Ex-ministra das Relações Exteriores da Alemanha é interrompida por ativistas pró-Palestina durante palestra sobre paz e multilateralismo na Suécia. Manifestantes denunciam o apoio alemão às operações israelenses em Gaza e cobram explicações sobre declarações que relativizaram a proteção de instalações civis. Confronto ocorre no mesmo dia em que uma comissão da ONU apresenta novas conclusões sobre crimes internacionais cometidos contra palestinos.
Da Redação
A ex-ministra das Relações Exteriores da Alemanha Annalena Baerbock enfrentou uma série de protestos durante uma palestra na Universidade de Uppsala, na Suécia, depois que estudantes e ativistas pró-Palestina a confrontaram por sua atuação diplomática durante a guerra na Faixa de Gaza. Convidada para falar sobre cooperação internacional, liderança política e o futuro do multilateralismo, a antiga chefe da diplomacia alemã foi repetidamente interrompida por manifestações que questionavam o apoio de Berlim às operações militares israelenses e sua própria responsabilidade política na defesa de medidas que atingiram a população civil palestina. O episódio, ocorrido na segunda-feira (26) e divulgado internacionalmente nesta quinta-feira (29), expôs as contradições entre o discurso europeu de defesa dos direitos humanos e as decisões concretas adotadas por governos ocidentais durante o conflito.
O confronto aconteceu no auditório principal da Universidade de Uppsala, uma das instituições acadêmicas mais antigas e prestigiadas da Europa. Baerbock havia sido convidada para pronunciar a tradicional Conferência Dag Hammarskjöld, organizada anualmente pela universidade em parceria com a fundação dedicada à memória do diplomata sueco que exerceu o cargo de secretário-geral das Nações Unidas entre 1953 e 1961.
O tema escolhido para a conferência foi Juntos somos mais fortes: redefinindo a liderança em um mundo fragmentado — a ONU e o futuro do multilateralismo.
A apresentação deveria abordar a necessidade de fortalecer a cooperação internacional diante da multiplicação dos conflitos, da fragmentação política e das dificuldades enfrentadas pelas instituições multilaterais. Entretanto, a trajetória da própria palestrante tornou-se o centro das intervenções de parte da plateia.
Durante a exposição, manifestantes começaram a questionar a antiga ministra sobre sua responsabilidade política diante das operações militares israelenses em Gaza.
Um dos participantes acusou Baerbock de ter justificado ataques contra hospitais e escolas durante sua passagem pelo Ministério das Relações Exteriores alemão. Outro questionou a coerência de uma autoridade que defendia a liberdade e a democracia enquanto seu governo autorizava exportações de equipamentos militares para Israel.
As perguntas foram acompanhadas por protestos repetidos, registrados em vídeos que posteriormente circularam pelas redes sociais.
Uma das intervenções questionou diretamente quais povos eram contemplados pela concepção de liberdade defendida pela ex-ministra e se os direitos dos palestinos recebiam a mesma consideração dispensada aos israelenses.
Baerbock tentou inicialmente manter a continuidade da conferência. Segundo as reportagens publicadas pelos jornais alemães Berliner Zeitung e Junge Welt, a ex-chanceler afirmou que as críticas poderiam ser apresentadas durante uma rodada posterior de perguntas.
As interrupções, entretanto, prosseguiram.
Em determinado momento, Baerbock elevou o tom e respondeu: “Agora eu estou falando!”.
A reação ampliou a tensão no auditório. Conforme os relatos jornalísticos, a discussão prometida aos participantes não chegou a acontecer.
O episódio ganhou repercussão por uma circunstância particularmente significativa: a conferência homenageava Dag Hammarskjöld, uma das figuras históricas associadas à defesa da independência das Nações Unidas, à diplomacia multilateral e à responsabilidade internacional na prevenção de conflitos.
Baerbock havia sido escolhida para receber a medalha que acompanha a tradicional conferência, reconhecimento concedido a personalidades cuja trajetória é associada aos princípios de solidariedade internacional, humanismo e cooperação.
