No Café com Democracia, professor Nelson Campos analisa a escalada militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, critica a hipocrisia do discurso ocidental sobre democracia e relaciona o conflito à lógica histórica do imperialismo
No programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas, o professor Nelson Campos, mestre em Educação pela UFC, analisou a ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã a partir de uma chave histórica e conceitual. A edição foi ao ar na segunda-feira, 9 de março, e abordou o tema “O imperialismo dos EUA e do estado genocida de Israel contra o fundamentalismo religioso do Irã”.
Ao longo da entrevista, Nelson Campos sustentou que a atual escalada militar não pode ser compreendida como um episódio isolado, nem como simples resposta a ameaças circunstanciais. Para ele, trata-se de mais um capítulo de uma longa tradição imperialista, marcada pela expansão territorial, pelo uso da força, pela fabricação de inimigos e pela instrumentalização do discurso da democracia como cobertura ideológica para guerras e saques. “O imperialismo é uma política de dominação, de opressão pelo uso da força”, afirmou.
A fala do professor partiu de uma preocupação que ele próprio explicitou logo no início da conversa: definir conceitos antes de interpretar os fatos. Segundo Nelson, falar em imperialismo exige compreender que se trata de um fenômeno moderno, vinculado à expansão das potências industriais e à necessidade permanente de controlar territórios, recursos estratégicos e zonas de influência. Embora tenha lembrado que impérios existiram em diferentes épocas históricas, ele destacou que o imperialismo contemporâneo nasce de outra lógica, associada à acumulação capitalista em escala global.
Nesse sentido, o professor inseriu o conflito envolvendo Israel, Irã e Estados Unidos em uma moldura histórica mais ampla. Ao rememorar a formação do Estado de Israel em 1948, ele observou que a fundação ocorreu sem a constituição simultânea do Estado palestino, embora essa fosse a proposta original. Para Nelson Campos, a não concretização dessa segunda parte do arranjo abriu caminho para uma dinâmica permanente de guerra, ocupação territorial e expansão militar israelense.
Na entrevista, ele destacou que, desde sua fundação, Israel ampliou sucessivamente o território sob seu controle, em guerras travadas contra países vizinhos e em processos de ocupação que, em sua leitura, violam o direito dos povos da região à autodeterminação. “Eles querem simplesmente acabar com a presença palestina naquela região”, declarou, ao comentar tanto a ofensiva militar israelense quanto as propostas recentes de deslocamento forçado da população palestina.
A crítica ao governo de Benjamin Netanyahu foi frontal. Nelson Campos classificou Israel como “estado genocida” e afirmou que há uma blindagem discursiva da imprensa hegemônica em relação ao terror produzido pela máquina de guerra israelense. Segundo ele, enquanto grupos armados do Oriente Médio são frequentemente descritos como radicais, extremistas ou terroristas, a ação militar sistemática de Israel contra civis palestinos, libaneses e agora iranianos é tratada com complacência ou justificada em nome da segurança. “O terrorismo que Israel pratica, que os Estados Unidos praticam, isso raramente aparece com a mesma nitidez no noticiário”, argumentou em essência ao longo da entrevista.
Ao tratar diretamente do Irã, o professor chamou atenção para o modo como o país vem sendo apresentado como ameaça global. Para ele, repete-se agora o mesmo enredo montado anteriormente para justificar a guerra do Iraque. Nelson relembrou que o governo de George W. Bush invadiu o território iraquiano sob a alegação de que o país possuía armas de destruição em massa, algo que jamais foi comprovado. “Nunca encontraram essas armas por uma razão bem simples: porque elas não existiam”, afirmou.
Na interpretação do entrevistado, a mesma lógica reaparece quando o Irã é retratado como um perigo iminente. A denúncia de um suposto programa nuclear ameaçador, segundo ele, funciona como narrativa útil para legitimar pressões, sanções, bombardeios e mudanças de regime desejadas pelas potências ocidentais. Nelson não negou o caráter teocrático e fundamentalista do regime iraniano, mas argumentou que isso não autoriza agressões externas seletivas, ainda mais quando realizadas por governos que mantêm aliança estreita com regimes autoritários ao redor do mundo.
Foi nesse ponto que ele formulou uma das críticas mais duras da entrevista à política externa dos Estados Unidos. “A política externa mais hipócrita que existe no mundo é a dos Estados Unidos da América”, disse. Na avaliação do professor, Washington invoca a defesa da democracia quando deseja intervir militarmente em países soberanos, mas sustenta alianças estáveis com monarquias, ditaduras e governos autoritários sempre que isso serve a seus interesses geopolíticos, energéticos ou militares.
