Atitude Popular

Lula aposta em parceria com Coreia do Sul para impulsionar comércio e tecnologia

Da Redação

Em meio à disputa global por cadeias produtivas estratégicas e tecnologia, o governo Lula intensifica sua ofensiva diplomática na Ásia e aposta na Coreia do Sul como parceiro-chave para ampliar comércio, atrair investimentos e reduzir a dependência tecnológica do Brasil.

A estratégia do governo brasileiro de reposicionar o país no tabuleiro geoeconômico global ganhou um novo capítulo com a visita oficial de Luiz Inácio Lula da Silva à Coreia do Sul. Em Seul, o presidente brasileiro formalizou uma série de acordos e anunciou a elevação das relações bilaterais ao status de parceria estratégica, apostando no aprofundamento dos vínculos comerciais, industriais e tecnológicos entre os dois países.

A movimentação ocorre em um contexto de reorganização das cadeias globais de produção, marcado pela disputa por tecnologia, minerais críticos e semicondutores. Nesse cenário, a Coreia do Sul aparece como um parceiro central: o país asiático é um dos maiores produtores mundiais de chips e referência em inovação industrial, enquanto o Brasil detém vastas reservas de recursos naturais e potencial produtivo ainda subexplorado.

Durante a visita, Lula anunciou um Acordo-Quadro de Integração Comercial e Produtiva, cujo objetivo é facilitar o comércio bilateral, harmonizar regras e dar mais previsibilidade às empresas. A iniciativa busca criar condições para ampliar investimentos e integrar cadeias produtivas, especialmente em setores estratégicos.

Além disso, os dois países lançaram um plano de ação plurianual para orientar a cooperação nos próximos anos, incluindo áreas como comércio, inovação, energia, saúde e indústria. A agenda inclui ainda a assinatura de diversos memorandos de entendimento e a criação de grupos de trabalho governamentais para operacionalizar as parcerias.

Um dos eixos centrais da aproximação é o desenvolvimento conjunto de cadeias ligadas a minerais críticos, insumos fundamentais para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia. O Brasil busca atrair investimento estrangeiro para agregar valor a esses recursos dentro do próprio território, enquanto a Coreia do Sul oferece expertise tecnológica e industrial.

A cooperação também se estende à área da saúde, incluindo produção de medicamentos, vacinas, pesquisa em doenças e desenvolvimento de tecnologias como genômica e saúde digital. Trata-se de um movimento que reforça a tentativa brasileira de ampliar sua capacidade tecnológica em setores sensíveis e reduzir vulnerabilidades externas.

No campo agrícola, foram firmados acordos voltados à inovação, segurança alimentar e harmonização sanitária, com foco em tecnologia e sustentabilidade. A expectativa é que essa cooperação fortaleça a competitividade do agronegócio brasileiro e amplie o acesso a mercados internacionais.

Os números ajudam a dimensionar o potencial dessa relação. O comércio bilateral entre Brasil e Coreia do Sul tem se mantido acima de US$ 10 bilhões anuais, com equilíbrio relativo entre exportações e importações. Em 2025, o intercâmbio chegou a cerca de US$ 10,8 bilhões, indicando espaço para expansão.

Outro ponto estratégico discutido foi a retomada das negociações de um acordo comercial entre a Coreia do Sul e o Mercosul, interrompidas em 2021. Para o governo brasileiro, esse avanço pode ampliar o acesso a mercados e consolidar a inserção internacional do país em um cenário de crescente regionalização do comércio global.

A visita de Lula também teve forte componente empresarial. O Fórum Empresarial Brasil-Coreia reuniu centenas de empresas interessadas em explorar oportunidades de investimento e cooperação, sinalizando que o movimento diplomático busca resultados concretos na economia real.

Do ponto de vista político, a aproximação com a Coreia do Sul integra uma estratégia mais ampla do governo brasileiro de intensificar relações com a Ásia, considerada hoje o centro dinâmico da economia mundial. Nos últimos anos, Lula tem priorizado agendas com países como China, Índia, Indonésia, Japão e Vietnã, consolidando uma política externa voltada à diversificação de parcerias e ao fortalecimento do multilateralismo.

Essa estratégia carrega implicações geopolíticas relevantes. Ao buscar maior integração com potências tecnológicas asiáticas, o Brasil tenta reduzir sua dependência histórica de cadeias produtivas dominadas por países centrais do Ocidente, ao mesmo tempo em que busca inserir-se em setores de maior valor agregado.

A aposta na Coreia do Sul, portanto, não se limita ao comércio tradicional. Trata-se de uma tentativa de reposicionar o país em áreas estratégicas do capitalismo contemporâneo, como tecnologia, indústria avançada e economia digital. O desafio, no entanto, permanece: transformar acordos e memorandos em projetos concretos que gerem transferência tecnológica, agregação de valor e soberania produtiva.

Se bem-sucedida, a parceria pode marcar um novo ciclo na inserção internacional do Brasil. Caso contrário, corre o risco de reproduzir um padrão histórico em que o país exporta recursos e importa tecnologia — uma assimetria que o governo afirma querer superar, mas que depende de execução política, capacidade industrial e coordenação estratégica para ser efetivamente revertida.