No Café com Democracia, o professor Nelson Campos analisa proposta de “Conselho de Paz” de Trump, critica a lógica do veto, aponta escalada autoritária nos EUA e relaciona agenda belicista à indústria de armas
A nova edição do Café com Democracia, programa da Rede de Comitês Populares pela Democracia transmitido pela Rádio e TV Atitude Popular, discutiu o tema “Conselho de Paz do Trump: Guerra ou Paz para o mundo?” com apresentação do sociólogo Luiz Regadas e participação do professor Nelson Campos, mestre em Educação pela UFC. O debate foi ao ar nesta segunda-feira e está disponível no YouTube.
A conversa parte de um contexto de tensão política e social nos Estados Unidos, marcado por denúncias de violência estatal e repressão a protestos. Logo no início, Regadas exibiu imagens relacionadas ao assassinato de um enfermeiro por agentes da polícia de imigração norte-americana, destacando que não pretendia ser sensacionalista, mas alertando para “um momento de assassinato de seus compatriotas e de negação à democracia”. Em seguida, ele lançou a pergunta que atravessou todo o programa: como um país que vive convulsão interna pretende liderar um “conselho de paz” para o mundo?
A crítica central: “um veto concentrado em uma única pessoa”
Ao analisar a proposta atribuída a Trump, Nelson Campos argumentou que o projeto representaria uma tentativa de substituir a arquitetura multilateral da ONU por um mecanismo concentrado de poder. Para o professor, a Organização das Nações Unidas — criada em 1945, no pós-guerra — já nasceu com uma contradição: a existência de um Conselho de Segurança com membros permanentes e poder de veto, o que pode neutralizar decisões aprovadas pelo conjunto dos países.
A crítica se acentua quando Nelson aponta o histórico de vetos dos Estados Unidos em resoluções relacionadas a Israel e Palestina. Na leitura do convidado, esse desenho já fragiliza a capacidade de prevenção de guerras e punição internacional. Mas, no “Conselho de Paz” imaginado por Trump, a distorção seria ainda maior: “O conselho de paz que o Donald Trump tá tentando impor é uma forma de esvaziar a importância da ONU”, disse, acrescentando que a tentativa seria de fazer de Trump “o único” com poder real de decisão.
O professor mencionou ainda a informação de que países teriam de pagar 1 bilhão de dólares para participar do mecanismo proposto, e que o destino do dinheiro dependeria da vontade do próprio presidente norte-americano — um desenho que, na sua avaliação, radicalizaria a lógica do veto e da imposição.
Autoritarismo doméstico e “SA do nazismo”
Regadas interrompeu o debate em um momento para exibir o vídeo do assassinato comentado no início do programa, reforçando que a vítima já estava imobilizada quando os disparos ocorreram. A pergunta voltou mais dura: que paz os EUA estariam oferecendo se “dentro do próprio país” o pavio social está aceso com manifestações e mortes?
Nelson respondeu em chave estrutural: para ele, polícias são treinadas como braço coercitivo do Estado e, diante de uma liderança política “estúpida”, “negacionista” e sem compromisso com a verdade, a tendência seria o rebaixamento ainda maior do limite moral do aparato de repressão. No mesmo raciocínio, ele afirmou que a política de imigração de Trump “se assemelha a SA do nazismo”, ao associá-la à perseguição sistemática de grupos vistos como indesejáveis e à construção de inimigos internos para mobilizar apoio político.
“Ele não vai querer sair do poder”
Nelson Campos também descreveu Trump com termos fortes — “megalomaníaco”, “narcisista”, “egocêntrico” — e afirmou que, pelo histórico do ex-presidente, seria previsível a tentativa de se manter no cargo mesmo contra regras do sistema. “Ele não vai querer sair do poder, não. Ele vai tentar dar um golpe como ele tentou na eleição passada”, disse, ao relembrar a narrativa de fraude usada por Trump após derrota eleitoral anterior.
Para o professor, a chave para entender o fenômeno não é tratar Trump como “imprevisível”. Ao contrário: ele seria “absolutamente previsível” dentro de uma lógica de produção constante de mentira, chantagem e bravata. Nessa linha, Nelson comparou o método trumpista à fabricação de rebanhos políticos que aceitam versões sem prova e ignoram fatos — uma crítica que, no programa, também foi estendida a personagens da extrema direita brasileira.
A indústria bélica: guerra como negócio
Ao ser perguntado diretamente sobre a contradição entre um discurso de paz e o histórico de gastos militares e tensões geopolíticas, Nelson afirmou que a guerra é, ao mesmo tempo, expressão de estupidez e ferramenta de lucro. Ele disse que a indústria armamentista está por trás do impulso belicista e precisa de conflitos para vender e renovar estoques, convertendo destruição em faturamento e, depois, reconstrução em novo ciclo de contratos.
“Guerra é altamente lucrativa”, resumiu, defendendo que a retórica pacificadora é, muitas vezes, apenas a capa moral de interesses econômicos e de dominação. Nesse raciocínio, o “Conselho de Paz” seria menos uma arquitetura diplomática e mais um mecanismo de controle político internacional por meio de pressão econômica, tarifas e chantagens.
Barganha política e subserviência: Milei e o “porto de Ushuaia”
No debate, Luiz Regadas mencionou a informação de que Javier Milei teria oferecido a Trump o porto de Ushuaia para uso militar e comercial em troca de participação no suposto conselho. Nelson reagiu chamando Milei de “imbecil” e “idiota”, criticando o que vê como submissão e troca de soberania por alinhamento com Washington. Para ele, Trump usaria a lógica da pressão e da barganha — aplicada, segundo sua fala, em outros países e potencialmente no Brasil — para produzir governos “inteiramente subservientes” aos interesses norte-americanos.
Rússia, ativos congelados e o efeito bumerangue da chantagem
Ao final, o programa abordou a condição atribuída a Vladimir Putin para entrar em um eventual conselho: a liberação de ativos congelados. Nelson interpretou a exigência como tentativa de destravar recursos “indevidamente bloqueados”, criticando a prática de confisco como instrumento de poder e alertando para o efeito colateral: insegurança global sobre investimentos e reservas.
Ele também comentou o peso do dólar como moeda internacional e a lógica de financiar déficits com impressão de moeda, apontando que a chantagem financeira — combinada ao poder militar — sustentaria a “hipocrisia descomunal” da política externa norte-americana, que se apresenta como guardiã da democracia enquanto apoiaria ditaduras e intervenções ao redor do mundo.
“Participar seria favorecer Trump”, diz Nelson
Questionado se o Brasil deveria aceitar convite para integrar o “Conselho de Paz”, Nelson respondeu que a diplomacia brasileira não deveria cair nessa “fria”. Para ele, aderir a um arranjo desenhado para concentrar veto e impor vontade unilateral significaria legitimar a subserviência e fortalecer um projeto de coerção global.
Encerrando, o professor reiterou o papel do programa e da crítica: “O papel da filosofia crítica é o de desmascarar a ideologia”, afirmou, defendendo o debate público como ferramenta para reconhecer manipulações, desmontar narrativas e recolocar a soberania e os direitos no centro da política.
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