Atitude Popular

“Não existe pena de morte no Brasil, mas na prática existe”

Em entrevista, o professor Nelson Campos critica a lógica bélica da segurança pública, defende inteligência e políticas sociais e explica por que o Estado, ao monopolizar a força, não pode se autorizar a executar

O avanço de políticas de “guerra às drogas” tem produzido cenas de ocupação, execuções e comemorações públicas de mortes — sem que o comércio ilegal diminua. Para o professor Nelson Campos, mestre em Educação pela UFC, a chave está na inversão do paradigma: do espetáculo da força para a inteligência investigativa, combinada a educação, saúde e oportunidades. “Eduquem-se as crianças e não será necessário punir os homens”, citou.

As declarações foram dadas ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas em 3 de novembro, e servem de base para esta matéria, produzida a partir do conteúdo veiculado pela TV Atitude Popular.

O que é o Estado quando o assunto é violência

Campos recorreu a clássicos para situar o debate. De Max Weber, retomou a ideia do monopólio legítimo da força; de Thomas Hobbes, o papel do Estado para conter a “guerra de todos contra todos”. A síntese, na sua leitura:

“A principal característica do Estado é a violência, a opressão, a dominação. O Estado é um instrumento político coercitivo, a serviço de quem controla os meios de produção sobre quem não tem”

A partir disso, criticou operações que terminam em mortes sem julgamento:

“Não existe pena de morte no Brasil, mas na prática existe”

O que a “guerra” produz — e o que ela não resolve

O professor rebateu a ideia de que chacinas e “licenças para matar” diminuem o tráfico: chefes seguem fora das favelas, o recrutamento se renova e a lógica de mercado permanece enquanto houver demanda.

“Se existe gente querendo comprar, vai aparecer gente querendo vender. É uma relação de interdependência”

No programa, citou-se um levantamento atribuído à Atlas indicando apoio majoritário a uma operação recente entre moradores de favelas. Campos enxergou aí uma disputa de narrativas e de medo — e uma vitória do discurso de endurecimento, que foge do essencial: seguir o dinheiro e as armas.

“O trabalho, sobretudo, é de inteligência. Quando atingiram o PCC, chegou-se à Faria Lima. É preciso combater a fonte de lucro que sustenta o crime”

Política, polícia e comemorações de morte

Em tom duro, Campos criticou a comemoração de mortes por autoridades e parlamentares, e a defesa de “chacinas multiplicadas”.

“Antigamente as pessoas se envergonhavam de serem estúpidas; hoje se orgulham. O Estado não pode se autorizar a matar”

Legalização, educação e alternativas

Questionado sobre legalização de drogas, apontou experiências internacionais e preferiu recentrar o debate no direito individual e na responsabilidade pública:

“Prender ou matar porque consome maconha é ser pior do que quem se pretende combater. Enquanto um fuma, o outro está matando”

Para reduzir violência, Campos defendeu investimento em educação e qualificação profissional, contrapondo o gasto carcerário:

“Construam-se mais escolas e não será necessário construir cadeias”

Entre abdicar da lei e cumpri-la

Para o professor, a obediência cega a ordens e o culto à força deseducam a sociedade e a própria polícia. A alternativa, diz, é Estado de Direito, controle externo, atuação cirúrgica contra financiadores e lavagem, e um pacote social que dispute o futuro com a economia do crime.

“Planejamento, inteligência e dignidade custam menos que funerais e não fazem o crime lucrar”

O recado final

Ao lembrar perseguições políticas e torturas na ditadura, Campos advertiu contra a normalização da exceção:

“Defender a liberdade não é defender o direito de matar. Quando a violência vira método, a sociedade inteira é vítima”


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