e que não se expressa assim pelos meios audiovisuais. A gente perde uma formação de crianças e jovens com personagens com quem eles possam se identificar, ouvindo suas próprias histórias.”

Filha mais nova de uma família profundamente ligada ao cinema e à TV, Lilian conta que, aos 8 anos, já frequentava sets como o do filme Ao Sul do Meu Corpo, baseado em roteiro de Paulo Emílio Salles Gomes. Irmãos trabalhavam em produções como Eles Não Usam Black-Tie e Pixote; outro apresentava telejornal na TV Tupi ao lado de Ana Maria Braga. Ainda assim, a presença negra seguia restrita a papéis subalternos.

Foi esse choque entre proximidade e apagamento que empurrou a diretora para o ativismo audiovisual:

“Eu acho que eu fui empurrada a fazer projetos quase como um antídoto para uma dor psíquica mesmo.”

Nos anos 1990, quando o governo Collor desmontou a Embrafilme e o cinema brasileiro entrou em crise, Lilian decidiu estudar História e se especializar em cinema, para entender “essa loucura do audiovisual brasileiro” e intervir nela. Daí nasce, anos depois, o documentário Família Alcântara, lançado em 2006, após quase oito anos de produção:

“Família Alcântara é um filme documentário que a gente inova com pessoas negras nas telas com nome e sobrenome. As pessoas racializadas sempre estavam para representar algum problema, nunca com a sua subjetividade sendo levada em conta.”

Para ela, o chamado “cinema negro” não deveria ser uma prateleira à parte:

“Eu espero que essa luta termine, né? Porque é isso: cinema negro, que a gente chama de cinema negro, cinema indígena, é o cinema brasileiro.”

Da infância de Xuxa à Bia Desenha: quando a menina negra vira protagonista

Se Lilian fala a partir do trauma dos anos 70 e 80, Kalor Pacheco chega como resultado – e continuidade – dessa luta. Pernambucana de Camaragibe, jornalista de formação, roteirista, diretora e curadora, ela conta que nasceu televisivamente nos anos 1990, sob o domínio das apresentadoras brancas e loiras:

“Eu, que cresci já na década de 90, era aquela infância traduzida pelas narrativas das apresentadoras brancas, não só brancas, como loiras, não é? Xuxa, Angélica, o próprio Gugu Liberato também.”

A diferença é que, no caminho, ela encontrou brechas: a TV Cultura, o Castelo Rá-Tim-Bum, a força eventual da TV pública. Mas a ausência de protagonismo negro permanecia. Da espectadora que sentia esse vazio, Kalor se tornou criadora de universos.

Seu trabalho mais conhecido é a série animada Bia Desenha, destinada ao público infantil, exibida por TVs públicas em rede nacional. Co-criada com Neco Tabosa e produzida pela Carnaval Filmes, a animação é, como ela define, “uma produção pra infância protagonizada por uma família negra não tradicional”:

“A nossa protagonista Bia vem com a sua mãe Rafaela. Bia é prima de Raul, que tem o seu pai João. Elas vivem em casas no mesmo quintal. Isso é uma vivência muito particular da maioria da população, que não pode ser resumida ao nicho.”

A série também traz para a tela o sotaque pernambucano nas dublagens, rompendo com o padrão sudestino que domina a produção nacional. E insere, de forma delicada, temas como precariedade, falta de água na escola, famílias chefiadas por mulheres e ausências paternas.

“A gente conversa sobre isso ainda porque ainda há uma caminhada pra gente deixar de falar necessariamente sobre raça, mas sobre tantas outras coisas que a gente pode estar trazendo enquanto contação.”

Kalor também dirige A Vida Secreta das Gambiarras, série live action para a TV Pernambuco, e tem se consolidado como referência na animação negra. A partir dessa trajetória, aproximou-se da militância por políticas públicas de audiovisual: integra o Coletivo Negritude do Audiovisual Pernambuco, o Coletivo Carne (arte negra e indígena) e o Coletivo Niama, de animação negra do continente africano e da diáspora, além de atuar como curadora da Mostra Além-Mar de Animação.

