Da Redação
Negociações indiretas em Omã reabriram um canal mínimo de diálogo, mas Washington combina pressão militar e coerção econômica extraterritorial com exigências amplas, enquanto Teerã responde com a lógica da dissuasão e da soberania. Do ponto de vista do Sul Global, o episódio expõe um velho método imperial: transformar sanções, tarifas e “segurança nacional” em armas para disciplinar Estados e redesenhar a ordem regional.
a crise entre Estados Unidos e Irã volta a girar num eixo perigoso: diplomacia que não se completa, ameaças que não cessam e uma arquitetura de coerção que pretende impor, ao Oriente Médio e ao mundo, a gramática do “ou cede ou apanha”. Nas últimas semanas, Washington e Teerã retomaram conversas indiretas em Omã, apresentadas como um “bom começo” por autoridades iranianas, mas sob o peso explícito de ameaças de força e do reforço militar norte-americano na região.
O ponto central não é apenas “nuclear”. A diplomacia, do jeito que Washington a desenha, não é uma mesa para resolver um único contencioso, mas uma tentativa de impor um pacote de condicionantes estruturais: limitação permanente do enriquecimento, freios ao programa de mísseis, redução do apoio iraniano a aliados regionais e até exigências políticas internas, apresentadas como “tratamento do próprio povo”. Autoridades norte-americanas, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, defenderam que as conversas devem abarcar esse leque. Teerã rejeita: aceita discutir o dossiê nuclear, mas recusa transformar a negociação num instrumento para desmontar sua capacidade de dissuasão e sua autonomia estratégica.
É aqui que a leitura do Sul Global precisa ser direta: o que se chama de “preocupação de segurança” frequentemente opera como doutrina de hierarquia internacional. Aos países centrais e seus aliados, reconhece-se o direito de manter arsenais avançados, redes militares e “zonas de influência”. Aos países fora do eixo hegemônico, exige-se restrição, fiscalização, submissão e, quando não basta, punição econômica. O mecanismo é conhecido: sanciona-se o Estado-alvo, mas também se castiga quem se relaciona com ele, criando um efeito dominó de medo e conformidade.
Essa lógica ganhou um novo degrau com a decisão de Donald Trump de assinar uma ordem ameaçando tarifas contra países que façam negócios com o Irã, ampliando o alcance extraterritorial da coerção econômica dos EUA. Trata-se de um instrumento que, na prática, busca obrigar terceiros países a escolher entre seu próprio interesse e o risco de retaliação comercial norte-americana. Em linguagem crua: a “política externa” vira tarifa, a tarifa vira punição e a punição vira recado para o planeta.
Do lado iraniano, a mensagem também foi elevada ao nível máximo. O chanceler Abbas Araghchi afirmou que, se houver ataque americano, o Irã está pronto para responder atingindo bases dos EUA no Oriente Médio, tentando separar a retaliação do território dos países anfitriões e manter o foco no agressor. Ao mesmo tempo, reiterou que qualquer diálogo exige cessar ameaças e pressões. Essa retórica combina duas camadas: dissuasão (para elevar o custo de um ataque) e legitimidade (para enquadrar a pressão como ilegal e agressiva).
O que torna a crise especialmente instável é o “duplo trilho” praticado por Washington: conversa em Omã, mas com acúmulo de meios militares na região e sinalização de que “coisas ruins” podem acontecer se o Irã não ceder. A mistura de mesa e canhão raramente produz confiança; produz, no máximo, uma negociação sob chantagem. E chantagem, quando encontra um Estado que define sua legitimidade interna em termos de resistência, costuma empurrar o conflito para o precipício.
Na prática, a disputa se apoia num nó técnico-político: o enriquecimento de urânio. Teerã insiste no “direito” de enriquecer para fins civis, enquanto Washington tenta condicionar qualquer arranjo a limites rígidos e verificáveis. O noticiário internacional aponta que o impasse é agravado por exigências maximalistas e por desconfiança acumulada ao longo de anos de sanções, rupturas e escaladas na região.
E há um termômetro objetivo do tamanho do risco: o preço do petróleo. Quando mercados sobem não por falta imediata de oferta, mas por medo de guerra, o mundo entende que o Golfo Pérsico segue sendo uma artéria global vulnerável à política de potência. Nos últimos dias, o petróleo reagiu à percepção de que as conversas não reduziram o risco de confronto e de que a região permanece à beira de uma escalada. Para o Sul Global, isso é mais do que economia: é inflação importada, aperto fiscal, encarecimento de transportes e alimentos e, em muitos países, pressão sobre governabilidade.
O papel de Omã, por sua vez, também merece leitura sul-global: países intermediários tentam manter um mínimo de canal diplomático para evitar que as grandes potências transformem a região em laboratório de demonstração de força. Mesmo assim, a correlação de forças é desigual. Quando um lado negocia com frota no horizonte e tarifa no gatilho, e o outro negocia sob sanções e ameaça de ataque, a “diplomacia” deixa de ser um encontro de iguais e vira um procedimento de coerção com assinatura.
Há, ainda, uma dimensão ideológica que frequentemente é escondida sob termos técnicos: a naturalização da guerra econômica como instrumento legítimo. Sanções e tarifas são apresentadas como “alternativas à guerra”, mas, na vida concreta, funcionam como punição coletiva indireta, estrangulamento de comércio, bloqueio de tecnologia, pressão sobre moedas e cadeias logísticas, e reorganização forçada de alianças. A ameaça tarifária contra terceiros países amplia esse alcance: atinge, por tabela, economias do Sul Global que buscam autonomia comercial, diversificação de parceiros e espaços de manobra fora do eixo EUA–Europa.
Do ponto de vista anti-imperialista, o que se observa é um padrão: quando a hegemonia percebe perda de controle, ela desloca a disputa do campo estritamente diplomático para um regime de exceção permanente — “segurança nacional”, “emergência”, “ameaça extraordinária” — que justifica medidas extraterritoriais. Esse vocabulário não organiza apenas a política para o Irã; ele consolida precedentes para punir qualquer Estado que se recuse a operar sob tutela.
O cenário imediato aponta para dois caminhos igualmente tensos. O primeiro é a continuidade das conversas, com concessões parciais e algum tipo de “arranjo mínimo” que reduza risco de ataque, mas sem resolver o conflito estrutural. O segundo é o colapso do canal, seguido de escalada militar e reações assimétricas na região, com potencial de atingir rotas energéticas e ampliar instabilidade. O que as fontes mostram é que o canal foi reaberto, mas a base de confiança é baixa e o relógio político-militar segue correndo.
Para o Sul Global, a lição estratégica é antiga e urgente: crises desse tipo não são “locais”. Elas reorganizam preços globais, justificam novas doutrinas de coerção, intensificam a militarização de rotas comerciais e produzem ondas de instabilidade que recaem, quase sempre, sobre os países mais frágeis. A resposta estrutural passa por diversificação energética e comercial, fortalecimento de mecanismos regionais de mediação e, sobretudo, recusa em aceitar a extraterritorialidade como norma. Porque, quando tarifa vira arma e “emergência” vira política, a soberania dos periféricos vira o próximo alvo.


