Da Redação
O documento protocolado pelo senador Flávio Bolsonaro junto ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, é muito mais do que uma manifestação técnica contra tarifas comerciais. Em 86 páginas, o parlamentar brasileiro se apresenta oficialmente como senador, líder da oposição e pré-candidato à Presidência da República em 2026 para pedir ao governo norte-americano que suspenda medidas contra o Brasil, não por defesa incondicional da economia nacional, mas porque, segundo ele próprio, as tarifas poderiam fortalecer eleitoralmente o Presidente Lula. Logo nas primeiras páginas, Flávio afirma ter se reunido com Donald Trump, J.D. Vance e Marco Rubio e propõe que Washington abra um mecanismo bilateral de negociação em seis áreas estratégicas da política brasileira.
O ponto central do documento é revelador. Flávio Bolsonaro não argumenta apenas que tarifas contra o Brasil seriam prejudiciais a trabalhadores, empresas, exportadores e consumidores. Ele sustenta que elas seriam ruins porque dariam ao governo Lula uma vitória política doméstica. Em outras palavras, o senador brasileiro tenta convencer uma potência estrangeira a modular sua política comercial a partir do cálculo eleitoral da oposição brasileira. O texto chega a afirmar que a pressão tarifária fortaleceu Lula nas pesquisas e transformou o conflito com os Estados Unidos em ativo político para o governo brasileiro.
A manobra expõe uma contradição profunda. Publicamente, o bolsonarismo se apresenta como defensor da pátria, da liberdade e da soberania. No documento, porém, um de seus principais herdeiros políticos pede a Washington que preserve a investigação contra o Brasil, mantenha a ameaça no horizonte, suspenda temporariamente a punição e crie um mecanismo de negociação com prazo, metas e possibilidade de retomada automática das sanções. O pedido não é para encerrar a ofensiva norte-americana. É para administrá-la politicamente.
A estrutura do documento mostra essa estratégia. Flávio pede a suspensão da ação proposta, mas defende a manutenção da investigação e sugere um mecanismo de “snap-back” de 180 dias, isto é, uma espécie de gatilho para retomada das medidas caso as negociações não avancem. O texto também recomenda que os Estados Unidos levem em conta o calendário eleitoral brasileiro, afirmando que uma ação econômica grave antes das eleições poderia ser interpretada como tentativa de interferência no processo eleitoral. A contradição é evidente: o próprio documento procura influenciar a decisão de um governo estrangeiro durante o período pré-eleitoral brasileiro.
O senador que pede moderação, mas oferece submissão
A defesa apresentada por Flávio Bolsonaro tenta parecer pragmática. Ele argumenta que tarifas gerais prejudicariam a economia americana, importadores, consumidores e empresas dos Estados Unidos instaladas no Brasil. Essa parte poderia ser lida como uma defesa do interesse nacional brasileiro, não fosse o conjunto da obra. Ao longo das páginas, o senador constrói uma narrativa em que o problema não seria a agressividade da política comercial norte-americana, mas o governo Lula, o Supremo Tribunal Federal, a política externa brasileira, o BRICS, a aproximação com a China, o debate sobre desdolarização e até o Pix.
O texto tenta separar o Brasil do governo eleito pelo povo brasileiro. A lógica é: não punam o Brasil inteiro, punam os responsáveis. Aparentemente, isso soa como defesa da população. Mas, no conteúdo concreto, abre-se a porta para outro tipo de pressão externa: sanções individuais, restrições de visto, medidas financeiras e instrumentos direcionados contra autoridades brasileiras. O documento menciona justamente a possibilidade de instrumentos mais “calibrados” contra pessoas e instituições, em vez de tarifas amplas.
Essa é uma das passagens mais graves do material. O senador não apenas critica decisões internas do Brasil diante de uma autoridade estrangeira. Ele apresenta caminhos para que os Estados Unidos atinjam autoridades brasileiras específicas, sobretudo no Judiciário. Ao deslocar a crítica política interna para um fórum externo, Flávio transforma disputas institucionais brasileiras em objeto de pressão geopolítica norte-americana.
A tentativa de criminalizar a política externa brasileira
Outro eixo central do documento é a tentativa de apresentar a política externa do governo Lula como ameaça aos interesses dos Estados Unidos. O anexo sobre “desdolarização” lista declarações e atos do governo brasileiro envolvendo BRICS, China, Banco dos BRICS, moedas locais, acordos comerciais e críticas à dependência global do dólar. A estratégia é clara: transformar uma agenda de diversificação econômica e autonomia internacional em prova de hostilidade contra Washington.