“É uma pesquisa, né, muito pela pesquisa e pela busca, essas formas de continuar o legado de quem veio antes, ampliando esses espaços para nós, mulheres negras no audiovisual e as pessoas negras como um todo.”

TV pública, editais e o poder da caneta

Ao avaliar o cenário atual, Lilian reconhece avanços importantes, sobretudo após a repercussão global do assassinato de George Floyd, em 2020, que pressionou empresas de comunicação a assumirem compromissos de diversidade. Houve edições de editais com cotas, corrida de grandes emissoras para contratar roteiristas e diretores negros, abertura de espaços antes fechados.

Mas a cineasta alerta que a mudança ainda é superficial, inclusive na TV pública, que não tem a lógica comercial como motor central:

“A decisão do que vai ser exibido, do que vai ser produzido, não passa por pessoas racializadas.”

Ela descreve o movimento como uma “bolha”: talentos são chamados para escrever, dirigir, criar séries, mas os cargos estratégicos permanecem com a mesma elite que vem dos anos 1950:

“O que precisa mudar é quem tá no poder em todos os sentidos. Quem tem o poder da caneta, quem tem o poder de decidir o que vai ser distribuído e exibido.”

Para agravar, Lilian aponta como a lógica do branqueamento ainda organiza a percepção de pertencimento no Brasil:

“Parece que uma gota de sangue branco e morar num condomínio já te torna branco. Se você consegue pagar plano de saúde, você é branco, porque as coisas são sobrepostas aqui: questão de raça e questão de classe social.”

O resultado é um audiovisual que, segundo ela, espelha o trauma racial brasileiro, em vez de superá-lo:

“Eu acho que ele é um espelho desse nosso recalque, desse nosso trauma nacional sobre a questão racial.”

Representação não é só estar na tela: é também montar a equipe

Do lado da criação, Kalor insiste que não basta ocupar a direção ou o roteiro. Uma vez conquistado esse lugar, surge uma nova batalha: quem compõe a equipe, quem é escalado para o elenco, quem faz câmera, som, montagem?

“Quando a gente conquista um lugar de decisão, vem outra discussão, não é, que foi resolvido. Quando a gente chega à direção ou chega ao roteiro, também vem as discussões sobre preencher essa equipe com o nosso povo, de não haver as tão famosas panelinhas que o audiovisual às vezes foi condicionado.”

Ela reforça que a produção negra e indígena não pode ser confinada ao calendário de novembro:

“A nossa produção, ela não deve ficar se estruturando apenas nesse mês de novembro, nem somente nessa temática também.”

A construção de um audiovisual plural e democrático, defendem as duas convidadas, passa por:

políticas públicas com cotas em editais, inclusive para equipes técnicas
fortalecimento das TVs públicas como janelas para a produção independente negra e indígena
distribuição efetiva – não apenas produção – de conteúdos diversos
educação midiática do público, que precisa se reconhecer nas telas

E, sobretudo, por uma mudança de cultura nas empresas e instituições que ainda tratam narrativas negras como exceção, não como espelho do país.

Um debate que não cabe só em novembro

Ao encerrar o programa, Sousa Júnior lembrou que, embora esta tenha sido a última edição da série de Novembro Negro, o tema está longe de se esgotar. A ideia do Vozes pela Democracia é seguir abrindo espaço para debates sobre direito à comunicação e democratização dos meios, sempre com foco nas vozes historicamente silenciadas.

As falas de Kalor e Lilian apontam para a mesma direção: não se trata de “incluir” a negritude em um audiovisual pronto, mas de reconhecer que sem narrativas negras e indígenas não há retrato honesto do Brasil. E que, enquanto a maioria da população continuar fora dos centros de decisão, o cinema e a televisão seguirão reforçando um país que só existe na cabeça de poucos.

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