Fábio Sobral revisita o pensamento econômico sobre a região e aponta potenciais capazes de sustentar um modelo de desenvolvimento mais autônomo e inclusivo
Fortaleza (CE) – Em vídeo divulgado pelo Conselho Técnico do FBNB, associação que reúne funcionários do Banco do Nordeste e que recentemente completou 40 anos de atuação, o economista Fábio Sobral apresenta uma análise crítica sobre os rumos do desenvolvimento regional. No material, ele revisita o histórico do pensamento econômico aplicado ao Nordeste e defende a construção de um novo modelo capaz de romper com padrões históricos de dependência.
Sobral inicia sua exposição recuperando a origem da teoria das vantagens comparativas, formulada no século XIX por David Ricardo. Segundo essa concepção, cada país ou região deveria concentrar esforços naquilo que produz com maior eficiência relativa, deixando outras atividades para economias mais especializadas. A teoria se tornou dominante no pensamento econômico liberal e influenciou políticas públicas ao longo de décadas.
No entanto, o economista argumenta que a aplicação automática dessa lógica ao Nordeste brasileiro ajudou a consolidar um padrão produtivo baseado em atividades de baixo valor agregado. Para ele, a orientação de que a região deveria se dedicar principalmente à agricultura ou à extração de recursos naturais contribuiu para manter desigualdades estruturais e aprofundar a dependência em relação a centros industriais mais desenvolvidos.
“A ideia de que o Nordeste precisa apenas aproveitar suas vantagens comparativas não resolve o problema da dependência”, afirma Sobral no vídeo. Ele sustenta que a teoria não é neutra e que historicamente serviu aos interesses das economias industrializadas, que defendiam a manutenção de outras regiões como fornecedoras de produtos primários.
Ao traçar o histórico do pensamento econômico no Brasil, Sobral menciona a inflexão ocorrida a partir da década de 1930, quando intelectuais e formuladores de políticas passaram a defender a industrialização como caminho para superar a condição periférica do país. Ele cita nomes como Raúl Prebisch e Celso Furtado, que argumentavam em favor da substituição de importações e da construção de bases industriais próprias na América Latina.
A partir dessa contextualização histórica, o economista apresenta aspectos potenciais que, segundo ele, podem impulsionar um novo modelo de desenvolvimento para o Nordeste.
Entre esses fatores, destaca a população jovem da região, que representa tanto força de trabalho quanto mercado consumidor em expansão. Para Sobral, fortalecer a renda e a capacidade de consumo dessa população é estratégico para dinamizar a economia regional.
Ele também aponta o enorme potencial em energias renováveis, especialmente solar e eólica, além da possibilidade de geração distribuída em comunidades e pequenas unidades produtivas. Segundo sua avaliação, descentralizar a produção energética poderia reduzir custos para famílias e ampliar a autonomia econômica local.
Outro ponto enfatizado é a força da cultura nordestina. Sobral afirma que cada real investido em cultura gera retorno significativo para a economia regional, impulsionando cadeias produtivas que envolvem gastronomia, música, artes visuais, teatro, audiovisual e mídias digitais. Para ele, a economia criativa é um dos pilares ainda subexplorados do desenvolvimento nordestino.
O economista também defende a reestruturação do uso do solo e políticas de redistribuição de terras, aliadas a práticas sustentáveis como compostagem e aproveitamento de resíduos orgânicos para produção de húmus. Ele argumenta que o semiárido não deve ser visto apenas como limitação, mas como território capaz de inovação produtiva quando há planejamento adequado e tecnologias de armazenamento de água.
Ao abordar a questão salarial, Sobral é enfático ao afirmar que o baixo salário não pode ser considerado vantagem competitiva. “Nossa vantagem comparativa não é o baixo salário. Isso é uma desvantagem que precisa ser superada”, diz. Segundo ele, salários mais altos ampliam o consumo interno e fortalecem o mercado regional, criando condições mais sólidas para atrair investimentos e gerar desenvolvimento sustentável.
Por fim, ele ressalta o papel do Banco do Nordeste como instituição estratégica para financiar um projeto de desenvolvimento voltado à população, e não apenas aos grandes grupos econômicos. Para Sobral, retomar a ideia de planejamento econômico é fundamental diante dos limites de uma visão que atribui ao mercado a capacidade exclusiva de organizar o crescimento.
Ao combinar crítica histórica e propostas concretas, o vídeo de Fábio Sobral contribui para recolocar no centro do debate a necessidade de um modelo de desenvolvimento que transforme as potencialidades do Nordeste em instrumentos reais de autonomia econômica, redução das desigualdades e fortalecimento regional.


