Atitude Popular

“Nós sabemos como fazer uma pesca sustentável. Falta união e vontade política”

A autobiografia de José Ribamar resgata a história da pesca cearense, denuncia o abandono da categoria e reafirma o papel do pescador como trabalhador, guardião do mar e liderança social

O pescador cearense José Ribamar Pereira de Freitas transformou décadas de luta, sobrevivência e aprendizado no mar em um testemunho escrito. Ribamar, o Pescador: Sobrevivi, lançado no Instituto Poliglota, na Praia de Iracema, reúne família, pescadores, lideranças comunitárias e sindicalistas em torno da memória de um trabalhador cuja trajetória atravessa migração, pobreza, coragem, sindicalismo e resistência.

A obra — relata o próprio autor em entrevista ao Programa Democracia no Ar, da TV e Rádio Atitude Popular, apresentado por Sara Goes e com comentários de Antônio Ibiapino — é um documento histórico e político. Ribamar narra os anos em que o mar era fartura, os períodos de perigo absoluto, o declínio das grandes empresas pesqueiras, o abandono das políticas públicas e a luta pela sobrevivência de uma profissão que corre risco de desaparecer.

Da infância migrante ao mar como destino

Nascido no Maranhão e criado no Ceará desde os cinco anos, Ribamar começou a trabalhar cedo. Em casa, a pesca era mais que um ofício: era identidade, sustento e pertencimento comunitário. “Eu migrei para a pesca porque era uma atividade que dava gosto. A gente sabia que a remuneração era boa”, lembra.

O livro resgata o período de fartura entre o fim dos anos 1970 e início dos 2000, quando o litoral cearense produzia toneladas de lagosta em poucos dias de trabalho. “Chegamos a puxar 300 a 400 quilos de lagosta em uma única puxada. Isso dava de 4 a 5 mil lagostas. Era muita fartura”, recorda.

Essa abundância, no entanto, ruiu lentamente — e não por culpa do pescador artesanal.

A virada que desmontou o setor

Ribamar explica que o declínio começou quando grandes empresas desapareceram, sem que o Estado criasse alternativas para reorganizar a pesca:

“A derradeira empresa fechou em 2005. Nós tínhamos mais de 150 barcos de grande porte operando no Ceará. Hoje não temos uma só dessas empresas.”

Sem fiscalização adequada, a pesca predatória ocupou o espaço deixado pelo setor industrial. Compressão ilegal, uso de “cachoeiras”, retirada de espécies em período de reprodução, destruição de berçários naturais — tudo sem controle.

“No Ceará, 70% da produção da lagosta é predatória. Nós temos órgãos competentes, mas não temos programação, nem fiscalização eficaz. A tendência é zerar.”

Sindicato, enfrentamento e criminalização

Presidente do Sindicato dos Pescadores do Estado do Ceará no fim dos anos 1990, Ribamar enfrentou batalhas épicas: pela criação do seguro-defeso, contra embarcações ilegais, pela proteção das marisqueiras e pela dignidade do pescador artesanal.

A atuação sindical custou caro. O livro detalha processos, difamações e tentativas de criminalização:

“O que fica na cabeça das pessoas é a primeira acusação. Mesmo provando o contrário, a marca fica. Por isso escrevi o livro: para contar a história como foi.”

Após deixar o sindicato, retornou ao mar, buscou qualificação profissional e migrou também para a Marinha Mercante. Hoje, aposentado como pescador, é comandante na área de máquinas — um percurso que só foi possível porque, na época, existia formação profissional contínua, algo que hoje praticamente desapareceu.

A nova forma de organização: Dragões do Mar

Percebendo o isolamento das comunidades durante a pandemia, Ribamar criou em 2020 o Movimento Comunidade na Luta Dragões do Mar, que reúne pescadores de Cascavel, Icapuí, Paracuru, Baleia e Fortaleza para discutir direitos, segurança e alternativas.

O objetivo é formar consciência coletiva:

“Criamos o movimento para informar os pescadores sobre questões sociais, sindicais e trabalhistas. Hoje temos Ministério da Pesca e duas secretarias no Ceará, mas ninguém discute o que mais precisamos: pesca sustentável.”

O declínio da profissão e a falta de jovens

No programa, Sara Goes perguntou quando a pesca começou a perder interesse entre os mais jovens. Ribamar foi categórico: não há como atrair juventude para um ofício sem perspectiva.

“Como é que eu vou incentivar meu filho a ir pro mar se não há remuneração, não há qualificação e o seguro-defeso virou uma terra sem lei?”

Empresas menores lutam para encontrar tripulação. Donos de embarcação abastecem seus barcos, mas não têm quem queira arriscar a vida em troca de retorno incerto.

E, para Ribamar, a resposta está na política pública — ou na sua ausência.

Seguro-defeso e denúncia

O seguro-defeso, criado para pagar um benefício durante o período de reprodução dos peixes, sofre com fraudes amplas e falta de fiscalização:

“O benefício que era para os pescadores que arriscam a vida está misturado. Há muita denúncia, mas nenhuma providência. Se o seguro for só para quem pesca de verdade, não vai faltar pescador.”

A ameaça: o perigo maior está no mar — mas também em terra

Provocado por Sara, que perguntou se o maior risco estava no mar ou em terra, Ribamar respondeu com a sabedoria de quem enfrentou ambos:

“O mar tem seu perigo, mas nós aprendemos a viver com ele. O problema hoje é em terra: a profissão está se acabando e ninguém debate alternativas.”

A urgência de uma política de pesca sustentável

Ao final da entrevista, Ribamar resumiu o que considera o maior desafio do Ceará:

“Nós sabemos como fazer uma pesca sustentável. Falta projeto, falta fiscalização, falta proteger os berçários naturais, falta qualificação para os filhos dos pescadores. Falta união.”

Ele defende um plano integrado com participação da Capitania dos Portos, IBAMA, Polícia Federal e governo estadual — algo que nunca saiu do papel.

“Sobrevivi”: livro como denúncia e legado

Ribamar, o Pescador: Sobrevivi é, ao mesmo tempo, memória, denúncia e gesto pedagógico. É a história de um menino que deixou o Maranhão, virou trabalhador do mar, sindicalista, sobrevivente de perseguições e, finalmente, escritor.

É também advertência: se nada mudar, a pesca artesanal vai desaparecer junto com a abundância que o Ceará já teve.

Para comprar o livro ou convidar Ribamar para palestras, o contato indicado é:
📞 (85) 98849-9895 — Jair Melo

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