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PF prende ex-prefeito de Lajeado por suspeita de desvio de verbas

Da Redação

Operação da Polícia Federal investiga possível desvio de recursos destinados às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul e mira contratos suspeitos firmados durante a calamidade de 2024.

A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira o ex-prefeito de Lajeado, no Rio Grande do Sul, em mais um desdobramento das investigações sobre o uso de recursos públicos destinados à reconstrução de áreas atingidas pelas enchentes de 2024. A ação faz parte da segunda fase da Operação Lamaçal, que apura suspeitas de desvio de verbas federais repassadas ao município em meio à crise climática que devastou a região.

O ex-prefeito Marcelo Caumo, que governou a cidade entre 2017 e 2024, foi alvo de prisão temporária, autorizada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região. A medida tem prazo inicial de cinco dias, podendo ser prorrogada conforme o avanço das investigações.

Segundo a Polícia Federal, os recursos sob investigação são oriundos do Fundo Nacional de Assistência Social e foram destinados ao atendimento emergencial da população atingida pelas enchentes no Vale do Taquari. A suspeita é de que parte desses valores tenha sido desviada ou utilizada de forma irregular durante a execução de contratos públicos.

As apurações indicam indícios de direcionamento de licitações envolvendo empresas de um mesmo grupo econômico, contratadas para prestar serviços de assistência social. De acordo com os investigadores, há sinais de que os contratos não seguiram critérios de vantajosidade para a administração pública e que os valores pagos estavam acima dos praticados no mercado.

A operação também mira a utilização de contratações emergenciais realizadas durante o estado de calamidade pública. Nesse contexto, empresas teriam sido contratadas por dispensa de licitação sob justificativa de urgência, o que, segundo a investigação, pode ter sido utilizado para favorecer determinados grupos e inflar custos.

Além da prisão, a Polícia Federal cumpriu cerca de 20 mandados de busca e apreensão em diferentes cidades do Rio Grande do Sul, incluindo Lajeado, Muçum, Encantado, Novo Hamburgo e Porto Alegre. Também foram apreendidos documentos, equipamentos eletrônicos e veículos, além de bloqueios de bens e ativos financeiros.

A investigação aponta que os envolvidos poderão responder por uma série de crimes, incluindo desvio de verbas públicas, fraude em licitações, corrupção ativa e passiva, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

A primeira fase da Operação Lamaçal foi deflagrada em novembro de 2025 e já havia reunido elementos que reforçaram as suspeitas de irregularidades. A análise do material apreendido naquela etapa foi fundamental para o avanço das investigações e para a deflagração da nova fase, que resultou nas prisões desta semana.

A defesa do ex-prefeito afirma que ainda não teve acesso à decisão judicial que fundamentou a prisão e questiona a necessidade da medida cautelar, alegando que o investigado já tinha depoimento marcado e vinha colaborando com as apurações.

O caso expõe uma dimensão sensível da gestão pública em contextos de desastre. Recursos emergenciais, liberados com rapidez para atender populações vulneráveis, frequentemente operam sob regras excepcionais, o que amplia riscos de irregularidades quando não há controle rigoroso.

No plano mais amplo, a operação revela como tragédias climáticas passaram a ocupar não apenas o centro da agenda humanitária, mas também da agenda política e institucional. O cruzamento entre calamidade pública, grandes volumes de recursos e estruturas locais de poder cria um ambiente propício para disputas, fraudes e captura de políticas públicas.

A prisão do ex-prefeito de Lajeado, portanto, não é apenas um episódio isolado. Ela evidencia um padrão mais amplo de vulnerabilidade institucional em momentos de crise, em que a urgência da resposta estatal pode abrir brechas para práticas ilícitas — e onde o controle posterior se torna decisivo para a responsabilização.