Esse é um ponto decisivo. Defender comércio em moedas locais, discutir alternativas de financiamento internacional, fortalecer o BRICS ou ampliar relações com China, Índia, África do Sul, Rússia e outros países não significa declarar guerra aos Estados Unidos. Significa atuar num mundo multipolar, no qual países médios e grandes buscam reduzir vulnerabilidades e ampliar margem de manobra. O documento de Flávio, porém, reinterpreta essa busca por autonomia como provocação deliberada.
A consequência política é evidente. Ao apresentar a autonomia brasileira como ameaça, o senador se alinha à leitura estratégica de Washington e não à tradição diplomática brasileira, que historicamente busca equilíbrio, diversificação de parceiros e defesa de interesses nacionais. O problema não é discordar de Lula. O problema é oferecer a uma potência estrangeira um roteiro para pressionar o Brasil por exercer política externa soberana.
O Pix como alvo indireto
O documento também trata do Pix e dos serviços de pagamento eletrônico. Flávio Bolsonaro tenta se equilibrar: reconhece o Pix como uma inovação brasileira associada ao período do governo Bolsonaro, mas ao mesmo tempo procura responder às preocupações norte-americanas sobre competição com empresas privadas de pagamentos. Em sua proposta, defende que o Pix não seja conectado a sistemas de liquidação não ocidentais e sugere redução de carga regulatória e tributária sobre cartões, adquirentes e empresas privadas de pagamento.
Aqui aparece outra camada da disputa. O Pix é infraestrutura pública brasileira, de enorme impacto social e econômico, que reduziu custos, ampliou bancarização e diminuiu a dependência de intermediários privados. Ao tratar o tema no âmbito de uma investigação comercial norte-americana, o documento ajuda a deslocar uma conquista tecnológica nacional para dentro da agenda de interesses financeiros externos.
O ataque ao Supremo como política externa
O documento dedica grande espaço a Alexandre de Moraes, ao STF e às plataformas digitais. A narrativa apresentada é a de que o Judiciário brasileiro pratica censura, persegue a oposição e ataca empresas norte-americanas. O material lista decisões sobre plataformas, processos contra bolsonaristas e medidas judiciais como parte de um padrão de intimidação política.
É legítimo discutir limites do Judiciário, liberdade de expressão, regulação de plataformas e devido processo legal. O problema é transformar esse debate interno em peça de acusação perante um governo estrangeiro, especialmente quando o próprio documento sugere que os Estados Unidos dispõem de instrumentos individuais para atingir autoridades brasileiras. Nesse ponto, a crítica deixa de ser apenas institucional e passa a funcionar como pedido de tutela externa.
O caso fica ainda mais grave porque o documento tenta apresentar processos contra integrantes da família Bolsonaro como evidência de perseguição. Em um dos anexos, o relatório menciona que a Polícia Federal concluiu que Flávio Bolsonaro teria cometido calúnia contra Lula em publicação nas redes, ao associar o presidente a Nicolás Maduro e imputar falsamente crimes como tráfico internacional de drogas, armas e lavagem de dinheiro. O próprio documento registra esse fato, mas o incorpora à narrativa de “intimidação da oposição”.
Esse é um exemplo claro de inversão retórica: uma apuração por possível crime contra a honra vira, no documento, prova de perseguição política. O debate sobre responsabilidade jurídica é substituído por uma narrativa de vitimização dirigida a Washington.
A eleição brasileira dentro do cálculo americano
O trecho mais revelador do documento é o uso de pesquisas eleitorais para orientar a decisão dos Estados Unidos. Flávio argumenta que Lula teria melhorado sua posição justamente nos momentos de maior pressão tarifária e que, por isso, as tarifas acabariam fortalecendo o governo que deveriam punir. O texto cita levantamentos eleitorais e trata o impacto político das medidas norte-americanas como parte central da argumentação.
Isso revela a natureza real da peça. Não é apenas uma defesa econômica. É uma intervenção política preventiva. O senador tenta convencer Washington a não dar a Lula uma bandeira nacionalista antes da eleição. Em vez de dizer simplesmente “não ataquem o Brasil”, ele diz, em essência: “não façam isso agora, porque Lula pode ganhar com isso”.
A diferença é fundamental. Uma defesa soberana diria que nenhuma potência estrangeira deve usar tarifas, sanções ou ameaças para interferir nos rumos do Brasil. O documento de Flávio diz outra coisa: que a pressão deve ser calibrada para não prejudicar eleitoralmente a oposição.
