Em declaração contundente, chanceler Mauro Vieira afirma que Washington buscou abrir setores inteiros da economia brasileira sem oferecer contrapartidas, rejeita acusações sobre Pix e Amazônia e diz que tarifas têm motivação política
Da Redação
O governo brasileiro elevou o tom de sua resposta ao tarifaço anunciado pelos Estados Unidos e acusou diretamente a administração do presidente Donald Trump de utilizar a política comercial como instrumento de pressão política contra o Brasil. Em declaração à imprensa nesta quarta-feira (16), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que as tarifas de 25% impostas às exportações brasileiras não possuem justificativa econômica, são resultado de uma investigação unilateral e fazem parte de uma tentativa de impor ao país condições consideradas inaceitáveis para sua soberania.
Ao longo de quase duas páginas, o chanceler apresentou uma reconstrução detalhada das negociações mantidas entre Brasília e Washington desde 2025, rebateu as críticas feitas pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e afirmou que o Brasil jamais se recusou ao diálogo. Segundo Mauro Vieira, o problema não foi a ausência de negociação, mas a recusa do governo brasileiro em aceitar exigências que classificou como “desmedidas” e “desprovidas de reciprocidade”.
“Os Estados Unidos queriam uma capitulação”
A declaração do ministro apresenta uma das críticas mais duras já feitas pelo governo Lula à condução das negociações comerciais com os Estados Unidos.
Segundo Mauro Vieira, durante o processo de negociação, representantes norte-americanos exigiram abertura “total, irrestrita e exclusiva” de setores inteiros da economia brasileira, sem oferecer qualquer benefício equivalente aos produtos brasileiros.
Para o chanceler, não se tratava de uma negociação comercial convencional.
“Em outras palavras, exigiam uma capitulação.”
A escolha da palavra sintetiza a avaliação do Itamaraty de que Washington deixou de buscar um acordo equilibrado para pressionar o Brasil a aceitar condições incompatíveis com sua autonomia econômica.
Brasil diz que negociou desde antes do primeiro tarifaço
Outro eixo central da declaração consiste em desmontar a narrativa apresentada pelo governo norte-americano de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria se recusado a negociar.
Segundo Mauro Vieira, o diálogo entre os dois governos começou ainda antes do primeiro pacote tarifário anunciado em abril de 2025.
Desde março daquele ano, afirmou o ministro, ocorreram mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e telefônicas entre autoridades brasileiras e norte-americanas, envolvendo presidentes, ministros e equipes técnicas.
Somente com o representante comercial Jamieson Greer e com o secretário de Estado Marco Rubio foram realizados onze contatos oficiais.
Além disso, no próprio dia 2 de abril de 2025, poucas horas antes do anúncio das primeiras tarifas, Mauro Vieira manteve conversa telefônica com Greer tentando evitar o agravamento das medidas comerciais.
Carta de Trump marcou mudança da disputa
Na avaliação do governo brasileiro, a disputa deixou de ser comercial quando Donald Trump enviou uma carta ao presidente Lula, em julho de 2025.
Segundo Mauro Vieira, foi justamente naquele documento que o presidente norte-americano condicionou a retirada das tarifas de 50% ao encerramento imediato do processo judicial envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, Trump determinou a abertura da investigação baseada na chamada Seção 301 da legislação comercial norte-americana.
Para o Itamaraty, essa sequência demonstra que a investigação comercial nasceu subordinada a uma motivação política.
Em outras palavras, as tarifas deixaram de responder a supostas práticas comerciais brasileiras e passaram a ser utilizadas como instrumento de pressão sobre instituições do Estado brasileiro, especialmente o Poder Judiciário.
Marco Rubio é acusado de ofender o Brasil
A declaração também responde diretamente à mensagem divulgada pelo secretário de Estado Marco Rubio nas redes sociais.
Na publicação, Rubio afirmou que Lula teria colocado seu “ego” acima dos interesses econômicos do povo brasileiro.
O chanceler reagiu de forma dura.
