Prisão de Fernando Cerimedo expõe rede transnacional da extrema direita que liga Bolsonaro, Milei e o poder político na Bolívia

Da Redação

Consultor argentino, peça importante das campanhas digitais de Jair Bolsonaro e Javier Milei, foi preso na Bolívia acusado de tentativa de feminicídio contra a ex-companheira Nadia Beller; perícia em seu celular, denúncias de corrupção e seu histórico de ataques às urnas brasileiras revelam uma rede de influência política, desinformação, negócios e operações digitais que atravessa fronteiras

A prisão do consultor argentino Fernando Cerimedo na Bolívia abriu uma crise que ultrapassa em muito um caso criminal individual. Detido em Santa Cruz de la Sierra e colocado em prisão preventiva por 180 dias na penitenciária de Palmasola, Cerimedo é investigado como possível mandante da tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, a advogada e comentarista política Nadia Beller, baleada três vezes em frente a um hotel. Mas a gravidade do episódio cresce quando se observa quem é o homem colocado no centro dessa investigação: estrategista de comunicação digital de Javier Milei, colaborador de campanhas ligadas à família Bolsonaro, assessor informal do presidente boliviano Rodrigo Paz e personagem identificado pela Polícia Federal brasileira dentro da engrenagem de desinformação que atacou a legitimidade das eleições de 2022. O caso agora conecta, num único fio investigativo, violência privada, campanhas políticas, estruturas digitais, circulação internacional de dinheiro e uma rede continental de extrema direita que durante anos operou muito além das fronteiras nacionais.

A sequência que levou Cerimedo à prisão começou na noite de 17 de agosto, em Santa Cruz. Nadia Beller chegou a um hotel após ter sido atraída, segundo seu próprio relato, pela promessa de receber informações relacionadas ao ex-presidente Evo Morales. Dois homens vestidos como entregadores se aproximaram e dispararam contra ela. Beller foi atingida no pescoço, no tórax e em um braço, passou por cirurgia e sobreviveu. Câmeras de segurança registraram a ação, e os agressores fugiram em motocicletas. A polícia boliviana iniciou imediatamente uma investigação por tentativa de feminicídio. Cerimedo foi detido horas depois no aeroporto internacional de Viru Viru, quando se preparava para viajar a Buenos Aires. A defesa sustenta que ele pretendia retornar à Argentina e nega que tenha ordenado o atentado; Cerimedo tem direito à presunção de inocência e as acusações ainda terão de ser demonstradas judicialmente.

O que mudou radicalmente a dimensão do caso foi o conteúdo obtido durante a investigação de dispositivos eletrônicos apreendidos. Um relatório pericial citado pela imprensa boliviana e argentina descreve mensagens recuperadas do celular de Cerimedo nas quais aparece uma referência explícita à possibilidade de “eliminar” Nadia. O material também contém uma conversa em que um contato informa ao consultor, praticamente no momento do ataque, que ela havia acabado de ser baleada. Essas mensagens se transformaram em uma das principais bases utilizadas pela Promotoria boliviana para pedir sua prisão preventiva. É importante registrar a cautela necessária: algumas peças ainda estão sendo submetidas a perícias e a defesa contesta a interpretação e a validade de elementos apresentados pela acusação. Ainda assim, na audiência de 21 de agosto, o juiz considerou existir probabilidade suficiente de autoria e riscos processuais para determinar 180 dias de prisão preventiva. Inicialmente, havia sido indicada a penitenciária de Chonchocoro; posteriormente, a decisão foi retificada para Palmasola.

As buscas produziram ainda outro elemento que ampliou o escândalo. Autoridades bolivianas encontraram mais de US$ 40 mil em espécie em imóveis relacionados a Cerimedo e passaram a investigar também possível enriquecimento ilícito. Reportagens locais e internacionais mencionaram a existência de equipamentos relacionados a operações digitais e uma estrutura descrita como pequena “fazenda de bots”. Esses achados não comprovam automaticamente a existência de uma rede criminosa de financiamento político, mas reforçaram a decisão das autoridades bolivianas de ampliar a apuração para além do atentado contra Beller.

Foi justamente depois de sobreviver aos disparos que Nadia Beller começou a fazer acusações capazes de produzir terremotos políticos simultaneamente em La Paz e Buenos Aires. Do hospital, ela afirmou que teria se tornado alvo porque conhecia informações sensíveis sobre negócios conduzidos por Cerimedo e por pessoas próximas ao governo boliviano. Segundo Beller, o argentino possuiria influência muito maior do que sua condição formal de consultor sugeria e teria participado de decisões dentro da administração Rodrigo Paz. Ela acusou também pessoas próximas ao presidente e à primeira-dama María Elena Urquidi de envolvimento em negócios envolvendo combustíveis, seguros e ouro. Todas essas afirmações são denúncias de Beller e permanecem dependentes de comprovação judicial. O governo boliviano nega que Cerimedo governasse ou possuísse autoridade institucional equivalente à descrita pela ex-companheira.

