Especialistas denunciam como a grande mídia normaliza a violação da soberania venezuelana e constrói narrativas que antecedem os fatos
A cobertura da imprensa internacional sobre a Venezuela voltou ao centro do debate após o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores pelos Estados Unidos, em 3 de janeiro. Um mês depois do episódio, o programa Vozes da Democracia, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), analisou como a chamada grande mídia tratou o caso — e como essa abordagem impacta a percepção pública sobre democracia, soberania e imperialismo.
Participaram da edição a professora Carla Ferreira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e a jornalista Vanessa Martina-Silva, diretora de redação da Revista Diálogos do Sul Global. A mediação foi de Sousa Jr.
Logo no início do debate, Carla Ferreira contestou a recorrente classificação da Venezuela como “ditadura”. Segundo ela, o termo é “inadequado” diante da trajetória institucional do país nas últimas duas décadas.
“A Venezuela tem mais de 20 eleições realizadas desde o ano 2000, um sistema eleitoral auditável, com voto digital e impresso, e mecanismos de participação social como as comunas. Chamar de ditadura é uma informação falsa.”
A professora destacou que o país vive, há mais de 20 anos, um conflito político de alta intensidade, marcado por tentativas de golpe, campanhas de desinformação e pressões externas. Para ela, a repetição da narrativa de que o país seria um regime autoritário segue uma lógica histórica de propaganda.
“Repete-se muitas vezes uma mentira até que ela seja percebida como verdade. É uma técnica antiga.”
Carla também criticou o uso de eufemismos na cobertura do episódio de 3 de janeiro. Segundo ela, parte da imprensa preferiu empregar termos como “captura” em vez de “sequestro”, suavizando a gravidade do ocorrido.
“Eles falam em captura, eufemisticamente, e não em sequestro. Isso não é um detalhe semântico. É uma escolha política.”
A pesquisadora citou como exemplo a ampla cobertura dedicada ao caso por veículos brasileiros, que, em sua avaliação, limitaram-se a registrar a violação da soberania venezuelana sem contextualizar o histórico de intervenções e tensões acumuladas ao longo de 25 anos.
Vanessa Martina-Silva ampliou a crítica ao afirmar que a construção narrativa sobre a Venezuela não se restringe ao Brasil, mas se repete em diferentes países e idiomas.
“É visceral a forma como essa narrativa é construída e como ela segue o mesmo padrão, não importa o país.”
Ela relatou que acompanha sistematicamente a cobertura internacional por meio do programa “Plantão Venezuela”, no qual analisa reportagens publicadas por agências e veículos de diferentes regiões. Segundo a jornalista, a imprensa teria consolidado como fato consumado a suposta “queda” de Maduro, embora o governo venezuelano continue em funcionamento.
“Ele não foi derrubado. O que aconteceu foi um sequestro. O regime continua em pé.”
Vanessa também questionou a forma como mortes decorrentes da operação foram tratadas. De acordo com ela, a cobertura evitou aprofundar investigações sobre possíveis violações do direito internacional e sobre os impactos humanitários da ação.
Outro ponto abordado foi o conceito de “pré-verdade”, expressão que, segundo Vanessa, vem sendo utilizada por comunicadores venezuelanos para descrever um processo no qual a narrativa é construída antes mesmo dos fatos ocorrerem.
“Primeiro se cria a ideia de que Nicolás Maduro é ditador, líder de cartel, ameaça global. Depois, quando ocorre a ação contra ele, o público já está preparado para aceitá-la.”
Para Carla Ferreira, esse processo de naturalização ajuda a legitimar medidas que, em outros contextos, seriam amplamente condenadas.
“Os verdadeiros sujeitos que vêm atacando a democracia aparecem como defensores dela, enquanto governos que enfrentam interesses poderosos são apresentados como autoritários.”
Ao final do programa, Vanessa fez uma autocrítica ao campo progressista e à mídia alternativa.
“Muitos de nós têm medo de defender a Venezuela. Mas hoje é com a Venezuela. Amanhã pode ser com o Brasil.”
O debate concluiu que a disputa não se limita ao território venezuelano, mas envolve a própria forma como a informação é produzida e distribuída globalmente, em um cenário de concentração midiática e influência geopolítica.
O episódio reforça a necessidade de leitura crítica da mídia e de acompanhamento atento das narrativas que moldam a opinião pública em temas internacionais sensíveis.
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