Segundo Mauro Vieira, as declarações são “inaceitáveis” e representam uma ofensa não apenas ao governo brasileiro, mas ao próprio povo brasileiro.
Na avaliação do ministro, Rubio ultrapassou os limites normalmente observados nas relações diplomáticas ao dirigir ataques pessoais ao chefe de Estado de um país considerado historicamente parceiro dos Estados Unidos.
Governo rebate acusações sobre o Pix
Entre os principais argumentos utilizados pelos Estados Unidos para justificar a investigação está o funcionamento do Pix.
O governo brasileiro voltou a rejeitar completamente essa tese.
Segundo Mauro Vieira, o Pix constitui uma infraestrutura pública criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras que operam legalmente no país.
Não existe, segundo o chanceler, qualquer discriminação contra empresas estrangeiras nem fundamento econômico para afirmar que o sistema brasileiro representa concorrência desleal.
Ao classificar as acusações como “descabidas”, o Itamaraty reafirma que o modelo brasileiro de pagamentos digitais é uma política pública nacional e não um mecanismo voltado à restrição da concorrência internacional.
Amazônia também entra na disputa
Outro tema abordado pelo ministro foi a política ambiental brasileira.
Washington também havia incluído críticas relacionadas ao desmatamento entre os argumentos utilizados para justificar a investigação comercial.
Mauro Vieira rejeitou novamente a acusação.
Segundo ele, desde 2022 o Brasil reduziu significativamente os índices de desmatamento tanto na Amazônia quanto no Cerrado, resultado reconhecido por diversos organismos internacionais.
Na avaliação do governo brasileiro, utilizar esse tema para justificar barreiras comerciais representa uma distorção dos fatos.
EUA têm superávit com o Brasil
A declaração do Itamaraty também procura desmontar o argumento econômico utilizado por Washington.
Segundo Mauro Vieira, os Estados Unidos acumulam superávit de aproximadamente US$ 424 bilhões nas trocas de bens e serviços com o Brasil ao longo dos últimos quinze anos.
Além disso, em 2025, cerca de 76% das importações brasileiras provenientes dos Estados Unidos ingressaram no país sem pagamento de imposto de importação, incluindo oito dos dez principais produtos exportados pelos norte-americanos.
Esses números, segundo o governo brasileiro, demonstram que não existe fundamento para afirmar que o Brasil pratica discriminação comercial contra empresas dos Estados Unidos.
Brasil participou de toda a investigação
Mesmo considerando a investigação politicamente motivada, o governo brasileiro afirma ter participado de todas as etapas do processo conduzido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).
Foram apresentadas duas defesas escritas, uma em agosto de 2025 e outra em setembro do mesmo ano.
Também foi realizada uma rodada oficial de consultas em Washington, em abril de 2026, envolvendo uma delegação brasileira de alto nível.
Segundo Mauro Vieira, todos os documentos demonstraram que as políticas brasileiras são legítimas, não discriminatórias e compatíveis com as normas internacionais do comércio.
Uma disputa que vai além do comércio
A fala do chanceler revela que, na interpretação do governo brasileiro, o conflito atual ultrapassa as tarifas.
Ao envolver temas como o funcionamento do Pix, decisões do Supremo Tribunal Federal, políticas ambientais e a própria condução da Justiça brasileira, Washington teria ampliado o alcance da disputa para áreas que pertencem exclusivamente à soberania do Estado brasileiro.
Sob a perspectiva adotada pelo Itamaraty, aceitar que essas políticas sejam condicionadas por pressões comerciais significaria abrir precedente para que governos estrangeiros passassem a influenciar decisões internas do país.
Por isso, a resposta brasileira deixou de ser apenas econômica para assumir um caráter claramente político e diplomático.
Ao final da declaração, Mauro Vieira resume a posição do governo: todas as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para impor as novas tarifas “não têm lastro na realidade”. Para Brasília, o conflito em curso representa, antes de tudo, uma disputa sobre os limites da autonomia nacional diante do uso crescente do comércio internacional como instrumento de pressão geopolítica.