Da Redação
Enquanto o mundo rema em ceticismo e mediações, o Faixa de Gaza vive uma ofensiva sistemática que uma comissão da United Nations Human Rights Council classificou como genocídio — bombardeios incessantes, bloqueios, fome, ataques a médicos e crianças — tudo sob a lógica de “aniquilar” um povo. A cobertura midiática ocidental segue parcial, mas os fatos não esperam.
O horror em andamento
Gaza está sendo apagada do mapa diante dos olhos do mundo. O número de mortos palestinos ultrapassa 66 mil, segundo estimativas de organismos humanitários, e a cifra cresce a cada dia. A maioria das vítimas é composta por mulheres e crianças. Mais de 80% da população está deslocada, vivendo em ruínas ou abrigos improvisados sem água, energia, medicamentos ou alimento.
Hospitais foram transformados em escombros, maternidades foram bombardeadas e clínicas pediátricas ficaram sem combustível para operar equipamentos de suporte vital. Médicos realizam amputações sem anestesia. Crianças feridas morrem lentamente por falta de antibióticos. Essa não é uma guerra: é uma campanha sistemática de aniquilação, planejada para destruir as condições de existência de um povo.
Genocídio em definição e prática
A Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio de 1948 define o crime como qualquer ato cometido com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Os atos incluem assassinato, causar danos físicos e mentais graves, impor condições de vida destinadas à destruição, impedir nascimentos e transferir crianças à força.
Todos esses elementos estão presentes na Faixa de Gaza. O extermínio físico é acompanhado pela destruição simbólica, social e cultural da Palestina. A intenção de eliminar o povo palestino não é disfarçada: ela está presente no discurso de autoridades israelenses que falam em “limpar Gaza” ou “tornar o território inabitável”.
O bloqueio total de alimentos, água e combustível é usado como arma de guerra, punindo civis e impondo fome deliberada. Organizações humanitárias relatam uma situação de colapso absoluto: corpos insepultos nas ruas, crianças desnutridas, hospitais lotados de feridos que não podem ser atendidos.
O papel da mídia ocidental e a engenharia da omissão
A cobertura do genocídio pela grande imprensa ocidental é um dos capítulos mais vergonhosos da história contemporânea. Termos como “conflito”, “guerra” ou “retaliação” substituem a palavra que define a realidade: genocídio. Essa escolha linguística é política.
As redações hegemônicas operam dentro de uma lógica de alinhamento ideológico e econômico com o eixo geopolítico de Washington e Tel Aviv. As mortes palestinas são despersonalizadas, estatísticas frias; as israelenses, por outro lado, recebem nome, história, emoção. Essa assimetria constrói a desumanização necessária para legitimar a matança.
A imprensa que deveria vigiar o poder tornou-se o seu escudo narrativo. Repete sem questionar os comunicados militares israelenses, ignora relatórios da ONU e silencia vozes palestinas que tentam narrar a própria tragédia. O jornalismo ocidental, nesse contexto, cumpre papel de cúmplice — não por omissão, mas por escolha.
Complicidade internacional e o colapso da moral global
Nenhum genocídio se sustenta sem cumplicidade. A destruição de Gaza é viabilizada por uma rede de apoio militar, diplomático e econômico que inclui potências ocidentais. Armas, inteligência, logística e financiamento fluem livremente para Tel Aviv. Enquanto isso, resoluções de cessar-fogo são bloqueadas nos fóruns internacionais.
Os Estados Unidos, em particular, mantêm a retórica da “autodefesa” enquanto vetam sucessivamente iniciativas de investigação independente. A Europa, fragmentada e moralmente em ruínas, finge neutralidade enquanto continua fornecendo armamentos e tecnologias de vigilância. É a diplomacia do cinismo: os mesmos governos que se dizem defensores dos direitos humanos financiam a destruição de hospitais, escolas e lares palestinos.
Trata-se de um colapso ético global. A ordem internacional nascida da Segunda Guerra Mundial — que prometia nunca mais permitir atrocidades semelhantes — mostra-se impotente e hipócrita. O genocídio palestino expõe a falência moral do sistema multilateral, sequestrado por interesses geopolíticos e pela subserviência ao poder militar ocidental.
A dimensão humana da catástrofe
Mais de dois milhões de pessoas vivem sob cerco absoluto. As vozes que ainda ecoam de Gaza falam de fome, sede, medo e exaustão. Há famílias inteiras desaparecidas, bairros transformados em crateras, mães que enterram filhos com as próprias mãos. O tecido social palestino foi destruído, mas a resistência continua viva — nas cozinhas comunitárias improvisadas, nas crianças que ainda cantam hinos de liberdade, nas enfermeiras que voltam aos escombros para tentar salvar vidas.
O genocídio é também cultural: bibliotecas destruídas, universidades bombardeadas, jornalistas assassinados, arquivos apagados. Israel não busca apenas eliminar pessoas, mas a própria memória de um povo.
A voz do Sul Global
Enquanto o Ocidente desvia o olhar, países do Sul Global — entre eles Brasil, África do Sul, Argélia, Bolívia e Malásia — vêm denunciando de forma cada vez mais firme o genocídio e exigindo responsabilização internacional. O Tribunal de Haia já recebeu petições que acusam Israel de violar a Convenção de Genocídio e o direito humanitário internacional.
A solidariedade do Sul Global não é apenas diplomática: é histórica. São nações que conhecem a opressão colonial, o racismo institucional e o peso da violência imposta pelo Norte. Por isso, veem na Palestina um espelho de si mesmas.
Conclusão
Em 26 de outubro de 2025, o genocídio do povo palestino continua. A cada bomba, uma escola desaparece; a cada silêncio cúmplice, uma criança morre. O mundo está diante de uma escolha civilizatória: permitir que o crime siga impune ou reerguer o sentido de humanidade que o imperialismo destruiu.
A verdade é simples e brutal — não há simetria entre ocupante e ocupado, entre opressor e oprimido, entre colônia e colono. Gaza é hoje o epicentro do fracasso moral do Ocidente, mas também o símbolo da resistência de um povo que, mesmo entre ruínas, ainda grita: Palestina viverá.


