Jornalista e feminista Télia Negrão alerta, no programa Vozes pela Democracia, que a impunidade, a cultura patriarcal e a forma como a mídia narra os crimes alimentam um cenário em que quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil
Enquanto milhões de mulheres buscam proteção, criam redes de apoio e se organizam politicamente para sobreviver à violência doméstica e familiar, um outro movimento avança no subterrâneo – e, cada vez mais, à luz do dia. Machistas e misóginos se valem das redes sociais, dos algoritmos e de “gurus” digitais para lucrar ensinando homens a odiar mulheres. É nesse contexto que se insere a atual onda de feminicídios no Brasil.
O tema foi debatido na edição mais recente do programa Vozes pela Democracia, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), produzido pela Rádio e TV Atitude Popular. A conversa, apresentada por Sousa Júnior, teve como convidada a jornalista e cientista política Télia Negrão, referência na luta contra o feminicídio e integrante da Rede de Saúde das Mulheres Latino-Americanas e do Caribe, da campanha Levante Feminista contra os Feminicídios e do coletivo Querela – Jornalistas Feministas.
Quatro feminicídios por dia: um país em estado de emergência permanente
Logo no início da entrevista, Télia trouxe números que desmontam qualquer ideia de “casos isolados”. Com base em monitoramento diário de notícias sobre feminicídios em todo o país, por meio de buscadores e algoritmos treinados para rastrear o tema, ela resume o quadro:
“No Brasil, a cada seis horas ocorre um feminicídio. São quatro mulheres assassinadas por dia.”
No Rio Grande do Sul, onde atua no Observatório de Feminicídios Lupa Feminista, o cenário também é alarmante: um feminicídio a cada três dias e meio. Segundo Télia, o problema não está apenas nos crimes consumados, mas em todo o ciclo de violência que a sociedade naturaliza – e que a mídia, muitas vezes, reforça.
Ela cita um dado recente do DataSenado:
“Pelo menos 9 milhões de mulheres sofreram violência nos últimos 12 meses. E isso convive com um altíssimo grau de impunidade, apesar de termos uma das melhores leis de enfrentamento à violência contra a mulher do mundo.”
Se a Lei Maria da Penha avança no papel, na prática as engrenagens do sistema de justiça e das políticas públicas ainda emperram – e as mulheres seguem morrendo.
A mídia que narra a morte, mas esconde o agressor
Um dos pontos centrais da análise de Télia é o comportamento da mídia tradicional diante dos feminicídios. Para ela, a narrativa predominante ainda reforça estigmas, naturaliza a violência e falha em cumprir o papel transformador da comunicação.
“Quando a imprensa trata o crime só como um fato isolado e não problematiza, ela naturaliza a violência. E, muitas vezes, esconde o sujeito da agressão.”
Ela lembra que não é raro encontrar manchetes em voz passiva – “mulher é morta”, “mulher sofre agressão”, “mulher é encontrada sem vida” – sem mencionar o autor do crime:
“Na maioria das notícias, a mulher aparece como sujeito da frase, mas não como sujeito da sua própria história. Quem matou some do texto. Em vez de ‘homem matou a mulher’, lemos ‘mulher morre’. Isso apaga o agressor e a responsabilidade social pelo crime.”
Télia reconhece avanços importantes, como a criação de editorias específicas sobre violência de gênero em veículos como Folha de S.Paulo e Zero Hora, com jornalistas especializadas em feminicídios. Mas considera que o padrão geral ainda reproduz a lógica patriarcal:
“Ainda encontramos jornais repetindo a fala do delegado: ‘foi crime passional’. Ainda vemos a narrativa construída a partir da morte da mulher, e não da ação do homem que matou. Isso mantém uma cultura jurídica e simbólica de séculos.”
Do “crime de honra” ao feminicídio: uma cultura forjada há milênios
Para explicar por que o feminicídio não é um “desvio” nem uma tragédia pontual, Télia recua milhares de anos na história. Ela lembra que o patriarcado antecede o capitalismo e o racismo como sistema de dominação:
“O patriarcado tem algo como oito mil anos. Ele está na base da forma como a sociedade organiza a propriedade, a família e o controle sobre o corpo das mulheres.”
A partir da leitura de clássicos como A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Engels, ela resgata o processo em que os homens, ao acumularem riqueza por meio da caça, do saque e da guerra, passaram a controlar a sexualidade feminina para garantir a herança.
