Banda nascida na universidade em Campina Grande misturou tradição e inventividade, ganhou palcos internacionais e hoje inspira pesquisa histórica sobre memória cultural e esquecimento
A trajetória da Cabruêra, banda surgida em Campina Grande e projetada para além das fronteiras do Brasil, foi tema do Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, em edição dedicada à cultura nordestina. O convidado foi Didier Junior, doutorando em História pela UFRGS, que pesquisa a banda como objeto central de sua investigação acadêmica.
A entrevista, exibida pela TV Atitude Popular e disponível no YouTube, serviu de base para esta matéria, construída a partir do conteúdo integral do programa, respeitando fielmente as declarações do entrevistado.
Um nome que carrega o Nordeste no som e na história
Logo no início da conversa, Didier explicou a origem do nome Cabruêra, destacando seu peso simbólico no imaginário nordestino. Segundo ele, o termo remete a um “bando de cabras”, expressão historicamente associada aos grupos ligados ao cangaço, especialmente no tempo de Lampião.
“Cabruêra é um termo que quer dizer um bando de cabras… as pessoas tinham medo da cabruêra”
O pesquisador ressaltou que a banda optou por adotar a grafia e a sonoridade populares da palavra, tal como ela é pronunciada no Nordeste, reforçando desde o nome o vínculo com o território e a oralidade regional.
Da universidade à cena cultural paraibana
A Cabruêra nasceu no ambiente universitário, a partir do encontro de estudantes de diferentes áreas, como Ciências Sociais e Matemática, que se reuniam para ensaiar em espaços acadêmicos. Os primeiros passos ocorreram na então Universidade Federal da Paraíba, campus de Campina Grande, hoje Universidade Federal de Campina Grande, com apresentações também em instituições como a Universidade Estadual da Paraíba.
Esse caráter universitário marcou o início da banda, que rapidamente extrapolou os muros acadêmicos. Um dos momentos decisivos foi o convite para tocar no São João de Campina Grande, experiência que, segundo Didier, ampliou a visibilidade do grupo e abriu caminhos para uma circulação mais ampla.
Inventividade sonora e o “forró esferográfico”
Entre os elementos que diferenciaram a Cabruêra desde o início está a inventividade musical. Didier destacou o chamado “forró esferográfico”, música instrumental que se tornou uma espécie de assinatura da banda.
“Ao invés de usar a palheta, usava a caneta… vai parecer um som como se fosse uma rabeca”
A técnica consistia em friccionar as cordas do violão com uma caneta esferográfica, criando timbres incomuns e aproximando o instrumento de sonoridades tradicionais. A proposta chamou atenção pela criatividade e pela capacidade de transformar objetos cotidianos em ferramentas musicais.
Tradição nordestina em diálogo com o mundo
Ao longo da entrevista, Didier enfatizou que a Cabruêra construiu uma sonoridade híbrida, combinando instrumentos e ritmos nordestinos — como zabumba, triângulo e sanfona — com influências do rock e de outras linguagens contemporâneas.
Ele citou canções que dialogam diretamente com saberes populares do Nordeste, como aquelas que abordam os sinais da natureza usados para prever chuvas e períodos de plantio, mostrando como a banda transformava conhecimento tradicional em linguagem musical.
Essa mistura levou parte da imprensa estrangeira a buscar rótulos para explicar o som da Cabruêra. Didier lembrou que alguns veículos chegaram a associar a banda a vertentes próximas do manguebeat, comparação que ele considera limitada, já que as referências e trajetórias são distintas.
Da Paraíba à Europa: circulação internacional
A projeção da Cabruêra ultrapassou rapidamente o circuito local. Segundo Didier, após o lançamento do primeiro disco, a banda passou a receber convites para apresentações fora do Brasil, especialmente na Europa.
A passagem pela Alemanha foi apontada como decisiva. Lá, o grupo estabeleceu contato com uma gravadora independente sediada em Berlim, o que resultou em lançamentos e participações em coletâneas ao lado de nomes consagrados da música brasileira. A banda passou a figurar em reportagens e críticas publicadas em diferentes países, como Alemanha, Inglaterra, França e República Tcheca.
Didier destacou que essa circulação internacional foi construída sem que a banda abandonasse o português nem o sotaque nordestino, o que reforça o papel da sonoridade e da performance como linguagem capaz de atravessar fronteiras.
Política, apropriação e disputa de sentidos
A entrevista também abordou conflitos envolvendo o uso indevido da obra da Cabruêra em contextos políticos. Didier relatou que músicas da banda foram utilizadas em vídeos de figuras da direita sem autorização, citando o caso envolvendo a deputada Carla Zambelli, que, segundo ele, motivou processo judicial.
Para o pesquisador, o episódio revela como expressões culturais nordestinas, mesmo quando associadas a posicionamentos progressistas, podem ser apropriadas de forma instrumental, esvaziando seu sentido político original.
Memória, esquecimento e o papel da pesquisa histórica
Um dos eixos centrais da pesquisa de Didier é o que ele chama de “processo de esquecimento” em torno da Cabruêra. Apesar da relevância cultural e da projeção internacional alcançada, a banda ocupa hoje um espaço reduzido na memória coletiva.
“São histórias esquecidas, histórias que as pessoas não querem contar”
Ao reunir entrevistas, diários, discos, recortes de jornais e registros audiovisuais, o pesquisador busca reconstruir essa trajetória e recolocar a Cabruêra no debate sobre cultura brasileira contemporânea.
Um legado que aponta possibilidades
Ao final da conversa, Didier sintetizou o sentido político e cultural da banda:
“O principal legado da Cabruêra é mostrar as possibilidades do povo nordestino”
Para ele, a história da Cabruêra demonstra que o Nordeste não está preso a tradições fixas ou estereótipos, mas é um território de criação, invenção e diálogo com o mundo — capaz de produzir cultura local com alcance global, sem abrir mão de identidade, sotaque e chão.
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