A hipocrisia, segundo Nelson, não é atributo apenas do atual governo norte-americano, embora ele tenha reservado palavras duríssimas para Donald Trump, a quem chamou de “psicopata” ao comentar sua retórica belicista e sua disposição de tratar conflitos internacionais com brutalidade. Ainda assim, o professor insistiu que o problema é estrutural e antecede Trump. Da guerra do Vietnã à destruição do Iraque, passando por intervenções na América Latina e pelo apoio a golpes e ditaduras, os Estados Unidos teriam consolidado uma tradição imperial de longa duração.
A América Latina apareceu como espaço central nessa reflexão. Nelson Campos citou o bloqueio contra Cuba, a tentativa de desestabilização da Venezuela, a tutela histórica sobre governos do continente e o apoio a regimes autoritários como parte de uma mesma engrenagem. Ao lembrar o período da ditadura militar brasileira, ele afirmou que agentes norte-americanos vieram ao país para ensinar métodos de tortura e colaborar com a repressão. Também mencionou a Operação Brother Sam como evidência de que os Estados Unidos estiveram dispostos a intervir diretamente no Brasil caso houvesse resistência ao golpe de 1964.
Ao longo da conversa, o professor enfatizou que a linguagem da guerra costuma operar por inversões morais profundas. Em nome da paz, destrói-se. Em nome da democracia, apoia-se tiranias. Em nome da segurança, bombardeiam-se populações civis. Em nome da defesa do mundo livre, saqueiam-se riquezas nacionais. “Numa guerra, a primeira vítima é a verdade”, resumiu.
Essa formulação organizou boa parte de sua crítica ao noticiário internacional e aos consensos fabricados pelas grandes corporações midiáticas. Para Nelson Campos, o cidadão comum é permanentemente exposto a versões parciais, simplificações maniqueístas e omissões calculadas. O resultado, segundo ele, é uma opinião pública incapaz de situar historicamente os conflitos e, muitas vezes, predisposta a aceitar agressões como se fossem intervenções humanitárias.
Em um dos trechos mais fortes da entrevista, o professor argumentou que as guerras não são travadas prioritariamente para vencer inimigos em sentido moral ou civilizatório, mas para produzir ganhos econômicos e reordenar interesses estratégicos. “Guerra é uma forma de ganhar dinheiro”, afirmou. Nessa perspectiva, petróleo, ouro, rotas comerciais, influência regional e controle político pesam mais do que os princípios alegados oficialmente.
Ao comentar o caso do Irã, Nelson também chamou atenção para a seletividade geopolítica do Ocidente no trato com a questão nuclear. Vários países possuem armas atômicas, inclusive aliados estratégicos dos Estados Unidos, sem que isso produza campanhas internacionais equivalentes às voltadas contra Teerã. Para ele, essa diferença de tratamento revela que o problema não é exatamente a bomba, mas quem a possui e que grau de submissão ou autonomia demonstra diante da ordem global liderada por Washington.
A entrevista também avançou sobre a crise do pensamento crítico em tempos de extrema direita. Nelson Campos afirmou que o sucesso de narrativas belicistas e de versões fraudulentas da realidade está ligado à circulação em massa de mentiras, ao enfraquecimento da reflexão pública e à naturalização da desinformação. Para ele, esse ambiente é especialmente perigoso porque cria base social para projetos autoritários e para a aceitação acrítica da violência de Estado.
No encerramento, o professor retomou a definição central que orientou toda sua análise: o imperialismo, ontem como hoje, é uma política de expansão e dominação, sustentada pela força e legitimada por discursos fabricados. Da África colonizada no século XIX ao Oriente Médio devastado no século XXI, haveria uma linha de continuidade: potências centrais reconfiguram o mapa do mundo conforme seus interesses, enquanto os povos atingidos pagam o preço em sangue, deslocamento, miséria e destruição.
Sua conclusão, embora breve, foi contundente. “As guerras se baseiam em grandes mentiras”, afirmou, antes de lembrar que os que lucram com elas quase nunca são aqueles que tombam nos campos de batalha. Em tempos de nova escalada militar, sua advertência vale como síntese e como denúncia: por trás do vocabulário nobre da civilização, da ordem e da democracia, seguem operando velhas engrenagens de poder, saque e extermínio.
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