No “Antes que acabe o mês”, Sandra Helena e Victor Marques fazem balanço crítico do noticiário, apontam risco de tutela dos EUA sobre a região e alertam para disputas narrativas no Brasil em ano pré-eleitoral
Na última edição do Democracia no Ar, apresentada por Sara Goes, o segmento “Antes que acabe o mês” reuniu Sandra Helena e Victor Marques para um balanço crítico de acontecimentos políticos, econômicos e sociais que marcaram o fechamento do período — com ênfase na disputa de narrativas e nos sinais de endurecimento da política externa norte-americana sobre a América Latina. A conversa foi ao ar na TV Atitude Popular e está disponível na íntegra no YouTube.
Entre ironias, alertas e divergências pontuais, o programa articulou um fio condutor: a sensação de aceleração do mundo — e a dificuldade de separar fato, propaganda, cinismo e “verniz moral” na cobertura da grande imprensa e nas redes. A leitura dos convidados é de que esse caldo informacional não é periférico: ele molda ambiente político, prepara terreno para operações de desestabilização e pode determinar o rumo do debate público no Brasil.
“O poderoso não precisa de moralidade”: a tese do cinismo aberto
Logo no início, Victor Marques lançou a frase que viraria o eixo do debate sobre geopolítica: “Não existe soberania nas Américas” — formulação que, segundo ele, teria sido explicitada pelo próprio Donald Trump como recado estratégico para governos do continente. A fala se conecta a relatos recentes publicados pela imprensa internacional sobre a escalada envolvendo a Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro. ([The Washington Post][1])
No programa, Victor descreveu esse cenário como a volta da “doutrina do quintal”, em chave mais agressiva, com um subtexto “gangsterista”. A frase resume seu argumento:
“Ele faz porque ele pode.”
Sandra Helena, por sua vez, insistiu numa camada adicional: não é apenas o que se faz, mas como se narra. Para ela, há um deslocamento em curso — “a era da pós-hipocrisia” — em que, mesmo quando a justificativa moral some do discurso oficial, parte da mídia ainda tenta reconstruí-la, oferecendo ao público uma explicação “didática” para normalizar o inaceitável.
Petróleo, recursos naturais e o debate sobre “justificativas” na mídia
A conversa passou pelo tema do petróleo como símbolo e como interesse material. Victor recordou que a nacionalização do petróleo venezuelano antecede Hugo Chávez e que o chavismo, na leitura dele, teria renegociado contratos e ampliado o controle estatal sobre a estatal petrolífera — com disputas judiciais e conflito com interesses privados. Nesse contexto, foi citada a permanência de empresas como a Chevron operando no país, apesar das tensões. ([The Washington Post][1])
O ponto político, porém, foi menos técnico e mais civilizacional: para os convidados, o que está em jogo é a soberania sobre recursos e a mensagem de “submissão ou punição” dirigida ao continente.
Cuba sob pressão e a “mudança de regime” como horizonte
Ao ampliar o mapa, Victor apontou a Cuba como alvo permanente de asfixia econômica e chantagem energética, lembrando o “período especial” dos anos 1990 e a tentativa de forçar crise interna por estrangulamento. Ele também citou o secretário de Estado Marco Rubio como figura central desse vetor, descrevendo a aposta em mudança de regime como uma ameaça aberta — e, por isso, um risco regional que tende a respingar em toda a América Latina.
Europa “sem bússola” e o fim da “ordem baseada em regras”
No bloco sobre Europa e alianças ocidentais, Victor classificou o comportamento europeu como “sem direção” e “ajoelhado”, incapaz de reagir às humilhações e pressões de Washington. Nesse trecho, ele trouxe à conversa um discurso atribuído a Mark Carney (citado como leitura sobre o fim da “ordem baseada em regras”), para sustentar a tese de que o multilateralismo perdeu eficácia: quando ninguém acredita mais na ficção, ela deixa de organizar o mundo.
