Da Redação
A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (9) a 10ª fase da Operação Compliance Zero e teve como principal alvo o publicitário Thiago Miranda, investigado por suspeita de participação em uma operação de comunicação destinada a defender o Banco Master, atacar a credibilidade do Banco Central e intimidar jornalistas e outros críticos dos interesses do banqueiro Daniel Vorcaro.
O nome de Miranda também aparece em outro capítulo do caso: ele foi o intermediário das negociações que levaram Vorcaro a investir R$ 62 milhões em Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O publicitário já havia confirmado que apresentou o projeto ao banqueiro depois de recebê-lo do deputado federal Mario Frias e também admitiu ter conversado com o senador Flávio Bolsonaro sobre a produção.
A operação desta quinta-feira acrescenta novos elementos à investigação sobre a atuação de Miranda. Segundo as apurações, ele teria exercido papel de ligação entre Vorcaro e influenciadores mobilizados para produzir conteúdos favoráveis ao Banco Master e atacar a atuação do Banco Central.
A PF também investiga suspeitas de monitoramento e levantamento de informações pessoais, profissionais e patrimoniais sobre jornalistas e outros personagens considerados adversários dos interesses do grupo.
Por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao publicitário. A Justiça autorizou a coleta de celulares, computadores, documentos, registros contábeis, dinheiro em espécie e outros materiais que possam contribuir para a investigação.
Do Master a Dark Horse
Thiago Miranda já era conhecido nas investigações por aparecer repetidamente em conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro. Dono da agência MiThi e ligado ao Portal LeoDias, o publicitário atuava na área de comunicação e gerenciamento de crises.
Sua ligação com Dark Horse tornou-se pública quando surgiram informações sobre o financiamento do filme dedicado à trajetória de Jair Bolsonaro.
Miranda afirmou que recebeu o projeto de Mario Frias, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, e buscou empresários interessados em financiar a produção. Vorcaro aceitou participar e, segundo o próprio publicitário, tornou-se o único investidor do projeto até a interrupção dos repasses durante a crise do Banco Master.
O aporte informado chegou a R$ 62 milhões.
Miranda também confirmou que conversou com Flávio Bolsonaro sobre o andamento da produção. O senador é pré-candidato à Presidência da República e tenta assumir o comando político do grupo bolsonarista na disputa eleitoral de 2026.
A investigação da PF agora aproxima duas frentes que já apareciam nas apurações sobre Vorcaro: a tentativa de construção de uma campanha pública em defesa do Banco Master e a circulação do banqueiro em ambientes políticos ligados ao bolsonarismo.
Influenciadores contra o Banco Central
A 10ª fase da Compliance Zero investiga uma suposta ação coordenada nas redes sociais para desacreditar o Banco Central após o agravamento da crise do Master.
De acordo com as investigações, Thiago Miranda teria participado da seleção de influenciadores e jornalistas contratados para publicar conteúdos favoráveis ao banco e críticas à autoridade monetária. As apurações indicam que pagamentos e acordos de confidencialidade teriam sido utilizados nessas contratações.
A suspeita da PF é de que Miranda funcionava como intermediário entre Vorcaro e os produtores de conteúdo mobilizados para a campanha.
As mensagens encontradas pelos investigadores também levantaram suspeitas sobre ações contra pessoas que recusavam propostas ou contrariavam os interesses do grupo. A investigação apura se informações obtidas de forma ilícita foram utilizadas para intimidar e constranger jornalistas.
Entre os episódios analisados está a produção de levantamentos sobre a vida pessoal, profissional e patrimonial de uma jornalista. O objetivo investigado seria localizar informações capazes de constrangê-la ou descredibilizá-la publicamente.
A PF também apura a produção de um dossiê sobre Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú Unibanco. As mensagens trocadas entre Vorcaro e Miranda contribuíram para a mudança da posição do publicitário no inquérito. Antes tratado como testemunha, ele passou à condição de investigado.
Projeto DV entra na mira
A decisão judicial que autorizou as buscas menciona ainda o chamado “Projeto DV”, apontado nas investigações como uma estrutura de comunicação associada aos interesses de Daniel Vorcaro.
A apuração busca determinar se recursos ligados ao grupo foram utilizados para contratar influenciadores, jornalistas e outros agentes capazes de interferir no debate público sobre o Banco Master, o Banco Central e as investigações em curso.
A PF procura esclarecer até onde chegou essa rede, quem recebeu recursos, quais conteúdos foram produzidos mediante pagamento e se houve uso de informações obtidas ilegalmente contra jornalistas, autoridades e executivos do setor financeiro.
A conexão com Dark Horse acrescenta um componente político relevante à investigação. O publicitário agora alvo da PF foi também o homem que apresentou a Daniel Vorcaro o projeto de um filme sobre Jair Bolsonaro e participou das tratativas que resultaram em um investimento de R$ 62 milhões.
A defesa de Thiago Miranda nega a prática de crimes. Os advogados afirmam que o publicitário sempre atuou profissionalmente de forma legal e transparente e defendem que a existência da investigação não autoriza conclusões antecipadas sobre sua responsabilidade.