Professor Nelson Campos analisa disputa entre Congresso e Supremo, patriarcado e poder econômico e afirma que o Centrão se move por interesses, não por ideologia
A disputa de força entre os poderes no Brasil não é apenas um embate entre Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e governo federal. Para o professor Nelson Campos, mestre em Educação pela UFC, trata-se de mais um capítulo de uma longa história de dominação, fundada na desigualdade, no patriarcado e na apropriação do Estado por elites econômicas e políticas.
As declarações foram feitas no programa Café com Democracia, da Rede de Comitês Populares pela Democracia, transmitido pela TV Atitude Popular em 8 de dezembro, sob a apresentação do sociólogo Luiz Regadas. Na edição, Campos partiu de um olhar histórico e filosófico sobre o conceito de poder para decifrar a tensão entre os poderes da República e a escalada de violência política e de gênero no país.
Logo no início, o professor recupera a definição clássica de Max Weber:
“Poder é a capacidade do indivíduo de afetar a vida do outro, mesmo contra resistências.”
A partir dessa chave, ele reconstrói a trajetória histórica da dominação: da propriedade da terra no feudalismo ao uso do nome de Deus para legitimar monarquias absolutistas, passando pelo surgimento do Estado moderno e pela crítica iluminista ao poder teológico e aristocrático.
“Quem tem o poder é quem tem a terra”, relembra Campos, explicando como, ao longo dos séculos, proprietários concentraram não apenas recursos materiais, mas também capacidade de mandar, oprimir, explorar e escravizar. Para sustentar esse domínio, diz ele, criaram-se justificativas ideológicas que dividiam os seres humanos em “nascidos para mandar”, “nascidos para defender a ordem” e “nascidos para trabalhar e obedecer”.
Ao comentar o absolutismo, Campos recorda a teoria do direito divino dos reis:
“O poder do rei vem de Deus e apenas a Deus o rei deve prestar conta de seus atos.”
Na sequência, ele evoca o pensamento contratualista e iluminista — Thomas Hobbes, John Locke, Montesquieu, Rousseau, Voltaire e Diderot — para mostrar que a discussão sobre freios e contrapesos, soberania popular e laicidade do Estado é, na verdade, uma disputa sobre quem controla o poder e para quê.
Campos destaca especialmente a formulação de Montesquieu:
“Quem tem o poder tende a abusar do poder. Só há uma forma de evitar o abuso do poder, é o poder controlar o poder.”
E lembra a provocação radical de Denis Diderot, um dos organizadores da Enciclopédia, que dizia que “o povo só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre” — não como defesa literal de violência física, mas como denúncia da aliança entre trono e altar na manutenção dos privilégios.
Patriarcado e feminicídio: o poder que mata dentro de casa
A conversa sobre disputa de poderes rapidamente desemboca em outra forma de dominação: o patriarcado e a violência contra as mulheres. Ao comentar o aumento de casos de agressões e assassinatos de mulheres, o professor aponta como a lógica de propriedade atravessa a organização social desde tempos bíblicos.
Ele lembra o próprio texto dos Dez Mandamentos:
“Não cobiçarás a mulher do próximo, nem seu servo, nem sua serva, nem seu escravo, sua escrava, nem seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao próximo.”
“Eram propriedades do homem”, resume Campos. “Era uma sociedade dominada pelo poder do homem sobre a mulher.”
No Brasil, lembra o professor, as mulheres só conquistaram o direito ao voto na Constituição de 1934, depois de séculos de exclusão. “Ainda hoje brigam por direitos”, enfatiza, ligando a herança patriarcal à normalização de agressões, ao feminicídio e à tentativa de controlar corpos e destinos femininos.
Na esfera íntima, ele afirma que a relação afetiva não pode reproduzir a lógica proprietária:
“Eu costumo dizer para a minha mulher: você é um ser livre. Estamos juntos porque gostamos de estar juntos. Mas não sou proprietário de ninguém, nem sou propriedade de ninguém.”
Congresso, Supremo e a disputa pelo controle do Estado
Ao entrar diretamente na pauta da “disputa de força entre os poderes”, Campos aponta que a tensão entre Congresso e Supremo Tribunal Federal não pode ser lida sem considerar o sistema político e o papel do Centrão na engrenagem do Estado.
Ele relembra o orçamento secreto do governo anterior, entregue ao então presidente da Câmara, Arthur Lira, transformando bilhões de reais em moeda de troca:
“Nunca se roubou tanto na vida como esse orçamento secreto. Foram bilhões de reais desviados dos cofres públicos para favorecer deputados e senadores pilantras.”
A crítica se estende à tentativa de esvaziar a atuação da Polícia Federal em investigações sensíveis. Ao comentar projeto relatado por Guilherme Derrite, Campos explica que a proposta condicionava a atuação da PF à autorização dos governadores, o que, na prática, blindaria esquemas de corrupção e relações promíscuas com o crime organizado em vários estados.
“Ora, você pega um monte de governadores bandidos… A Polícia Federal, se tivesse passado esse projeto, não poderia investigar”, alerta, citando operações recentes que revelaram bilhões em fraudes e esquemas financeiros.
Na leitura do professor, o que está em curso é uma disputa por quem consegue capturar o Estado para interesses privados. Ele lembra que o poder econômico alimenta o poder político e vice-versa, criando uma rede de interdependência entre empresários, banqueiros, parlamentares e figuras do Executivo.
A pressão sobre o Supremo e o ódio à responsabilização
Outro ponto central da análise é a ofensiva de setores do Senado contra ministros do STF, em especial Alexandre de Moraes e Flávio Dino, por meio de ameaças de processos de impeachment. Para Campos, a insistência em tentar intimidar a Corte tem relação direta com as investigações sobre os atos golpistas e redes de extrema direita.
“O papel do Supremo Tribunal Federal é zelar pela aplicação da Constituição no país”, afirma. “Os senadores ficam chantageando, ameaçando o Supremo constantemente.”
Em sua avaliação, a reação contra as prisões de golpistas e a narrativa de “inocência” desses grupos revelam um problema cognitivo e político da extrema direita. E ele não poupa os seguidores mais fanatizados do bolsonarismo:
“É pura perda de tempo que você querer dialogar com um bolsonarista. Ele não está ouvindo você, não quer ouvir você, não quer pensar no que você está dizendo.”
A família Bolsonaro e a extrema direita organizada
Ao comentar a autolançada candidatura de Flávio Bolsonaro como herdeiro político do pai, Campos afirma que a família utiliza o nome Bolsonaro como marca de controle da extrema direita brasileira. Ele lembra as suspeitas de rachadinha e o patrimônio incompatível com a renda, chamando o esquema pelo nome jurídico:
“Botaram lá o Flávio, que é conhecido como Flávio Rachadinha. O que é rachadinha? É peculato, é crime, é roubo.”
Para o professor, a autoproclamada “família” funciona, na verdade, como uma organização política a serviço de um projeto autoritário:
“Aquilo não é uma família, aquilo é uma quadrilha”, dispara, ao analisar a tentativa de manter o clã como referência central da direita, mesmo com Jair Bolsonaro inelegível.
Ele lembra que as manifestações pró-golpe, com bandeiras verde e amarelas, foram estimuladas pelo próprio ex-presidente, que flertou abertamente com a volta do AI-5, defendeu tortura, atacou quilombolas e incitou violência contra adversários políticos.
Centrão: interesses acima de qualquer ideologia
Na parte final do programa, Campos comenta pesquisa Datafolha segundo a qual a direita está dividida, enquanto a esquerda aparece mais coesa, e é questionado sobre o papel do Centrão nesse cenário. Ele é categórico:
“O Centrão, na verdade, não tem muita ideologia. O Centrão tem interesses.”
Na sua análise, esse bloco se movimenta em torno de cargos, emendas e proteção judicial. “Onde tiver dinheiro, é lá que eles querem estar”, sintetiza. Por isso, ministros de partidos do Centrão estão no governo Lula, ao mesmo tempo em que parte dessa base pressiona por mudanças legislativas que possam blindar investigados por corrupção e desvio de recursos públicos.
Campos cita casos envolvendo caciques partidários e defende que tentativas de restringir a atuação da Polícia Federal ou de criar dispositivos de autoproteção para políticos e dirigentes são expressão de um “crime organizado” que se infiltrou na política institucional.
Trabalho exaustivo, banqueiros e o custo social do poder econômico
A conversa termina com uma reflexão sobre jornada de trabalho, qualidade de vida e concentração de renda, puxada por uma notícia sobre o México, que ampliou o reajuste do salário mínimo e reduziu a escala 6 por 1.
Campos critica a lógica de exploração da força de trabalho e lembra da própria trajetória:
“Eu cheguei a trabalhar 74 horas por semana. É coisa de maluco”, relata, descrevendo a rotina de quem vive para trabalhar, chega em casa exausto e pouco convive com a família.
Na outra ponta, ele denuncia o poder dos bancos e do sistema financeiro na definição das prioridades econômicas do país:
“Esses banqueiros esbanjando… O que o Brasil paga de juros a esses banqueiros é uma enormidade, é injustificável.”
Ao comentar propostas como a de Armínio Fraga, de congelar o salário mínimo por anos, Campos aponta que o foco nunca é melhorar a vida da maioria trabalhadora, mas preservar privilégios de um grupo diminuto: “Um por cento da população é constituída por milionários. A grande maioria é constituída por trabalhadores.”
Para o professor, a disputa entre poderes, a violência de gênero, a captura do orçamento público e a precarização da vida do povo fazem parte de um mesmo tabuleiro: o da luta pelo controle do poder — seja ele político, econômico ou simbólico. Enquanto esse poder seguir concentrado nas mãos de poucos, conclui, a promessa iluminista de soberania popular continuará sendo mais um ideal a perseguir do que uma realidade concreta.
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