“Quando os homens descobrem que os filhos nascem da relação sexual, não apenas do ventre, eles passam a condicionar a maternidade: querem ter certeza de quem são seus herdeiros. É daí que vem o casamento monogâmico para a mulher e o controle absoluto sobre o seu corpo.”
No Brasil, essa lógica se consolidou juridicamente com as Ordenações Filipinas, conjunto de normas que vigorou até meados do século XIX:
“As Ordenações Filipinas autorizavam o homem a ‘disciplinar’ a mulher até a morte. Isso criou uma cultura jurídica em que o assassinato da esposa era entendido como defesa da honra.”
Só em 2023 o Supremo Tribunal Federal proibiu formalmente o uso da tese da legítima defesa da honra em tribunais. Mas, como observa Télia, a ideia segue viva no imaginário social – e, muitas vezes, também nas entrelinhas da cobertura jornalística.
Dependência econômica: a cerca invisível que prende mulheres à violência
Ao comentar as razões pelas quais muitas mulheres não denunciam seus agressores, Télia aponta três dimensões: o medo real de morrer após denunciar, a dificuldade de reconhecer a violência como tal – já que ela é naturalizada socialmente – e a dependência material.
“Não tem como enfrentar o tema da violência e do feminicídio sem que a gente tenha políticas públicas de prevenção para a mudança da cultura dessa sociedade na escola, na mídia, nas redes sociais, campanhas, etc. Mas também não tem saída sem autonomia econômica para as mulheres.”
Para ela, é ilusório imaginar que uma mulher sem renda, com filhos, sem rede de apoio e sem políticas sociais estruturadas consiga simplesmente “romper o ciclo de violência”:
“Muitas permanecem porque têm medo de morrer. Outras ficam porque, se saírem, vão passar fome com os filhos. A dependência econômica é um dos instrumentos mais poderosos do patriarcado.”
Daí a centralidade de políticas que articulem proteção, renda, moradia, creche e acesso à justiça:
“Não adianta ter só delegacia ou só casa-abrigo se não houver políticas de autonomia econômica, de apoio social e de mudança cultural. Senão, é enxugar gelo.”
Gurus do ódio e o lucro da misoginia nas redes
Embora o programa tenha como foco a mídia jornalística, o contexto digital atravessa todo o debate. Télia retoma sua pesquisa de mestrado, na qual analisou o ciberespaço como mídia – tanto como espaço de empoderamento quanto de violência.
Ela cita o crescimento de comunidades misóginas, como grupos incel, fóruns de “red pill” e perfis de “coaches de masculinidade” que crescem em plataformas lucrando com o ódio:
“As redes sociais podem ser espaço de organização feminista e de formação de capital social, mas hoje também são terreno fértil para negócios baseados em ensinar homens a odiar mulheres. E isso repercute na vida concreta, nos relacionamentos, na violência.”
Para enfrentar esse cenário, Télia defende regulação democrática das plataformas, campanhas permanentes e formação crítica em comunicação:
“Não é só tirar conteúdo extremo do ar. É enfrentar o negócio da misoginia, que rende muito dinheiro para plataformas e influenciadores.”
O que a mídia poderia fazer e (quase) nunca faz
Na parte final da entrevista, Sousa Júnior pede a Télia que aponte caminhos para uma comunicação comprometida com a vida das mulheres. Ela é direta:
“A mídia pode ter um papel fundamental se, ao noticiar um feminicídio, explicar as circunstâncias, ouvir especialistas, dar voz às mulheres, mostrar as dificuldades de romper e, assim, encorajar outras a buscar ajuda.”
Em outras palavras, não basta informar o crime mais brutal do dia. É preciso:
mostrar o histórico de violência que antecede a morte;
contextualizar leis, políticas e falhas do sistema de justiça;
evitar expressões como “crime passional” ou “por ciúmes”, que romantizam o assassinato;
nomear o agressor e o crime: feminicídio, não “tragédia” ou “fatalidade”.
“O papel educativo e transformador da comunicação é central. Ou a mídia ajuda a romper essa lógica, ou segue colaborando para a sua reprodução.”
Sousa Júnior encerra lembrando que a indignação com casos extremos – mulheres arrastadas por quilômetros, queimadas vivas ou assassinadas na frente dos filhos – não pode nos fazer perder de vista o que está por baixo da linha d’água:
A violência cotidiana, o controle, a humilhação, a dependência econômica e o silêncio social que antecedem o feminicídio.
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