Atitude Popular

“Estamos vivendo uma guerra civil de baixa intensidade”

No quadro “Antes que acabe”, os professores Victor Marques e Sandra Helena analisam a chacina no Rio de Janeiro, a crise da segurança pública e o papel da extrema direita na consolidação de uma necropolítica à brasileira

Na edição de 31 de outubro do programa Democracia no Ar, transmitido pela Rádio e TV Atitude Popular, a jornalista Sara Goes recebeu os professores Victor Marques (UFABC) e Sandra Helena (filosofia) para o quadro “Antes que acabe”, um espaço fixo exibido sempre na última sexta-feira do mês. A proposta é revisitar, com ironia e acidez, os acontecimentos mais marcantes antes que o mês — ou o mundo — acabe.

O episódio, de tom sombrio, girou em torno da chacina do Complexo da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, que deixou mais de 120 mortos e reacendeu o debate sobre a militarização da segurança pública. O ponto de partida da conversa foi o artigo de Reynaldo Aragon, publicado no site Código Aberto, intitulado “A farsa do narcoterrorismo: como o Rio virou um laboratório da guerra híbrida contra o Brasil”.

“É muito difícil, para nós da esquerda, mas sobretudo para nós que ainda temos empatia, relatar mais uma vez um acontecimento dessa magnitude”, afirmou Sandra Helena, que contextualizou a operação “Contenção” dentro de uma engrenagem política e simbólica maior. “Há uma coreografia do horror. A operação foi um fracasso absoluto. Nenhum dos objetivos oficiais foi cumprido. E mesmo assim, o governador chamou de sucesso.”

A professora destacou a ausência de um discurso progressista sobre segurança pública, apontando que o campo da esquerda deixou esse tema nas mãos da direita. “Enquanto fugimos desse debate, eles ocuparam o espaço. E quando nossas lideranças tentam enfrentá-lo, acabam reproduzindo a linguagem dos apresentadores sensacionalistas da televisão.”

Sandra relembrou o caso Marielle Franco e o papel das facções e milícias como “poderes paralelos” que o Estado se recusa a enfrentar de forma estruturada. “Nós temos facções que impõem corte de cabelo, cor de roupa e até gestos que podem significar a morte. Isso precisa ser dito e compreendido sem medo.”

Para o professor Victor Marques, a barbárie atual revela o colapso de um Estado que já não controla nem suas próprias forças armadas. “Estamos vivendo uma guerra civil de baixa intensidade. Morre mais gente no Brasil do que na guerra da Ucrânia. E as nossas forças policiais estão brutalizadas, agindo à margem da lei, movidas por sentimento de vingança.”

Marques alertou para a banalização da morte e para a naturalização do massacre como política de Estado. “Há um setor da sociedade aplaudindo o genocídio, achando que a resposta à criminalidade é o extermínio. Isso é fascismo puro. O deputado André Fernandes pediu que a chacina fosse aplaudida. Ele disse com todas as letras que precisamos de mais massacres. Isso é assustador.”

O professor também fez uma crítica à esquerda: “Não basta denunciar a violência policial. Se a esquerda não apresentar uma resposta concreta à tirania das facções, vai perder o povo. As pessoas estão acuadas entre o crime e o Estado. Elas querem viver, e quem oferecer uma solução, ainda que autoritária, ganha o debate.”

A comparação com o modelo “salvadorenho” de Nayib Bukele, citado por Marques, serviu de alerta. “Bukele criou uma ditadura com fachada de eficiência: protege uma facção, massacra as outras e transforma o país num protetorado dos Estados Unidos. Esse é o modelo que a direita brasileira quer importar.”

Ao longo do programa, os comentaristas traçaram paralelos entre a brutalidade nas favelas e o cenário internacional, destacando a ofensiva militar em Gaza e o conceito de necropolítica, formulado por Achille Mbembe, segundo o qual o Estado decide quem deve viver e quem pode morrer. “O Brasil vive sua própria Faixa de Gaza”, sintetizou Sandra. “O preto e o pobre se tornaram a população excedente de um sistema que já não tem nada a oferecer além da morte.”

O quadro, que começou apocalíptico, terminou com uma fresta de esperança. Ao comentar as eleições nos Estados Unidos e o avanço de novas lideranças progressistas, Marques citou o candidato socialista Zohran Mamdani, em Nova York, e disse que “coisas boas ainda podem acontecer”.

“Antes que acabe” é isso: uma análise do mundo no fio da navalha, entre o colapso e a reinvenção. “A gente é apocalíptico, mas a gente termina com esperança”, brincou Sara Goes ao encerrar a transmissão.


📌 Assista na íntegra:
https://www.youtube.com/watch?v=kHG9dk43Qlc

📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: TV Atitude Popular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 33.829.340/0001-89

compartilhe: