Atitude Popular

“Nós só somos o que somos hoje porque tivemos algum passado”

Documentarista Bomfim Feitosa defende a memória como base do pertencimento, resgata o Ceará pré-histórico, a história da Praça do Ferreira e denuncia o abandono da cultura como política de Estado

Memória, família, cidade, passado e futuro. Para o documentarista cearense Bomfim Feitosa, nada disso se separa. Em entrevista ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas no dia 28 de novembro, ele resumiu sua visão em uma frase que atravessa toda a conversa:
“Nós só somos o que somos hoje porque tivemos algum passado.”

Ao longo do programa, Bomfim ligou a noção de memória ao sentimento de pertencimento, tanto no plano íntimo – a família, a rua, o bairro – quanto no plano coletivo – a cidade, o estado, o país. E alertou para o que considera um risco crescente: o apagamento de histórias que fundam a identidade cearense e brasileira, seja pela falta de preservação de arquivos e patrimônios, seja pelo descaso sistemático com a cultura.

“Esse meio começa na família, depois nos amigos da rua, depois no bairro, na cidade, no estado, no mundo. Se a gente não entende esse passado no presente, como é que pode prospectar o futuro?”

Memória, família e a construção do pertencimento

Logo no início da entrevista, Bomfim fez questão de ancorar a discussão em algo prosaico e profundo ao mesmo tempo: a família real, não o slogan moralista.

“Memória tem a ver com família, com raízes. Não é essa ‘família dos bons costumes’ de propaganda. É pai, mãe, as pessoas de carne e osso que formam quem a gente é”, afirmou.

A partir daí, ele desenhou um percurso simples e poderoso: primeiro a casa, depois a rua onde se jogava bila e se empinava pipa, o bairro, a cidade, o estado, até chegar ao mundo. Em cada camada, há experiências, afetos, conflitos e histórias que, se não forem registradas e discutidas, se perdem.

Bomfim lamentou que “a grande maioria da população não dá a verdadeira importância à memória e ao pertencimento”, e lembrou o que isso significa para uma cidade como Fortaleza:

“Nós, cearenses, temos um patrimônio histórico muito pequeno em relação ao começo do século passado e ao final do século XIX. Muita coisa foi destruída, esquecida, mal contada.”

Para ele, a consequência não é apenas nostálgica. É política, social e ética: quando um povo deixa de conhecer sua própria história, perde também referências para enfrentar o presente.

Documentário como campo de disputa de memórias

Como documentarista, Bomfim vê seu trabalho justamente nesse cruzamento entre passado e presente. Ele faz questão de ouvir versões diferentes, cruzar relatos, trazer documentos e situar cada fala no contexto da época.

“Num documentário, ninguém tem a verdade absoluta. São várias verdades, em contextos diferentes. Nosso papel é trazer essas verdades para o hoje, para reflexão”, explicou.

Ele citou o exemplo do futebol cearense, tema de um de seus trabalhos, “Futebol: paixão cearense”, e lembrou que, ao contar a história de clubes e torcidas, também se revela o tecido social, os afetos e as desigualdades de uma cidade. Mas foi ao falar de arqueologia e dos povos originários no Ceará que sua crítica ao apagamento se tornou mais aguda.

O Ceará pré-histórico e o museu no Sertão Central

Em 2017, Bomfim mergulhou num projeto que ajudou a recolocar o Ceará no mapa da arqueologia brasileira: o documentário “Vestígios pré-coloniais cearenses”, produzido pela Zoom Digital Produções.

Ele estranhava que estados vizinhos como Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba acumulassem pesquisas e divulgação sobre arqueologia, enquanto o Ceará aparecia pouco, apesar de ter uma riqueza imensa de sítios e materiais.

“Nós não temos quase nada divulgado. E, no entanto, o Ceará tem mais de cinco mil sítios arqueológicos. Tem um patrimônio enorme que o povo não conhece e não dá valor.”

O trabalho acabou se conectando ao Museu Tertuliano de Melo, em Baturité (referido por ele como Sertão Central), o primeiro museu de arqueologia do Sertão Central cearense, fundado pelo saudoso pesquisador Neto Melo, de quem Bomfim hoje assume a direção do acervo junto com outros parceiros.

O museu abriga “a maior coleção de líticos – pedras lascadas e polidas – do estado do Ceará”, já visitada por arqueólogos do mundo todo, como lembra o documentarista com orgulho.

Ele também citou a experiência do curso de Arqueologia Social Inclusiva da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, e observou que, no Ceará, boa parte dos estudos arqueológicos ainda é conduzida por profissionais formados em História, Sociologia e Antropologia, por falta de cursos específicos na área.

Com humor, recuperou uma conversa com o arqueólogo francês naturalizado brasileiro André Prous:
“Ele dizia: ‘É pré-histórico mesmo, não é pré-colonial, não vamos inventar roda agora não. Vamos falar fácil’”, contou, para reforçar a ideia de que a arqueologia cearense tem uma base sólida, embora pouco conhecida.

Negro, indígena e o apagamento na narrativa oficial

Ao comparar o Ceará com experiências em outros estados, Bomfim mencionou uma vivência marcante em Ouro Preto, no Museu da Inconfidência, o mais visitado do Brasil. Ali, percebeu como o negro aparecia quase exclusivamente retratado como escravo, apagando sua atuação como artista, engenheiro, trabalhador qualificado.

“O negro era artista, era engenheiro, fazia de tudo. E cadê? Sumiu. Foi mal escrito, ou só escrito pelo branco. Com os indígenas, aconteceu algo parecido.”

Daí nasce a motivação para fazer documentários que resgatem o protagonismo de indígenas e negros na história, especialmente no contexto cearense, mostrando que o “homem pré-histórico” do Ceará não é uma entidade abstrata, mas parte da nossa própria formação.

“Quando a gente pensou no projeto, a pergunta era simples: nós não temos nada? Claro que temos. A questão é quem conta, com que interesses e a partir de quais documentos”, resumiu.

Praça do Ferreira: vaias, dedos e histórias que viram lenda

Outro eixo fundamental do trabalho de Bomfim é a memória urbana de Fortaleza, em especial a Praça do Ferreira, tema de livros, crônicas e de um de seus documentários, “Flertando com a Praça”, que faz parte de uma trilogia sobre o comércio cearense.

O cineasta se apoia em autores como Abelardo Fernando Montenegro, o primeiro a escrever um livro dedicado à praça, e em pesquisadores como Juarez Leitão e a historiadora Dizé Machado, para reconstituir episódios simbólicos, como o incêndio do Cine Majestic, que a jornalista cobriu ainda jovem, sob o risco de desabamento do prédio.

Ele recupera também as chamadas “três vaias” da Praça do Ferreira, que já fazem parte do folclore político e afetivo da cidade:

a vaia ao sol, após dias de céu nublado, que teria irritado setores da elite ligados à seca e à lógica do “indústria da seca”
a vaia da passagem de ano, quando uma agressão de um marido contra a esposa, em plena virada, despertou reprovação coletiva e virou ritual anual
e a origem, nada discreta, de um gesto hoje conhecido no mundo inteiro

Segundo o relato que Bomfim recolheu de pesquisadores, o gesto de levantar o dedo médio teria nascido na Praça do Ferreira, em contexto de disputa política e crise econômica, sob o governo do coronel Franco Rabelo. Um padeiro conhecido da praça, insatisfeito com a situação, incitava os “cabras de rua” a ridicularizar correligionários do governador. Quando as vaias perderam efeito, teria vindo a ideia de um gesto obsceno, associado a um toque retal simbólico, que rapidamente se espalhou.

“Essa mímica ostensiva surgiu aqui no Ceará, na Praça do Ferreira, no começo do século passado, e depois foi se espalhando. É memória, é pertencimento também, por mais curioso que pareça.”

Para o documentarista, histórias como essa ajudam a compreender como a praça se firmou como coração político e cultural de Fortaleza, um espaço de encontros, conflitos, humor e resistência.

Comércio, centro e a economia que a memória não vê

A trilogia sobre o comércio cearense, patrocinada em parte pela CDL, também revela aspectos pouco discutidos do centro de Fortaleza. Em um dos episódios, Bomfim mostra como o bairro Centro segue sendo, até hoje, o maior arrecadador de ICMS do estado, apesar do avanço dos shoppings.

“É ali que o camelô compra com nota, que o pequeno comerciante gira mercadoria. Muita gente acha que o dinheiro está só nos grandes shoppings, mas o Centro continua sendo um pulmão econômico”, explicou.

Os documentários cobrem desde os antigos mascates e casas de tecidos até a formação dos shopping centers, chegando ao episódio “Centro, coração do comércio”. Para Bomfim, contar essa história é também uma forma de defender a revitalização da área central, ameaçada pela especulação imobiliária e por políticas urbanas que ignoram sua função social.

Cultura, editais e a ética do dinheiro público

Boa parte da entrevista foi dedicada às dificuldades de financiar e realizar projetos culturais no Brasil. Bomfim reconhece a importância de leis de incentivo, como a Lei Rouanet e editais estaduais, mas faz críticas duras à forma como são operacionalizadas.

“Eu não sou contra os incentivos. Sou contra o processo. Muitas vezes você tem um projeto bom, mas não é famoso, não tem padrinho. Aí vem alguém conhecido, pega um milhão e encontra empresa com facilidade.”

Ele relatou o caso do próprio “Vestígios pré-coloniais cearenses”, financiado por edital da Secretaria de Cultura. Ao final, devolveu 12 mil reais ao erário porque, devido a falhas do próprio desenho do edital e à burocracia, não conseguiria comprovar todos os gastos da maneira exigida.

“Disseram que eu era o primeiro produtor no Ceará a devolver dinheiro cultural. Mas o dinheiro é do povo, não é meu. Eu não ia ajeitar nota nem inventar despesa”, afirmou.

A crítica de Bomfim vai numa direção clara: é preciso reformar o sistema de financiamento à cultura, garantir transparência, combater o desvio de recursos, mas sem demonizar quem trabalha de forma séria. Caso contrário, quem frauda continua avançando, enquanto quem cumpre regras acaba penalizado.

Convite ao museu e um recado para o futuro

Antes de encerrar a entrevista, Bomfim deixou dois convites. O primeiro, prático: que os ouvintes e espectadores visitem o Museu Tertuliano de Melo, no Sertão Central, “primeiro museu de arqueologia da região”, onde é possível ver de perto peças que contam milhares de anos de história dos povos que habitaram o Ceará.

O segundo, político e afetivo: que cada pessoa volte a olhar para seu próprio passado, familiar e coletivo, com mais atenção e responsabilidade.

“Se eu estou falando hoje, é porque eu nasci ontem. Vamos prestar atenção no que passou, refletir sobre o hoje e pensar um amanhã com mais paz, harmonia e compartilhamento de saberes para as futuras gerações.”

Em tempos de desinformação acelerada e discursos que tentam reescrever a história ao sabor das conveniências, a defesa de memória e pertencimento que Bomfim faz no Café com Democracia é um lembrete poderoso: não há futuro digno construído sobre ruínas de esquecimento.

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🕙 Das 7h30 às 8h
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