Socialista António José Seguro e o ultradireitista André Ventura disputam o segundo turno em um cenário de polarização inédita desde a Revolução dos Cravos
Portugal entra em uma reta decisiva de sua eleição presidencial com a confirmação de um segundo turno entre o candidato socialista António José Seguro e o líder da extrema direita, André Ventura, do partido Chega. A disputa, marcada para 8 de fevereiro, tem sido interpretada por analistas como um divisor de águas para o modelo democrático português construído após a Revolução dos Cravos, em 1974.
O tema foi debatido no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado excepcionalmente por Luís Regadas, com a participação da jornalista Lia Sérgia, brasileira residente em Portugal, e comentários do professor Antônio Ibiapino. As análises se basearam no acompanhamento direto do processo eleitoral português e no debate público em curso no país.
Segundo Lia Sérgia, que vive atualmente na cidade de Braga, o segundo turno ganhou contornos de consulta popular indireta sobre o futuro político do país. “É um plebiscito sobre que tipo de democracia o povo português quer”, afirmou, ao destacar que a disputa extrapola diferenças partidárias e coloca em confronto dois projetos opostos de sociedade. De um lado, António José Seguro, identificado com uma postura institucional, moderada e alinhada aos valores democráticos europeus. De outro, André Ventura, figura central da direita radical, conhecido por discursos xenófobos, racistas e de ataque direto a minorias e imigrantes.
O resultado do primeiro turno evidenciou o cenário de polarização. Seguro alcançou 31,3% dos votos, enquanto Ventura obteve 23,49%, beneficiado por uma estratégia populista que transformou o Chega em uma das maiores forças parlamentares do país. Fundado em 2019, o partido saltou de 1,3% dos votos para cerca de 23% e conquistou 58 cadeiras no Parlamento, tornando-se um ator central da política portuguesa.
Lia explicou que o crescimento da extrema direita em Portugal segue uma tendência observada em diversos países, impulsionada por crises econômicas, guerras e fluxos migratórios. “Em momentos de crise, os discursos populistas ganham força porque é mais fácil apontar um culpado do que discutir soluções complexas”, avaliou. Segundo ela, Ventura tem explorado problemas reais, como a pressão sobre o sistema público de saúde, o aumento do custo dos aluguéis e a sobrecarga das escolas, para responsabilizar imigrantes, em especial comunidades africanas e asiáticas, além da população cigana.
A jornalista contestou essa narrativa com dados do próprio cotidiano português. “Hoje, quem sustenta a Segurança Social em Portugal é o imigrante”, afirmou. Ela explicou que o país enfrenta envelhecimento populacional acelerado e perda de jovens qualificados para outros países europeus, o que levou o Estado português a facilitar a entrada de trabalhadores estrangeiros, especialmente de países de língua portuguesa. “Sem imigração, setores inteiros como a construção civil, a educação e os serviços simplesmente não funcionariam”, disse.
Durante o programa, também foi destacada a diferença entre o sistema político português e o brasileiro. Lia Sérgia lembrou que o presidente da República em Portugal não governa o dia a dia do país. Ele não executa orçamento nem políticas públicas, atribuições que cabem ao primeiro-ministro e ao Parlamento. Ainda assim, o cargo tem peso simbólico e institucional significativo. O presidente pode vetar leis, dissolver o Parlamento, convocar eleições e representar Portugal no cenário internacional. “Ele é o rosto do país”, resumiu.
Nesse contexto, a eventual eleição de um presidente de extrema direita gera preocupação entre setores democráticos. Para Lia, a presença de Ventura no Palácio de Belém significaria a normalização de um discurso de ódio no mais alto posto institucional do país. Ela lembrou que o candidato do Chega já resgatou slogans associados ao salazarismo, como “Deus, pátria, família”, e frequentemente relativiza o autoritarismo do antigo regime, embora negue ser defensor da ditadura.
O professor Antônio Ibiapino ampliou a análise ao relacionar o cenário português ao avanço global da extrema direita. Para ele, o fenômeno está ligado à crise estrutural do capitalismo e à manipulação do descontentamento social. “Eles pegam um problema real e transformam em bode expiatório. Jogam a culpa no imigrante, no pobre, nas minorias, para esconder as contradições do sistema”, afirmou. Ibiapino defendeu que as forças progressistas precisam disputar corações e mentes com base em análise concreta da realidade, e não apenas reagir ao discurso extremista.
Outro ponto central do debate foi o chamado voto útil. Diante da ameaça representada por Ventura, eleitores de esquerda, centro e até da direita democrática têm sido incentivados a apoiar António José Seguro, mesmo sem plena identificação ideológica. Segundo Lia Sérgia, esse movimento já ocorreu no primeiro turno e tende a se intensificar agora. “O apoio ao Seguro é, para muitos, um apoio tático e defensivo”, explicou. Ela acrescentou que, diferentemente do Brasil, a direita tradicional portuguesa aceita o Estado social como base do sistema, incluindo saúde pública, educação e políticas de proteção social, o que isola ainda mais o discurso radical do Chega.
Apesar disso, há uma incógnita relevante. A abstenção eleitoral em Portugal costuma ser alta e ultrapassou 40% no primeiro turno. Como o voto não é obrigatório, o comportamento do eleitorado no segundo turno pode ser decisivo. “Não há um entusiasmo avassalador por nenhum dos dois candidatos”, observou Lia, apontando que o resultado dependerá da capacidade de mobilização dos setores democráticos.
Ao final do programa, a jornalista avaliou que a extrema direita portuguesa pode estar se aproximando de um teto eleitoral. Segundo ela, cresce a percepção de que o discurso do Chega não oferece soluções reais. “Portugal é um país que valoriza muito a memória da Revolução dos Cravos e da democracia conquistada. Espero que isso se reflita nas urnas”, disse. Ela também expressou expectativa de que o segundo turno consolide uma barreira democrática contra a radicalização política.
O debate no Democracia no Ar reforçou a leitura de que a eleição presidencial portuguesa extrapola fronteiras nacionais. Assim como em outros países, o confronto entre um projeto democrático moderado e uma proposta populista de extrema direita coloca Portugal no centro de um embate global sobre o futuro da democracia liberal.
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