Historiadora Marcília Gama alerta para heranças da ditadura, espionagem informacional e pressão geopolítica dos EUA no debate eleitoral
Em entrevista ao Café com Democracia, programa da Rede de Comitês Populares pela Democracia exibido pela Rádio e TV Atitude Popular, a professora Marcília Gama, doutora em História e especialista em Arquivologia, afirmou que a disputa de 2026 tende a ocorrer sob forte tensão informacional, com risco de “invasões” por mentiras organizadas e estruturas de vigilância herdadas do passado autoritário. A conversa foi conduzida por Luiz Regadas, em uma edição dedicada às eleições, às heranças da ditadura de 1964 e à influência geopolítica dos Estados Unidos.
Ainda no início do programa, Marcília chamou atenção para a permanência de aparatos de inteligência e espionagem montados e aperfeiçoados ao longo do século XX — e que, segundo ela, não desapareceram com a redemocratização. “Eu chamaria atenção para a estrutura de espionagem (…) aperfeiçoada na ditadura civil-militar de 64 a 85. Estrutura essa que permanece”, disse, associando a lógica de atuação a práticas silenciosas e obscuras, potencializadas hoje por um “arsenal de tecnologia” disponível.
Espionagem, “pseudoverdade” e a disputa por narrativa
Para a professora, o peso das eleições de 2026 não pode ser medido apenas por pesquisas e palanques, porque haverá — de forma mais sofisticada — uma disputa para desmoralizar políticas públicas e reconstruir “verdades” por repetição, manipulação e medo. Na avaliação dela, setores da extrema direita devem intensificar o uso de fake news e de mecanismos de “pseudoverdade” para atacar os avanços do governo Luiz Inácio Lula da Silva e interditar o debate público.
“Eles vão fazer de tudo para boicotar isso através de inverdades amplamente divulgadas, espionagem”, afirmou. Ela citou que escândalos e crises podem ser instrumentalizados em forma de narrativa política — inclusive apontando, no debate público, tentativas de vincular o governo a casos que, segundo sua leitura, envolvem majoritariamente forças à direita do espectro político.
O passado que não passou e os arquivos que não abrem
Quando o tema migrou para memória e apagamento, Marcília fez uma defesa enfática do papel dos arquivos, da preservação e do acesso público a documentos históricos — e relacionou o apagamento da ditadura à facilidade com que narrativas negacionistas circulam, sobretudo entre os mais jovens.
“A memória é algo fundamental porque ela representa a identidade das pessoas”, disse. Para ela, regimes autoritários atuam para “distanciar” a população de suas raízes e referências, deixando-a “à deriva” e vulnerável a novas formas de dominação cultural. Nesse contexto, criticou a falta de acesso pleno aos acervos militares e sugeriu que a dimensão real da violência de Estado ainda está subnotificada.
“Já se passaram mais de 50 anos do golpe de 64 e não tivemos acesso pleno aos acervos militares. (…) Tenho absoluta certeza que o número de mortes e desaparecidos políticos não se restringe a 440 e poucas pessoas”, afirmou, argumentando que o sigilo e a obstrução dificultam o aprofundamento das investigações e alimentam a fabricação de versões convenientes.
Marcília também defendeu a importância de obras culturais como forma de disputa de memória, citando o filme Ainda Estou Aqui e o longa O Agente Secreto como produções que ajudam a recolocar o passado autoritário no centro do debate público. Na leitura dela, “ninguém deve esquecer o que ocorreu” — justamente porque mecanismos de vigilância e controle podem reaparecer sob novas embalagens.
A geopolítica dos EUA e o lugar do Brasil no tabuleiro
Ao tratar de política internacional, Marcília avaliou que os Estados Unidos vivem um momento de reação agressiva para preservar hegemonia global, em meio a disputas com países asiáticos e ao fortalecimento de emergentes. Nessa análise, ela apontou o presidente Donald Trump como vetor de uma postura imperial mais explícita — e mencionou episódios e declarações que, na visão dela, ampliam a sensação de imprevisibilidade e risco no sistema internacional.
“O mundo inteiro está apavoroso com as atitudes tomadas por Trump”, disse, ao mesmo tempo em que avaliou que o Brasil não é um alvo simples de ser confrontado, justamente por causa do peso internacional de Lula e de articulações diplomáticas em curso. Ela citou conexões e diálogos com lideranças globais, mencionando Emmanuel Macron e Xi Jinping, além do papel do BRICS como parte de um cenário de alianças que pode impor custos a aventuras unilaterais.
A professora também avaliou que as pressões externas se combinam com um problema interno: uma extrema direita que, segundo ela, opera por subserviência e propaganda, sem compromisso com soberania e desenvolvimento nacional. “A gente tem uma extrema direita (…) que se inclina aos interesses americanos”, afirmou, defendendo vigilância e organização social.
“Resistência nas redes” e disputa de consciência
Nas considerações finais, Marcília convocou a audiência a encarar 2026 como um momento de “resistência” — não apenas institucional, mas cotidiana: na conversa com familiares, vizinhos, colegas de trabalho e, especialmente, no combate à desinformação.
“Eu clamo a população para um trabalho de resistência nas redes sociais, resistência com seus vizinhos, seus amigos, seus parentes”, disse. Para ela, o que está em jogo ultrapassa a alternância de governo: é uma disputa por memória, por soberania e pela capacidade do país de não ser empurrado de volta ao ciclo de tutela externa e autoritarismo interno.
A entrevista terminou com um recado direto contra o “vira-latismo” político e cultural e com a defesa de autoestima nacional como antídoto à dominação simbólica: amar o país, conhecer sua história, proteger sua democracia e disputar informação como disputa de futuro.
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