No Democracia no Ar, Thiago Skárnio explica por que o Fediverso se tornou estratégico para o Brasil e apresenta o 1º WebSocialBR, fórum que reúne governo, pesquisadores, comunicadores e gestores para discutir soberania digital e novas arquiteturas de comunicação
O Democracia no Ar, apresentado por Sara Goes na Rádio e TV Atitude Popular, recebeu nesta quarta-feira (26) o ativista da cultura digital Thiago Skárnio, coordenador da Alquimídia, para discutir o 1º WebSocialBR – Fórum do Fediverso Brasileiro, que será realizado no próximo dia 3 de dezembro, no auditório do MCTI, em Brasília.
As informações e declarações citadas nesta matéria foram extraídas da entrevista concedida ao programa, disponível na íntegra no canal da TV Atitude Popular.
O evento, apoiado pelo CGI.br, pelo próprio MCTI, pelo IBRAM e pelo coletivo Fediverse Forum, reunirá pesquisadores, comunicadores, gestores públicos e administradores de instâncias para apresentar a web social aberta como alternativa concreta às plataformas centralizadas e às grandes corporações que controlam dados, algoritmos e fluxos de informação.
“O Fediverso é como criar a sua própria rede social, sem algoritmo, sem publicidade, e ainda assim conversar com o mundo inteiro”
Logo no início da conversa, Skárnio explicou o conceito de federação digital de forma simples e direta:
“O Fediverso é como se cada coletivo, instituição ou pessoa pudesse ter sua própria rede social, mas sem ficar isolado. Todo mundo conversa com todo mundo, como acontece com o e-mail.”
A comparação ajuda a visualizar a mudança de paradigma: no Fediverso, comunidades criam suas instâncias independentes, que permanecem interoperáveis entre si por meio do protocolo ActivityPub, mantido pela W3C, entidade internacional sem fins lucrativos responsável por padrões da web.
Sites em WordPress, plataformas como Mastodon, PeerTube, Pixelfed, Friendica, fóruns federados e tantas outras aplicações se conectam sem necessidade de login múltiplo ou captura de dados.
“É a praça pública que a internet prometeu ser, mas que as big techs sequestraram”, resumiu o ativista.
Soberania digital: conceito político, disputa econômica e urgência eleitoral
O debate também percorreu os desafios do Brasil em 2024 e 2025, como a dependência de infraestrutura estrangeira, o alto custo de servidores nacionais, o impacto ambiental dos data centers e a captura de dados por empresas como Meta, Google e X.
Sara destacou que o termo “soberania digital”, hoje usado com frequência pelo governo federal, corre o risco de virar slogan vazio se não vier acompanhado de práticas concretas:
“Soberania não pode virar branding. Não adianta criar uma ‘nuvem soberana’ sem soberania nenhuma ali dentro.”
Skárnio concordou:
“Soberania tem dois pilares: infraestrutura e governança. Sem ter servidores, código e dados sob controle público, não existe soberania.”
Ele citou ainda que, na Europa, governos locais, universidades e museus já operam instâncias próprias para se comunicar com o cidadão sem depender das Big Techs — algo que, segundo ele, deveria estar na pauta brasileira:
“Se a Meta já está integrando o ActivityPub ao Threads, por que os governos ainda não entenderam a importância do Fediverso?”
A disputa de 2026 e a avalanche de desinformação: “o Fediverso não substitui as redes, mas cria um outro terreno de jogo”
Sara relembrou que 2026 será um ano eleitoral carregado por narrativas fabricadas, conteúdo manipulado por IA e operações coordenadas de desinformação. Para Skárnio, é impossível ignorar as plataformas comerciais — mas é igualmente impossível confiar nelas:
“Nas redes centralizadas, você disputa no campo deles, com a bola deles e com o juiz deles. Não tem como ganhar.”
O ativista explicou que o Fediverso não substitui o ecossistema vigente, mas inaugura um ambiente alternativo, com regras próprias, que reduz impactos psicológicos, limita automação nociva e impede que algoritmos priorizem ódio, fake news e radicalização:
“A timeline é cronológica. Não tem neurose, não tem competição, não tem engajamento artificial. Você vê só quem você segue.”
A urgência de disputar agora para evitar a captura futura
Skárnio alertou que há ainda um risco político pouco debatido: grandes corporações já estão tentando colonizar o espaço federado. Ele citou o caso do Bluesky, que vende a ideia de descentralização, mas possui protocolo controlado por empresa privada:
“É o capitalismo se movendo rápido para ocupar o território antes de nós. O futuro é federado — resta saber sob qual modelo.”
O 1º WebSocialBR: programação, convidados e objetivos
O Fórum do Fediverso Brasileiro foi construído para ser um marco inicial na articulação nacional em defesa da web social aberta. Entre os participantes confirmados:
Renata Mielli, coordenadora do CGI.br
Marco Konopacki, representando a SECOM da Presidência
José Murilo Júnior, do IBRAM (uma das instituições que mais tem experimentado redes federadas no setor público)
Fred Guimarães, especialista em ActivityPub
Lia Mâncio, responsável pela maior instância brasileira (Ursal)
Marcos Mendes, da cooperativa Pop Solutions, que mantém a instância Orgânica.Social
Roger Paulo, sobre fóruns federados
Ana Ribeiro, sobre UX político e acessibilidade
Evan Prodromou, coautor do ActivityPub (participação internacional)
A transmissão não será no YouTube, mas no próprio PeerTube, alternativa federada a plataformas proprietárias.
Para quem quiser participar ou acompanhar: websocial.org.br.
Como acessar o Fediverso: convite e caminhos
O ativista reforçou que a migração é gradual, mas necessária:
“A gente está construindo uma nova praça pública. Quem quiser entender para onde o mundo da comunicação está caminhando, precisa dar o primeiro passo.”
Instâncias brasileiras como organica.social, ursal.zone e outras estão abertas para cadastro. Ferramentas como Mastodon, Pixelfed ou Friendica podem ser acessadas por aplicativos independentes.
Sara encerrou lembrando que o Fediverso é um caminho estratégico para quem já está cansado da toxicidade das redes centralizadas:
“É uma alternativa saudável, segura, sem confusão e sem manipulação algorítmica. A internet que a gente sonhou lá atrás talvez ainda seja possível.”
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