Jornalista Luan Araújo relata traumas, dificuldades profissionais e impactos da perseguição armada promovida por Carla Zambelli às vésperas da eleição de 2022
Uma das cenas mais marcantes e perturbadoras da campanha presidencial de 2022 voltou ao centro do debate público em uma edição especial do programa Trilhas pela Soberania, realizado pelo Código Aberto em parceria com a Rede Lawfare Nunca Mais e a Atitude Popular. O convidado foi o jornalista Luan Araújo, perseguido armadamente pela então deputada federal Carla Zambelli na Avenida Paulista, em São Paulo, na véspera do segundo turno das eleições presidenciais.
A entrevista, conduzida por Heitor Aragon, com participação de Ludmila Cindra, Reynaldo Aragon e Luís Delcides, revisitou os acontecimentos daquele dia e discutiu os efeitos pessoais, profissionais e psicológicos que o episódio provocou na vida de Luan. Também foram abordadas as decisões judiciais relacionadas ao caso, o debate sobre violência política, racismo estrutural, liberdade de expressão e os limites da atuação de agentes públicos em uma democracia.
Logo no início da conversa, Luan relembrou o contexto em que tudo aconteceu. Segundo ele, o encontro com Carla Zambelli foi completamente inesperado. Naquele dia, ele havia participado de uma partida de futebol amador e seguia para compromissos pessoais ligados ao chá de bebê de um amigo. Um imprevisto fez com que seu trajeto sofresse alterações e, consequentemente, o colocou no caminho da então deputada.
Ao avistar o grupo de apoiadores de Zambelli na Avenida Paulista, Luan afirma ter reagido a provocações políticas. A situação rapidamente escalou para uma perseguição armada que seria registrada por câmeras e reproduzida em todo o país.
“Eu senti medo de morrer”, afirmou.
O jornalista destacou que a sensação dominante naquele momento foi a incredulidade diante do que estava acontecendo. Segundo ele, a violência da cena foi tão extrema que até hoje é difícil processar completamente suas consequências.
Durante a entrevista, Luan também abordou um aspecto frequentemente ignorado nas análises sobre o episódio: a dimensão racial do caso. Ao lembrar que estava acompanhado por um amigo branco no momento da perseguição, observou que a reação da parlamentar se concentrou exclusivamente sobre ele.
Questionado sobre essa diferença de tratamento, afirmou que a questão racial não pode ser dissociada do ocorrido e lembrou que experiências de discriminação fazem parte da trajetória cotidiana de muitos brasileiros negros.
Desde o episódio, sua vida mudou profundamente. O jornalista relatou dificuldades emocionais, profissionais e financeiras que se acumularam ao longo dos últimos anos. Apesar da ampla repercussão nacional do caso, ele afirma que a exposição pública não se converteu em oportunidades ou reconhecimento.
“Minha vida mudou depois daquele dia, mas não foi para melhor”, declarou.
Luan contou que precisou buscar atendimento psicológico, enfrentar problemas de saúde mental e lidar sozinho com boa parte das consequências provocadas pela notoriedade involuntária que adquiriu. Segundo ele, embora tenha recebido apoio jurídico importante, especialmente no processo que resultou na condenação de Carla Zambelli, faltou uma rede mais ampla de acolhimento institucional.
“Eu tive acompanhamento psicológico, mas mesmo assim tive problemas psicológicos, problemas profissionais, problemas afetivos”, relatou.
Ao longo da conversa, os participantes discutiram também um processo movido contra Luan em razão de um artigo de opinião publicado após o episódio. O jornalista explicou que o texto expressava sua indignação diante da atuação política de Zambelli e das consequências que continuava enfrentando enquanto a então deputada permanecia exercendo suas funções públicas.
Segundo ele, o texto não continha ofensas pessoais, mas críticas políticas à extrema direita e ao ambiente de violência que marcou aquele período da vida nacional.
“Em nenhum momento eu ofendi a honra dela”, afirmou.
A decisão judicial relacionada ao caso foi alvo de críticas dos participantes do programa. Para Ludmila Cindra e Luís Delcides, o julgamento desconsiderou elementos fundamentais do contexto em que o texto foi produzido. A discussão se ampliou para o papel do Judiciário na proteção da liberdade de expressão e para os obstáculos enfrentados por cidadãos comuns ao buscar acesso à Justiça.
Luan relatou ainda que chegou a ter negado um pedido de gratuidade de Justiça em outro processo, situação que o obrigou a mobilizar uma campanha de arrecadação para custear despesas judiciais.
Atualmente desempregado, ele afirmou que a exposição pública também dificultou sua recolocação profissional.
“Agora que preciso arrumar um emprego novo, está mais difícil”, disse.
Ao refletir sobre o significado histórico da perseguição armada da qual foi vítima, Luan admitiu que ainda não consegue dimensionar completamente o alcance do episódio.
“Eu fui colocado nesse centro de uma forma muito brusca”, afirmou.
A fala resume uma das principais marcas da entrevista. Ao longo de quase quatro anos, Luan passou de jornalista esportivo e pesquisador da cultura do futebol a personagem involuntário de um dos episódios mais simbólicos da crise política brasileira recente.
Para os participantes do programa, a cena registrada na Avenida Paulista tornou-se um retrato da radicalização política que marcou o período eleitoral de 2022. A perseguição armada praticada por uma parlamentar em pleno espaço público revelou, segundo eles, que a violência política já havia ultrapassado os limites do discurso e se materializado nas ruas.
Além das questões políticas e jurídicas, a conversa também abordou a Copa do Mundo de Clubes disputada nos Estados Unidos. Especialista em futebol, Luan comentou os aspectos esportivos do torneio, mas chamou atenção para problemas políticos e diplomáticos envolvendo delegações, árbitros e seleções de países do Sul Global.
Segundo ele, muitos dos episódios ocorridos durante a competição ainda terão seus impactos plenamente compreendidos apenas no futuro.
“Ao mesmo tempo que está sendo uma Copa legal de assistir, não dá para deixar quieto o que está acontecendo fora de campo”, observou.
Ao final da entrevista, Luan agradeceu o espaço e destacou que a recente arrecadação coletiva realizada para custear despesas judiciais trouxe algum alívio em meio às dificuldades enfrentadas.
“Agora estou mais aliviado em relação a isso”, afirmou.
A conversa terminou com manifestações de solidariedade dos participantes e com o reconhecimento de que a trajetória de Luan Araújo ultrapassa sua dimensão individual. Sua história tornou-se parte do debate nacional sobre democracia, violência política, racismo e liberdade de expressão, temas que seguem centrais para a sociedade brasileira.
Referências
Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua, Giorgio Agamben, 1995.
Sobre a televisão, Pierre Bourdieu, 1996.
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