Atitude Popular

“Ninguém no mundo resistiria ao bloqueio que Cuba enfrenta”

Antonio Ibiapino relata efeitos do embargo, descreve desafios energéticos e destaca a resistência política e social do povo cubano

A situação de Cuba diante do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos foi o eixo central do debate no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular. A análise partiu do relato direto de Antonio Ibiapino, comentarista do programa, que retornou recentemente da ilha e compartilhou observações acumuladas ao longo de quase três décadas de visitas ao país. Esta matéria foi elaborada a partir do transcript do programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular.

Segundo Ibiapino, compreender Cuba exige ir além das narrativas simplificadas. O bloqueio, que já ultrapassa seis décadas, não se limita a sanções comerciais diretas: trata-se de um sistema de restrições financeiras, logísticas e energéticas que impacta todos os aspectos da vida cotidiana. Para ele, a permanência do país em funcionamento, apesar dessas condições, é um fenômeno raro na história contemporânea.

“A situação é muito difícil porque aquele povo é muito educado e é heroico mesmo. Ninguém no mundo resistiria ao bloqueio que Cuba enfrenta.”
“O bloqueio é brutal. Só conhecendo diretamente e estudando muito para compreender.”

Geografia, energia e isolamento

Ibiapino destacou fatores geográficos que agravam os efeitos do embargo. Cuba é uma ilha com cerca de 110 mil km², sem grandes rios caudalosos e sem capacidade significativa de geração hidrelétrica. Diferentemente de países continentais, depende fortemente de combustíveis fósseis para manter usinas termoelétricas em funcionamento.

“Se você não tem energia para mover o país, nada funciona. Daí a crise se intensifica em todos os aspectos.”

Ele lembrou que parte do fornecimento de petróleo vinha da Venezuela, relação que se tornou mais frágil com o endurecimento das sanções internacionais. Segundo o comentarista, navios que transportam petróleo venezuelano têm sido interceptados, o que afeta diretamente a capacidade cubana de manter o abastecimento energético regular, resultando em apagões frequentes.

Leis do bloqueio e o estrangulamento do comércio

Além das dificuldades energéticas, o bloqueio opera por meio de legislações específicas que desestimulam o comércio internacional com a ilha. Ibiapino citou normas que penalizam embarcações que atracam em portos cubanos, impedindo-as de operar nos Estados Unidos por meses.

“Qual grande companhia de frete vai parar em Cuba se depois não pode mais aportar nos Estados Unidos?”

Esse mecanismo, segundo ele, encarece importações, limita o acesso a insumos básicos e isola economicamente o país, mesmo quando há disposição de outros parceiros comerciais.

Juventude, consciência política e mobilização

Contrariando a ideia de apatia ou ruptura geracional, Ibiapino afirmou que a juventude cubana segue politicamente ativa e organizada. Ele descreveu grandes mobilizações, como as marchas do Primeiro de Maio, nas quais jovens participam de forma massiva, e destacou organizações juvenis presentes em todo o território nacional.

“Não existe jovem revoltado no sentido de abandono da luta. São jovens muito conscientes.”
“Eles protagonizam marchas, estudam, participam e mantêm viva a memória histórica.”

O comentarista lembrou ainda a tradicional “Marcha das Tochas”, que remete às mobilizações estudantis lideradas por Fidel Castro na Universidade de Havana, símbolo da continuidade política entre gerações.

Solidariedade internacional e trabalho voluntário

Outro ponto enfatizado foi o papel das brigadas internacionais de solidariedade, que reúnem sindicalistas, estudantes, médicos e ativistas de diversos países da América Latina. Nessas brigadas, o cotidiano vai além da observação: há trabalho voluntário no campo, participação em seminários e troca direta com a população cubana.

“Lá não é turismo. Trabalha-se de cinco da manhã até quatro da tarde.”
“O trabalho voluntário sempre foi cultivado como valor central da revolução cubana.”

Para Ibiapino, essas experiências ajudam a romper estigmas e a compreender Cuba a partir de dentro, longe da propaganda e das simplificações ideológicas.

Resistência como projeto político

Ao longo da conversa, a ideia de resistência apareceu como fio condutor. Para o comentarista, a sobrevivência de Cuba sob bloqueio não se explica apenas por decisões de governo, mas por uma consciência coletiva construída ao longo de décadas.

“O que sustenta Cuba é a compreensão política do seu povo.”
“A revolução cubana é uma fortaleza de consciência.”

A análise apresentada no Democracia no Ar reforça que, mais do que um caso isolado, Cuba representa um exemplo extremo de como sanções econômicas moldam realidades sociais — e de como um país pequeno, geograficamente limitado e economicamente pressionado segue existindo a partir de organização, memória histórica e solidariedade.


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