Entretanto, para os manifestantes, a homenagem contrastava com decisões tomadas pela ex-ministra quando integrava o governo alemão.
A controvérsia tem antecedentes documentados.
Entre 2021 e 2025, Annalena Baerbock comandou o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, inicialmente sob a liderança do chanceler Olaf Scholz. Durante esse período, a política externa alemã foi marcada por duas grandes guerras: o conflito entre Rússia e Ucrânia e a ofensiva israelense na Faixa de Gaza, iniciada depois dos ataques liderados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023.
Os ataques daquele dia mataram aproximadamente 1.200 pessoas em Israel e resultaram na captura de cerca de 250 reféns, segundo os registros disponíveis. A Alemanha condenou a ofensiva do Hamas e reafirmou seu compromisso histórico com a segurança israelense.
A posição alemã possui raízes na responsabilidade histórica do Estado e da sociedade alemães pelo Holocausto, durante o regime nazista.
Esse compromisso, frequentemente apresentado como uma razão de Estado, constitui uma das referências centrais da diplomacia alemã em suas relações com Israel.
Entretanto, sua aplicação ao conflito em Gaza tornou-se objeto de controvérsia à medida que cresceram as mortes de civis palestinos, a destruição de moradias, hospitais e escolas e as denúncias de violações do direito internacional humanitário.
Durante sua gestão, Baerbock defendeu o direito de Israel de se proteger contra ataques armados, ao mesmo tempo que afirmava que todas as operações militares deveriam respeitar as normas internacionais.
Na prática, porém, a Alemanha manteve autorizações para exportação de equipamentos militares ao governo israelense.
Segundo dados divulgados pelo Ministério da Economia alemão, o governo autorizou, entre janeiro e dezembro de 2024, aproximadamente 161 milhões de euros em exportações de armamentos e outros equipamentos militares para Israel.
O número representa o valor das autorizações concedidas, não necessariamente o volume de equipamentos efetivamente entregue ou utilizado nas operações em Gaza.
A distinção é importante, mas não elimina a dimensão política da decisão. Autorizar exportações militares durante uma guerra implica avaliar riscos, responsabilidades e a possibilidade de utilização dos equipamentos em operações contrárias ao direito internacional.
A Alemanha sustentou que seus procedimentos de autorização consideravam essas obrigações e que não existia uma liberação indiscriminada de equipamentos militares.
Organizações de direitos humanos e setores da oposição alemã, entretanto, questionaram a continuidade das exportações diante das informações sobre mortes de civis e destruição de infraestrutura na Faixa de Gaza.
Uma das manifestações mais controversas de Baerbock ocorreu em 10 de outubro de 2024, durante um pronunciamento no Parlamento alemão.
Na ocasião, a ministra afirmou que instalações civis poderiam perder sua condição de proteção quando fossem utilizadas por integrantes de organizações armadas para finalidades militares.
A declaração foi apresentada como uma interpretação das normas humanitárias aplicáveis a situações nas quais combatentes utilizam escolas ou outras estruturas civis para conduzir operações.
O problema levantado por seus críticos estava na possibilidade de utilizar essa interpretação como justificativa política para ataques contra instalações que abrigavam civis.
Baerbock não afirmou naquele discurso que qualquer hospital ou escola poderia ser bombardeado indiscriminadamente. Afirmou que a utilização militar de determinados locais poderia modificar sua condição jurídica.
Essa distinção é necessária para compreender corretamente o conteúdo da declaração e a controvérsia que ela provocou.
O direito internacional humanitário estabelece que instalações civis possuem proteção contra ataques militares. Em determinadas condições, objetos utilizados para contribuir efetivamente para operações militares podem perder a proteção associada a seu caráter exclusivamente civil.
Entretanto, essa possibilidade não representa autorização automática para destruir escolas, hospitais ou edifícios ocupados por pessoas civis.
Permanecem aplicáveis os princípios de distinção, proporcionalidade e precaução, que exigem identificar objetivos militares legítimos, avaliar os riscos para a população e evitar danos civis excessivos em relação à vantagem militar concreta e direta esperada.