Gaza, o choque moral e o “resort” como insulto
O tom do programa ficou mais grave quando o debate chegou à destruição em Gaza e à ideia, mencionada na conversa, de transformar ruínas em vitrine imobiliária. Sandra afirmou ter sentido uma “crise moral” ao ver maquetes e imagens associadas ao tema e descreveu a proposta como “indecência inominável”, enquanto Victor classificou como “obsceno” e “grotesco”, citando campos de deslocados, fome e falta de remédios. O trecho funciona como um marcador de época: mesmo quando o assunto sai das manchetes, o horror permanece — e pode ser reembalado como produto.
“Banco Master” e a disputa de narrativa no Brasil
Ao trazer o “caos” para o Brasil, Sandra Helena argumentou que o país encerra o mês sob um ambiente de enquadramento seletivo: escândalos aparecem, mas os responsáveis políticos e institucionais se diluem no “contra todos”, produzindo cinismo social que pode ser instrumentalizado. Foi nesse ponto que entrou o caso do Banco Master — tema que, para ela, já ganha ares de “revival” de métodos e climas típicos da Lava Jato.
No noticiário, um marco recente citado no programa — e confirmado por veículos de imprensa — foi a decisão do ministro Dias Toffoli de retirar o sigilo de depoimentos ligados às investigações envolvendo o Banco Master, incluindo oitivas do banqueiro Daniel Vorcaro, do ex-presidente do BRB e de um diretor do Banco Central. ([Agência Brasil][2])
A leitura do programa é que o campo conservador e parte da cobertura podem tentar “virar o jogo”, deslocando o foco do enredo: em vez de investigar redes políticas e financeiras, transformar o episódio numa arma para colar desgaste no governo e produzir sensação de que “todo mundo é igual”. Para Sandra, esse é o terreno que alimenta o “Coringa”: a indignação sem discernimento que, depois, vira energia eleitoral para quem ajudou a fabricar o caos.
STF: aliado tático, não “amigo” — e o alerta sobre o “tudo igual”
Um dos momentos mais interessantes do debate foi a divergência que quase virou atrito. Victor defendeu que é um erro tratar o STF como “amigo” apenas porque, em certos momentos, atuou como barreira institucional ao golpismo: para ele, a Corte não representa interesses da classe trabalhadora e precisa ser criticada sem medo. Sandra respondeu que não discordava disso, mas insistiu na necessidade de discernimento para não cair no “tudo igual” que abre caminho para aventuras autoritárias.
A tensão virou síntese pedagógica: como criticar instituições sem ajudar a desmontá-las em benefício de forças antidemocráticas? A resposta ficou no método — detalhar responsabilidades, separar críticas a ministros e críticas ao sistema, e não repetir, por impulso, o roteiro de deslegitimação que a extrema direita já usa há anos.
O calendário eleitoral e o “peso” das big techs
No fechamento, Victor projetou um cenário eleitoral brasileiro complexo: direita fragmentada no primeiro turno, mas capaz de recomposição no segundo. E alertou para o papel das plataformas digitais, que, segundo ele, tendem a atuar de forma pesada na disputa — seja por semiótica, seja por desinformação, seja por modelagem de alcance.
Sandra, por sua vez, retomou o título do quadro como pressentimento: “antes que acabe o mês” deixaria de ser brincadeira e viraria sensação permanente de prorrogação, como torcedor pedindo o apito final aos 45 do segundo tempo.
Lula, saúde e a política no meio do turbilhão
Já nos minutos finais, Sara informou ao público que Luiz Inácio Lula da Silva havia passado por cirurgia de catarata e retornado para casa, com expectativa de retomada rápida das atividades. A informação foi confirmada por nota do governo repercutida por agências de notícias e veículos brasileiros. ([Reuters][3])
A menção entra como detalhe revelador do clima: mesmo notícias rotineiras de saúde presidencial disputam espaço com bombardeios, escândalos bancários, narrativas de “fim de mundo” e a ansiedade de um país que se prepara para mais uma travessia política.
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