O entreguismo sofisticado
O documento é sofisticado porque evita a aparência de submissão direta. Flávio não pede explicitamente uma punição imediata contra o Brasil. Ao contrário, pede suspensão das tarifas. Mas, ao mesmo tempo, aceita a lógica da investigação, valida parte das acusações norte-americanas, oferece agenda de negociação, sugere instrumentos alternativos de pressão e apresenta a oposição como interlocutora mais confiável para os Estados Unidos.
É nesse ponto que aparece o entreguismo em sua forma contemporânea. Não se trata apenas de vender empresas públicas, abrir mão de recursos naturais ou defender privatizações. Trata-se de oferecer a política externa brasileira, o sistema financeiro, a regulação digital, a relação com o Mercosul, o debate sobre plataformas e até o calendário eleitoral como temas de negociação com uma potência estrangeira.
A linguagem é técnica. A intenção é política. O efeito é grave.
O Brasil como problema, os Estados Unidos como juiz
Ao longo do documento, o Brasil aparece como um país que precisa ser corrigido. O governo Lula seria provocador. O STF seria abusivo. O Pix precisaria de garantias. O Mercosul seria obstáculo. O BRICS seria ameaça. A política externa brasileira seria desalinhamento. A legislação digital seria censura. A pauta ambiental seria insuficiente. A propriedade intelectual precisaria se adequar. O etanol dependeria de negociação. A Amazônia entraria no radar comercial.
O resultado é uma peça que reposiciona os Estados Unidos como árbitro externo de quase todos os temas estratégicos do Brasil. É exatamente o oposto de uma política soberana.
A armadilha discursiva
A maior esperteza do documento é tentar se apresentar como defesa do Brasil. Flávio diz que tarifas gerais prejudicariam brasileiros e americanos. Isso é verdadeiro em termos econômicos. Mas o documento usa essa verdade parcial para sustentar uma proposta politicamente perigosa: substituir a punição ampla por pressão seletiva, manter a investigação como instrumento de coerção e abrir uma negociação na qual a oposição brasileira aparece como parceira preferencial dos Estados Unidos.
A pergunta central, portanto, não é se tarifas contra o Brasil são ruins. São. A pergunta é outra: que tipo de parlamentar brasileiro leva a uma autoridade estrangeira um roteiro tão detalhado sobre como pressionar seu próprio país sem fortalecer eleitoralmente o governo adversário?
Um documento contra Lula, mas também contra a autonomia brasileira
A peça de Flávio Bolsonaro é, evidentemente, um ataque ao governo Lula. Mas é mais do que isso. É um ataque à ideia de que o Brasil pode ter política externa própria, diversificar parceiros, regular plataformas digitais, defender infraestrutura pública de pagamentos, negociar no Mercosul, participar do BRICS e conduzir seus conflitos internos dentro de suas próprias instituições.
O documento não prova que Lula provocou deliberadamente os Estados Unidos. Essa é uma interpretação política do autor. Também não prova que a política externa brasileira seja hostil aos norte-americanos. O que o documento prova, com força documental, é outra coisa: um senador brasileiro e pré-candidato à Presidência pediu a um órgão do governo dos Estados Unidos que modulasse sua política contra o Brasil levando em conta o impacto eleitoral da medida e a possibilidade de negociar com uma futura oposição.
Isso, por si só, já é uma revelação política de enorme gravidade.
Conclusão
O documento enviado por Flávio Bolsonaro ao USTR deve ser lido como peça central da disputa de soberania que marcará as eleições de 2026. Ele mostra uma direita que, derrotada nas urnas e acuada judicialmente, busca reconstruir poder por meio de articulações internacionais, pressão comercial, redes conservadoras estrangeiras e alinhamento estratégico com Washington. Não se trata apenas de uma carta contra tarifas. Trata-se de um programa de reposicionamento do Brasil sob tutela política, econômica e diplomática dos Estados Unidos.
Ao tentar convencer Washington de que punir o Brasil agora poderia ajudar Lula, Flávio Bolsonaro revelou o cálculo que move sua estratégia: o problema não é a agressão estrangeira contra o país. O problema, para ele, é quem se beneficia dela. Essa é a essência do entreguismo contemporâneo. Não se vende o Brasil de uma vez. Primeiro, transforma-se a soberania nacional em variável eleitoral. Depois, apresenta-se a submissão como pragmatismo.