Os hospitais possuem proteção especial. Mesmo quando há indícios de utilização para atos prejudiciais ao adversário fora de suas funções humanitárias, existem condições adicionais, incluindo exigências relativas à advertência prévia, além da proteção permanente de pacientes e profissionais de saúde.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha ressalta que a presença de combatentes ou a suspeita de utilização militar não elimina automaticamente as obrigações destinadas a preservar vidas civis.
É nesse contexto que as declarações de Baerbock continuam provocando críticas.
Ao enfatizar as circunstâncias em que instalações civis poderiam perder determinada proteção, a ministra foi acusada por organizações pró-Palestina de oferecer respaldo político à justificativa israelense para ataques contra estruturas utilizadas pela população de Gaza.
A antiga chefe da diplomacia alemã rejeitou a interpretação de que apoiava ataques indiscriminados.
Em diferentes declarações oficiais, também condenou o sofrimento da população palestina, exigiu ampliação da assistência humanitária e defendeu a necessidade de um cessar-fogo.
Em julho de 2024, por exemplo, afirmou publicamente que não existiam lugares seguros para civis na Faixa de Gaza e que as forças israelenses tinham a obrigação de protegê-los.
A coexistência dessas declarações com a continuidade de autorizações de exportação militar tornou-se, entretanto, um ponto central das críticas à política externa alemã.
A controvérsia alcançou também a trajetória internacional de Baerbock.
Depois de deixar o Ministério das Relações Exteriores em 2025, a política do Partido Verde alemão foi eleita para presidir a 80ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas.
Assumiu o cargo em setembro de 2025 e permaneceu à frente da Assembleia até setembro de 2026.
Durante sua gestão, defendeu o fortalecimento financeiro da ONU, a reforma do sistema multilateral e a ampliação da participação de mulheres, jovens e países em desenvolvimento nos processos internacionais de decisão.
Sua experiência na organização tornou ainda mais visível a contradição apontada pelos ativistas de Uppsala.
Uma autoridade reconhecida internacionalmente por defender a cooperação multilateral e as normas internacionais continuava sendo questionada por declarações e decisões adotadas durante uma guerra que produziu destruição generalizada e numerosas denúncias de crimes contra a população civil.
O episódio não surgiu isoladamente.
Em maio de 2024, Baerbock já havia enfrentado protestos durante um evento dedicado à democracia em Berlim. Manifestantes criticaram o governo alemão por sua posição sobre Gaza e exigiram o encerramento das exportações de armamentos destinadas a Israel.
Na ocasião, a então ministra tentou responder aos participantes e reafirmou que a Alemanha defendia o direito de israelenses e palestinos viverem em paz.
A repetição de protestos em 2026 demonstra que as controvérsias sobre a guerra continuam presentes no debate político europeu, mesmo depois da saída de Baerbock do governo.
O conflito também passou a ser examinado por instituições internacionais.
Em 26 de outubro de 2026, precisamente o dia da conferência realizada na Suécia, a Comissão Internacional Independente de Investigação das Nações Unidas sobre o Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental, e Israel divulgou novas conclusões sobre violações cometidas no conflito.
A comissão afirmou ter identificado a continuidade de atos genocidas na Faixa de Gaza, além de crimes de guerra e crimes contra a humanidade em territórios palestinos ocupados.
O relatório examinou acontecimentos registrados desde outubro de 2023 e concluiu que os ataques contra civis, a destruição de infraestrutura e outras práticas atribuídas às autoridades e forças israelenses apresentavam características de graves violações do direito internacional.
Segundo o documento, pelo menos 1.431 palestinos foram mortos em Gaza entre 10 de outubro de 2025 e 30 de setembro de 2026, período posterior ao acordo de cessar-fogo anunciado em 2025.
Entre as vítimas identificadas nesse intervalo estavam pelo menos 300 crianças e 130 mulheres.
A comissão também registrou milhares de feridos e destacou a continuidade dos ataques e das restrições à vida cotidiana da população palestina.
Os números se referem ao período analisado no relatório e não representam, necessariamente, o balanço definitivo de vítimas até esta quinta-feira.
