Da Redação
Sanções, perseguição financeira, guerra informacional e coerção diplomática compõem a nova fase das agressões dos Estados Unidos contra Cuba. Do ponto de vista do Sul Global, trata-se da continuidade de um bloqueio colonial atualizado para o século XXI, que busca estrangular a soberania cubana, punir seu exemplo histórico e enviar um recado disciplinador a toda a América Latina.
Em 8 de fevereiro de 2026, a relação entre Estados Unidos e Cuba permanece marcada por um padrão histórico de hostilidade que atravessa governos, partidos e conjunturas internacionais. Apesar das mudanças de retórica ao longo das décadas, o núcleo da política norte-americana em relação à ilha segue inalterado: asfixiar economicamente, isolar diplomaticamente e deslegitimar politicamente um projeto que ousou romper, ainda em 1959, com a lógica de subordinação hemisférica.
O bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba — em vigor há mais de seis décadas — não apenas permanece ativo, como foi reforçado e sofisticado nos últimos anos. A permanência de Cuba na lista unilateral norte-americana de “Estados patrocinadores do terrorismo” segue como um dos instrumentos mais brutais dessa política. Essa designação, rejeitada de forma quase unânime pela comunidade internacional, funciona como uma sanção ampliada, pois impede transações bancárias, encarece importações básicas, afasta investimentos e dificulta qualquer operação financeira internacional que envolva a ilha.
Do ponto de vista do direito internacional, trata-se de uma medida arbitrária, sem respaldo em organismos multilaterais, utilizada como arma política. Do ponto de vista do Sul Global, é um mecanismo clássico de coerção imperial: não basta sancionar o país-alvo; é preciso punir também quem se relaciona com ele, criando um cinturão de medo ao redor da economia cubana. Bancos europeus, latino-americanos e asiáticos continuam evitando operações com Cuba, não por ilegalidade, mas por receio de retaliações do sistema financeiro norte-americano.
A agressão não se limita ao plano econômico. Nos últimos meses, Washington intensificou ações de guerra informacional e diplomática, buscando enquadrar Cuba como um “Estado falido” e responsabilizar exclusivamente o governo cubano pelas dificuldades econômicas enfrentadas pela população. Essa narrativa omite deliberadamente o impacto estrutural do bloqueio, que afeta desde a compra de alimentos e medicamentos até o acesso a tecnologias básicas, peças industriais e sistemas de pagamento internacionais.
A retórica dos “direitos humanos”, frequentemente mobilizada pelos EUA, aparece de forma seletiva e instrumentalizada. Enquanto Cuba é alvo permanente de condenações unilaterais, violações sistemáticas cometidas por aliados estratégicos de Washington raramente recebem o mesmo tratamento. Essa assimetria revela que não se trata de uma política humanitária, mas de um dispositivo ideológico voltado à deslegitimação de governos não alinhados.
Outro eixo central da agressão atual é a perseguição às missões médicas cubanas no exterior. Reconhecidas internacionalmente por sua atuação em regiões pobres, periféricas e em situações de emergência, essas brigadas passaram a ser alvo de campanhas coordenadas que as acusam, sem provas, de “trabalho forçado”. A ofensiva busca não apenas minar uma das principais fontes de receita externa de Cuba, mas também destruir um dos maiores símbolos de soft power solidário do Sul Global, baseado em cooperação, não em dominação.
Essa ofensiva ocorre paralelamente ao endurecimento das restrições a viagens, remessas e intercâmbios. Apesar de promessas anteriores de flexibilização, o que se observa é a manutenção de barreiras que impactam diretamente famílias cubanas e a diáspora. Limitar remessas e viagens não atinge “elites governantes”; atinge o cotidiano da população, funcionando como punição coletiva — algo expressamente vedado pelo direito internacional humanitário, mas normalizado quando o alvo é um país periférico.
No plano geopolítico mais amplo, a intensificação das agressões contra Cuba deve ser lida como parte de um reposicionamento estratégico dos EUA diante da multipolaridade. O fortalecimento de relações de Cuba com países da Ásia, da África, do Oriente Médio e da própria América Latina incomoda Washington não pelo impacto econômico direto, mas pelo valor simbólico e político. Cuba segue sendo um marcador histórico de autonomia, um lembrete de que é possível resistir por décadas à pressão da maior potência militar e financeira do planeta.
Para o Sul Global, Cuba não é apenas um país sob sanções; é um caso-escola. O que se faz hoje contra Havana pode ser replicado amanhã contra qualquer Estado que questione a hierarquia internacional vigente. A extraterritorialidade das leis norte-americanas, a criminalização de relações comerciais legítimas e o uso do dólar como arma geopolítica são instrumentos que extrapolam o caso cubano e estruturam uma ordem internacional profundamente desigual.
Apesar desse cerco, Cuba segue demonstrando resiliência política e social. O Estado cubano tem buscado diversificar parcerias, fortalecer relações Sul–Sul, ampliar acordos energéticos e tecnológicos e resistir, com limitações evidentes, a um bloqueio que afeta todas as dimensões da vida nacional. A resistência cubana não deve ser romantizada, mas compreendida em seu contexto: trata-se de um país que opera sob condições artificiais de escassez, impostas deliberadamente como política externa de outra nação.
Ano após ano, a Assembleia Geral da ONU condena o bloqueio a Cuba por esmagadora maioria. Ano após ano, os Estados Unidos ignoram essa posição quase consensual da comunidade internacional. Esse dado, por si só, desmonta qualquer narrativa de que a política contra Cuba seja guiada por valores universais. Ela é guiada por interesse imperial, puro e simples.
Do ponto de vista anti-imperialista, a atual fase das agressões dos EUA a Cuba confirma que o problema nunca foi um governo específico, nem uma liderança, nem um modelo econômico isolado. O problema é a existência de um projeto soberano fora do controle direto de Washington, a poucas milhas de seu território. Defender Cuba, nesse sentido, não é apenas um gesto de solidariedade; é um ato de autodefesa estratégica do Sul Global, diante de um sistema internacional que insiste em punir quem ousa escolher outro caminho.


