Atitude Popular

O silêncio cúmplice das elites e da mídia diante do massacre no Rio de Janeiro

Da Redação

A chacina que vitimou 121 pessoas em comunidades do Rio de Janeiro expôs, mais uma vez, o pacto de sangue entre as elites brasileiras, a extrema-direita fluminense e a mídia corporativa. Enquanto o Estado executa civis sob o pretexto de combater o crime, a imprensa tradicional naturaliza o extermínio e parte da classe média o aplaude — como se a barbárie fosse uma forma legítima de governo.

1. O massacre e a anestesia coletiva

O Brasil amanheceu chocado — ou deveria ter amanhecido.
Pelo menos 121 pessoas foram mortas em uma operação policial de 72 horas nas periferias do Rio de Janeiro, a mais letal da história do estado.
A ação, conduzida sob o discurso da “guerra ao tráfico”, deixou corpos espalhados em becos, escolas sitiadas, crianças escondidas debaixo de camas e comunidades inteiras mergulhadas no terror.

Mas, diferente de outros momentos históricos, não houve indignação proporcional.
As principais redes de TV, rádios e jornais abriram o noticiário com expressões como “megaoperação de sucesso”, “ação contra o crime organizado” e “resultado da firmeza do governo” — ocultando a palavra “massacre”, que deveria estar em todas as manchetes.

O número de mortos é o mesmo de guerras localizadas.
Mas, no Brasil, virou rotina midiática.
O genocídio da população pobre e negra é tratado como parte da “normalidade urbana”, como se a morte fosse um detalhe operacional do combate ao crime.


2. O papel da mídia corporativa na desumanização

O comportamento da grande imprensa brasileira não é um acidente — é parte de uma estrutura de poder.
Os conglomerados de mídia, historicamente vinculados às elites econômicas e políticas do país, produzem narrativas que justificam a violência estatal.
Quando o alvo é o pobre, o negro, o favelado, a cobertura muda de tom: as vítimas viram suspeitos, os suspeitos viram inimigos e os inimigos, cadáveres legitimados.

É a lógica da necropolítica midiática: a morte de uns é necessária para a segurança de outros.
A mídia legitima o extermínio porque ele protege os interesses de uma classe que se vê ameaçada pela pobreza, mas não pela desigualdade que ela mesma produz.
As televisões e jornais que exaltaram a “eficiência policial” são as mesmas que criminalizam greves, protestos e movimentos sociais.

Essa cobertura enviesada não é neutra — ela molda a percepção pública, influencia decisões judiciais e legitima políticas de morte.
Ao transformar a chacina em espetáculo e a barbárie em estatística, a mídia ajuda a naturalizar o inaceitável.


3. As elites e a cultura do extermínio

O comportamento das elites brasileiras diante da tragédia é igualmente revelador.
Setores empresariais, colunistas, políticos conservadores e parte expressiva da classe média aplaudiram a operação, sob o argumento de que “bandido bom é bandido morto”.
A frase, há muito incorporada ao discurso da extrema direita, virou mantra moral da elite ressentida, que confunde justiça com vingança e ordem com repressão.

O Rio de Janeiro — laboratório histórico de experiências autoritárias — se tornou vitrine de uma política de segurança que é, na prática, uma política de extermínio social.
Desde a ditadura, o estado serve de modelo para intervenções militarizadas, testes de armamento, manipulação midiática e controle ideológico.
Hoje, sob o comando de um governo alinhado à extrema direita, essa herança se consolida com apoio das mesmas famílias que dominam o poder político e econômico há décadas.


4. O pacto entre mídia, poder e polícia

A operação que resultou na morte de 121 pessoas não poderia ter ocorrido sem a conivência dos meios de comunicação.
As câmeras das grandes emissoras estavam posicionadas desde as primeiras horas, filmando helicópteros e blindados, repetindo a narrativa oficial da polícia e omitindo a presença de vítimas civis.
Nenhum repórter da mídia tradicional entrou nas comunidades após os confrontos para ouvir mães, crianças, professores ou sobreviventes.
Os únicos relatos de horror vieram de jornalistas independentes, comunicadores populares e veículos alternativos, que mostraram corpos em vielas e famílias aterrorizadas.

Essa seletividade na cobertura é um ato político.
A mídia corporativa decide quem tem voz e quem é silenciado.
Quando o pobre é morto, o repórter entrevista o comandante.
Quando o rico é assaltado, entrevista-se o psicólogo.
É a produção sistemática da invisibilidade — um projeto de país em que uns são cidadãos e outros, alvos.


5. A falsa dicotomia da segurança

A grande imprensa insiste em enquadrar o debate na retórica binária: “ou você apoia a polícia, ou apoia o crime”.
Mas essa é uma armadilha discursiva que impede qualquer análise séria sobre segurança pública.
O que está em jogo não é o combate ao crime, mas a disputa por modelos de sociedade.

Enquanto as elites defendem um Estado policial voltado ao controle das periferias, os setores democráticos lutam por um Estado de direito voltado à justiça social.
A segurança que mata não é segurança — é medo institucionalizado.
A polícia que age sem controle judicial, sem câmeras, sem perícia e sem transparência é uma força paramilitar, não uma instituição republicana.


6. O silêncio como escolha política

A ausência de indignação entre as elites brasileiras é também um ato de cumplicidade.
Enquanto o governo do Rio de Janeiro celebra a chacina como “vitória”, empresários e comentaristas permanecem em silêncio.
Nenhuma entidade patronal, nenhuma federação industrial, nenhum editorial dos grandes jornais repudiou o massacre.
O silêncio é, portanto, uma escolha de classe.

A indiferença diante da morte coletiva é o verdadeiro sintoma do fascismo social brasileiro — uma forma de necrogovernança em que o Estado decide quem vive e quem morre, e a elite aplaude em silêncio.


7. O Brasil como laboratório da barbárie

O massacre de 121 pessoas no Rio de Janeiro não é um caso isolado — é a continuidade de um projeto.
Desde a militarização das favelas, a lógica de “combate ao inimigo interno” vem se sofisticando: operações de guerra em território urbano, uso de helicópteros armados, drones e tecnologia de vigilância em comunidades pobres.
Tudo isso sob aplausos das mesmas famílias midiáticas que, há meio século, apoiaram a ditadura militar e criminalizaram as lutas populares.

O Brasil se transformou em laboratório global da repressão democrática, onde a violência estatal é travestida de política pública e vendida como espetáculo midiático.


8. O que resta da humanidade

O massacre do Rio de Janeiro é mais do que um episódio de brutalidade — é um espelho da nossa degradação moral.
A normalização da morte coletiva é o colapso ético de uma sociedade que perdeu a capacidade de se indignar.
E quando a elite e a mídia chamam massacre de “operação”, a barbárie deixa de ser exceção e se torna política de Estado.

O futuro do Brasil dependerá da coragem de romper esse pacto de silêncio — de reconstruir o senso de humanidade que a ideologia do medo destruiu.
Enquanto a morte for manchete sem nome, a democracia será apenas uma palavra vazia.