Da Redação
Operação da Polícia Federal contra Cláudio Castro aprofunda sensação de colapso político do grupo que prometia “nova política” no Rio e entregou um estado mergulhado em escândalos, operações policiais e relações perigosas com o submundo do poder.
A Polícia Federal acordou cedo nesta sexta-feira para lembrar ao Rio de Janeiro uma velha tradição da política fluminense: quando você acha que o roteiro chegou ao auge do absurdo, aparece mais uma operação policial. Desta vez, os agentes bateram à porta de Cláudio Castro, ex-governador do Rio e uma das principais figuras do bolsonarismo estadual.
Segundo as investigações, a operação mira o caso Refit e relações envolvendo o empresário Ricardo Magro, controlador da antiga Refinaria de Manguinhos e figura histórica das guerras empresariais do setor de combustíveis. A PF cumpriu mandados de busca e apreensão na residência de Castro, em condomínio de luxo na Barra da Tijuca.
É quase poético.
O grupo político que passou anos berrando “combate à corrupção”, “Deus, pátria e família” e “nova política” conseguiu transformar o Rio de Janeiro num spin-off permanente de operação federal.
A essa altura, parece existir uma espécie de assinatura estética do bolsonarismo fluminense:
condomínio de luxo, empresário investigado, polícia federal na porta, powerpoint de corrupção e algum personagem falando em perseguição política antes do café da manhã.
Cláudio Castro não surgiu do nada. Ele é herdeiro direto do colapso político iniciado ainda nos anos Witzel, quando o Rio virou laboratório perfeito da fusão entre lavajatismo performático, bolsonarismo oportunista e velhas estruturas fisiológicas da política estadual.
A promessa era moralizar o estado.
O resultado foi o contrário.
Nos últimos anos, o Rio assistiu uma sequência quase industrial de operações envolvendo corrupção, vazamentos, esquemas financeiros suspeitos, relações nebulosas com empresários e até denúncias envolvendo crime organizado.
E agora tudo parece convergir novamente para o mesmo universo político-financeiro.
O nome de Cláudio Castro já vinha aparecendo em meio às investigações envolvendo o Rioprevidência e aplicações bilionárias em títulos ligados ao Banco Master. Em janeiro, a PF já havia realizado operações relacionadas a investimentos considerados altamente suspeitos feitos pelo fundo previdenciário estadual.
O detalhe maravilhoso é que o Banco Master virou praticamente o “Vingadores Ultimato” dos escândalos políticos recentes.
Você puxa um fio e aparece:
banqueiro investigado,
político bolsonarista,
fundos obscuros,
operações internacionais,
áudios comprometedores,
dinheiro circulando no Texas,
filme messiânico sobre Bolsonaro,
e agora até o governo do Rio orbitando o mesmo buraco negro político-financeiro.
Parece roteiro escrito por alguém que misturou House of Cards com grupo conspiratório de WhatsApp.
O caso Refit também possui enorme peso econômico. Ricardo Magro, alvo central da operação, é apontado como um dos maiores devedores de ICMS do país e figura recorrente em investigações envolvendo o setor de combustíveis.
Mas talvez o aspecto mais impressionante seja outro:
a capacidade do bolsonarismo de transformar qualquer discurso moral em meme involuntário poucos anos depois.
O mesmo campo político que dizia combater “o sistema” virou praticamente dependente dele.
O grupo que falava em patriotismo entregou o estado à degradação institucional.
Os autoproclamados anticorrupção agora aparecem cercados de operações policiais em série.
E tudo isso enquanto tentavam vender a imagem de gestores modernos e eficientes.
No Rio de Janeiro, a sensação é quase de exaustão histórica.
O estado atravessa há décadas um ciclo contínuo de colapso político. Sérgio Cabral foi preso. Pezão foi preso. Witzel sofreu impeachment em meio a acusações de corrupção. Agora Cláudio Castro vira alvo da PF.
O cargo de governador do Rio parece ter virado posição honorária no hall das futuras operações federais.
E o mais irônico é que muitos desses personagens chegaram ao poder justamente surfando no discurso moralista contra “a velha política”.
Hoje, o que resta é uma espécie de cansaço coletivo.
A imagem pública do bolsonarismo fluminense começa a se parecer cada vez mais com um condomínio em decadência: fachada patriótica na frente, investigação federal acontecendo na garagem.
Enquanto isso, o Rio continua afundado em problemas estruturais reais:
violência,
milícias,
crise fiscal,
colapso urbano,
desigualdade brutal,
serviços públicos deteriorados
e um sistema político que parece incapaz de sair do looping permanente entre escândalo e operação policial.
A operação desta sexta talvez não seja apenas mais uma investigação.
Ela funciona também como retrato simbólico de um projeto político que prometeu regeneração moral e acabou produzindo apenas mais um capítulo do velho submundo de relações perigosas entre poder, dinheiro e influência no Rio de Janeiro.