As conclusões da comissão possuem grande relevância, mas é necessário esclarecer sua natureza jurídica.
Trata-se de um organismo independente de investigação criado no âmbito do sistema de direitos humanos das Nações Unidas, responsável por reunir informações, examinar provas e formular conclusões e recomendações.
Suas avaliações não equivalem a uma sentença definitiva da Corte Internacional de Justiça ou a uma condenação criminal do Tribunal Penal Internacional.
Israel rejeita as acusações de genocídio e sustenta que suas operações militares são dirigidas contra organizações armadas, principalmente o Hamas.
Entretanto, a existência dessas negativas não elimina a obrigação de examinar os elementos documentais reunidos pelos investigadores internacionais.
A comissão recomendou que Israel interrompa os atos identificados como genocidas, respeite integralmente o direito humanitário e adote medidas de proteção à população palestina.
Também pediu aos demais Estados que utilizem os instrumentos disponíveis para prevenir e punir o genocídio, conforme suas obrigações internacionais.
Esse ponto possui consequências diretas para os países que mantêm relações militares e comerciais com Israel.
As obrigações de prevenção de graves crimes internacionais não desaparecem diante de alianças diplomáticas ou interesses econômicos.
Governos precisam avaliar os riscos associados a transferências de armamentos e à prestação de assistência que possa contribuir para violações do direito internacional.
É nesse terreno que as críticas à antiga política alemã ganham significado mais amplo.
O apoio diplomático e militar a um Estado envolvido em uma guerra pode ser apresentado por seus defensores como instrumento de segurança e preservação de alianças estratégicas.
Por outro lado, organizações humanitárias e juristas questionam a continuidade desse apoio quando existem indícios substanciais de violações graves.
O problema não é exclusivo da Alemanha.
Estados Unidos, Reino Unido e diferentes governos europeus enfrentaram debates sobre sua participação no fornecimento de equipamentos militares, na proteção diplomática de Israel e na execução de medidas destinadas a reduzir o sofrimento humanitário.
As decisões de cada país foram diferentes e precisam ser examinadas individualmente.
O caso alemão, entretanto, apresenta uma dimensão histórica particular por causa da centralidade atribuída à segurança de Israel na política externa de Berlim.
A experiência do Holocausto estabeleceu responsabilidades permanentes de combate ao antissemitismo e à perseguição de comunidades judaicas.
Essas responsabilidades não eliminam a necessidade de proteger os direitos fundamentais da população palestina, tampouco impedem o exame jurídico das condutas de qualquer governo.
A proteção da vida civil e a proibição de crimes internacionais são obrigações que não dependem da identidade nacional, religiosa ou política das vítimas.
A controvérsia em Uppsala também coloca em discussão a própria função das universidades como espaços de debate público.
A conferência de Baerbock era aberta ao público e havia sido organizada para promover reflexão sobre cooperação internacional.
Os estudantes e ativistas tinham interesse direto em questionar a convidada sobre decisões tomadas durante sua trajetória governamental.
Ao mesmo tempo, o direito de protestar convive com a possibilidade de realização de palestras e de debate entre diferentes participantes, sem que interrupções reiteradas impeçam completamente a exposição e a resposta aos questionamentos.
O episódio revela uma tensão entre essas duas dimensões.
Os manifestantes procuraram transformar uma cerimônia dedicada ao multilateralismo em um espaço de cobrança pública sobre responsabilidades políticas.
Baerbock tentou preservar o controle da conferência e remeter as críticas a um momento posterior de discussão.
Segundo as reportagens disponíveis, esse debate não aconteceu.
Não foi possível estabelecer, a partir dos registros examinados, quem decidiu cancelar a rodada de perguntas nem se houve manifestações posteriores dos organizadores sobre as interrupções.
Essa limitação impede atribuir exclusivamente à ex-ministra a responsabilidade pelo encerramento da discussão.
A questão política suscitada pelo protesto, entretanto, permanece.
Durante décadas, governos europeus apresentaram a defesa dos direitos humanos, do multilateralismo e das instituições internacionais como princípios centrais de sua política externa.
