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Esquema do PCC envolvia usinas de cana, maquininhas e fintechs, mostra investigação

Da Redação

A megaoperação integrada desarticulou o esquema bilionário do PCC que ia da plantação de cana ao crédito com maquininhas de cartão e ocultação via fintechs, usando o combustível como meio de lavagem e fraude massiva.

A mais recente investida das forças de segurança contra o crime organizado revelou uma complexa engrenagem financeira do Primeiro Comando da Capital (PCC), que integrava setores como cana-de-açúcar, combustíveis, maquininhas de cartão e fintechs para lavar bilhões de reais.

A operação, considerada a maior da história da Polícia Federal, foi desencadeada em conjunto com a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo. Envolveu 1,4 mil agentes, 350 mandados em oito estados, além do sequestro de R$ 3,2 bilhões em bens e valores, incluindo veículos, imóveis, embarcações e o bloqueio de fundos de investimento. Foram 14 prisões preventivas decretadas — mas apenas seis efetivadas — e vestígios de possível vazamento da operação ainda são investigados.

O PCC montou uma cadeia diversificada que ia desde fazendas de cana-de-açúcar e usinas, passando por postos de combustíveis e refinarias, até sofisticadas estruturas de movimentação financeira. O grupo importava metanol, que entrava no Brasil via Porto de Paranaguá e era utilizado — em proporções de até 90% misturado com gasolina — em postos de combustíveis, afrontando os limites legais e causando riscos ambientais e à segurança veicular.

Divisórias de depósitos, empresas de fachada, transportadoras, distribuidoras e usinas foram utilizadas para ocultar os recursos oriundos do tráfico. O dinheiro sujo era ainda circulado em dinheiro vivo e por meio de maquininhas de cartão, muitas vezes direcionado a “contas-bolsão” em bancos comerciais para disfarçar a origem.

Ainda que algumas maquininhas não tivessem atividade operacional, chegaram a movimentar R$ 2 bilhões em notas fiscais em até quatro anos. Só nesse setor, foram sonegados, estima-se, cerca de R$ 7,6 bilhões. O uso das maquininhas apareceu como peça-chave no dispositivo de lavagem: elas permitiam pagamentos que terminavam em fintechs, que não identificavam clientes individualmente, o que dificultava o rastreamento.

Essa estratégia evoluiu com o uso de fintechs como bancos paralelos, que movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Essas instituições criaram contas-bolsão e operaram com elevados níveis de anonimato. Além disso, foram estruturados cerca de 40 fundos de investimento utilizados para aquisições de bens, transporte e imóveis; muitos deles foram criados imediatamente após a compra de usinas. O pouco rigor para identificação dos cotistas favorecia a estrutura de disfarce.

Entre as gestoras citadas como parte dos fundos estavam Reag Capital, Trustee, Zurich Fundo de Investimento — todos com atuação na Faria Lima — e BK Bank, fintech apontada como braço financeiro principal do esquema.

Diante do uso generalizado de fintechs para lavagem, a Receita Federal anunciou que em breve publicará uma nova instrução normativa que restabelecerá obrigações de transparência e envio periódico de informações financeiras (via e-Financeira) para essas instituições, equivalente às exigidas dos bancos tradicionais.