A guerra em Gaza intensificou questionamentos sobre a aplicação concreta desses princípios, especialmente quando envolvem aliados estratégicos.
A credibilidade das normas internacionais depende, em grande parte, de sua utilização consistente diante de diferentes conflitos.
Quando determinadas violações recebem condenação imediata e outras são acompanhadas de justificativas políticas ou de respostas mais cautelosas, surgem acusações de tratamento desigual.
Essas acusações precisam ser examinadas segundo os fatos de cada situação, sem pressupor equivalência automática entre conflitos distintos.
Ainda assim, a percepção de seletividade tornou-se parte importante das disputas contemporâneas sobre a legitimidade das instituições internacionais.
O debate também envolve países do Sul Global, que frequentemente reivindicam maior participação nas decisões sobre segurança internacional e criticam assimetrias na aplicação das normas multilaterais.
A guerra em Gaza intensificou essas discussões em organizações internacionais, universidades e movimentos sociais.
O protesto contra Baerbock, realizado em uma instituição acadêmica sueca, é mais uma manifestação desse debate transnacional.
Os ativistas questionaram uma antiga autoridade alemã não apenas sobre declarações individuais, mas sobre o significado político de defender princípios universais enquanto governos aliados são acusados de violações graves desses mesmos princípios.
As acusações dirigidas à ex-ministra não constituem, por si só, demonstração de responsabilidade jurídica pessoal por crimes internacionais.
Essa conclusão exigiria elementos específicos sobre condutas, competências, conhecimento e eventual participação em atos ilícitos.
O que está documentado é sua atuação na formulação e defesa da política externa alemã durante parte central da guerra, incluindo declarações sobre a proteção de instalações civis e apoio governamental a exportações militares.
Também estão documentadas suas manifestações em defesa da assistência humanitária, da proteção dos palestinos e da observância do direito internacional.
É precisamente a relação entre essas diferentes posições que permanece submetida à crítica pública.
A ex-ministra deixou o governo, presidiu a Assembleia Geral da ONU e passou a atuar em espaços internacionais de reflexão sobre liderança e cooperação.
Entretanto, as decisões tomadas durante sua gestão continuam sendo examinadas à luz das consequências humanas e políticas da guerra.
O confronto de Uppsala demonstra que o encerramento de um mandato não encerra necessariamente o debate sobre as responsabilidades de seus ocupantes.
Também revela como as universidades se tornaram espaços de contestação das políticas relacionadas a Israel e à Palestina, reunindo estudantes, pesquisadores e movimentos sociais que reivindicam maior coerência entre os discursos diplomáticos e o cumprimento das normas humanitárias.
O episódio não altera, por si só, a política externa alemã ou as decisões de organismos internacionais.
Seu significado está na persistência de uma cobrança que acompanha autoridades responsáveis por decisões tomadas em períodos de guerra.
A Conferência Dag Hammarskjöld foi concebida para homenagear a cooperação internacional, o humanismo e a construção da paz.
Na edição de 2026, porém, parte do público utilizou justamente esses princípios para confrontar a palestrante sobre Gaza.
A cena sintetiza uma das grandes disputas da política internacional contemporânea: a distância que pode existir entre a defesa pública de valores universais e as escolhas concretas dos Estados diante de conflitos envolvendo seus parceiros estratégicos.
Para os manifestantes, a questão era saber como falar de paz sem responder pelas consequências das decisões tomadas durante a guerra.
Para Baerbock, permanecia a defesa de uma atuação diplomática que, segundo suas próprias declarações, procurou conciliar a segurança de Israel com o respeito ao direito humanitário e a proteção da população palestina.
O confronto não resolveu essa divergência.
Mas demonstrou que o debate sobre Gaza continua alcançando os espaços nos quais antigas autoridades são homenageadas por sua trajetória internacional.
A guerra, suas vítimas e as responsabilidades políticas relacionadas a ela permanecem presentes muito além das fronteiras do Oriente Médio.
Em Uppsala, enquanto se discutia o futuro do multilateralismo, o passado recente da diplomacia alemã voltou a exigir respostas.