Mas uma informação surgida na própria investigação adicionou peso à discussão sobre sua influência. A agência boliviana ANF publicou trecho de depoimento atribuído a Cerimedo no qual ele afirma ter participado de modificações no Decreto Supremo 5515, norma que reorganizou aspectos do Poder Executivo boliviano e definiu funções relacionadas à Vice-Presidência. Segundo o relato, Nadia teria feito observações ao texto e ajudado Cerimedo a realizar mudanças. Se confirmado integralmente no processo, esse dado demonstra que um consultor estrangeiro sem cargo formal teria participado de discussões sobre um decreto relacionado à própria organização institucional do governo. Não prova as acusações mais amplas feitas por Beller, mas ajuda a explicar por que a presença de Cerimedo em La Paz passou a despertar questionamentos internos sobre influência externa e poder informal.

A repercussão se tornou ainda mais explosiva na Argentina porque Beller vinculou Cerimedo ao chamado caso Andis, uma das principais crises de corrupção enfrentadas pelo governo Javier Milei. O escândalo começou depois do vazamento de gravações atribuídas a Diego Spagnuolo, então dirigente da Agência Nacional de Deficiência e antigo advogado de Milei, nas quais eram descritas supostas cobranças de propina envolvendo contratos de medicamentos e fornecedores do Estado. O nome de Karina Milei, irmã do presidente e uma das pessoas mais poderosas da Casa Rosada, apareceu nas denúncias. Beller afirmou que Cerimedo conhecia a origem dos áudios e sustentou que sua ex-esposa, Natalia Basil, teria participado da divulgação do material. Mais uma vez, trata-se de acusações que ainda precisam ser confirmadas. A simples existência dessas alegações, porém, reabriu um caso que já provocava forte desgaste político no governo argentino.

A trajetória de Cerimedo ajuda a compreender por que sua prisão produz tamanho impacto. Ele não é apenas um consultor que trabalhou circunstancialmente para um candidato. Ao longo dos últimos anos, construiu uma posição singular dentro da nova direita latino-americana: operador digital, estrategista eleitoral, articulador de redes, empresário de comunicação e dirigente de estruturas destinadas a disputar a circulação de informação nas redes sociais. Foi associado à criação e expansão do La Derecha Diario, veículo militante que desempenhou papel importante na ascensão de Milei, e consolidou uma reputação de especialista em viralização, campanhas digitais e mobilização de militantes. A imprensa espanhola e latino-americana passou a descrevê-lo como uma espécie de operador transnacional da direita radical, comparado por alguns analistas a Steve Bannon pela capacidade de circular entre diferentes países oferecendo estruturas digitais, estratégia política e narrativa ideológica.

Sua relação com o Brasil é muito mais antiga e profunda do que a atual campanha de Flávio Bolsonaro. Cerimedo tornou-se conhecido nacionalmente depois da eleição de 2022, quando realizou uma transmissão intitulada “O Brasil Foi Roubado” e apresentou um conjunto de alegações falsas sobre as urnas eletrônicas brasileiras. A transmissão foi assistida por centenas de milhares de pessoas e circulou intensamente entre grupos bolsonaristas que se recusavam a aceitar a vitória de Lula. Entre outras afirmações, o argentino sustentou que determinados modelos de urnas apresentavam resultados suspeitos favoráveis ao candidato do PT. As alegações foram posteriormente desmontadas por especialistas, jornalistas, verificadores e pela própria Justiça Eleitoral.

O episódio, contudo, deixou de ser apenas um exemplo de desinformação quando investigações posteriores passaram a reconstruir a origem e a circulação daquele material. Em dezembro de 2022, a Folha identificou arquivos divulgados por Cerimedo que continham conexões com pessoas relacionadas ao PL e ao governo Bolsonaro. Entre os documentos aparecia material atribuído ao militar da reserva Ângelo Denicoli, que mais tarde seria apontado pela Procuradoria-Geral da República como participante de um núcleo dedicado a disseminar desinformação sobre o sistema eleitoral. A própria denúncia da PGR apresentada anos depois registrou que Denicoli havia enviado a Cerimedo uma apresentação posteriormente difundida na live de 4 de novembro de 2022. Dados extraídos do telefone de Mauro Cid mostraram que integrantes da organização investigada discutiam e produziam materiais a partir da transmissão do argentino, incorporando a narrativa de fraude eleitoral a uma estratégia mais ampla de contestação do resultado das urnas.

Essa documentação é particularmente importante porque permite distinguir opinião política de operação coordenada. Cerimedo sempre procurou se apresentar como alguém interessado em “auditar” ou questionar dados eleitorais. Mas a investigação brasileira encontrou sua transmissão inserida em uma cadeia muito mais ampla de produção e circulação de argumentos destinados a desacreditar a eleição. A Polícia Federal acabou incluindo o argentino entre os indiciados no inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado, apontando que teria atuado na elaboração e difusão de estratégias destinadas a atacar o sistema eleitoral e sustentar falsas denúncias de fraude. Ele foi o único estrangeiro listado entre os 37 indiciados pela PF naquele estágio da investigação.

Cerimedo, entretanto, não foi incluído na denúncia inicial da Procuradoria-Geral da República contra Jair Bolsonaro e outros acusados da trama golpista. Isso significa que o indiciamento policial não se converteu, naquele momento, em acusação criminal formal contra ele perante o Supremo. A PGR mencionou sua atuação dentro da narrativa acusatória e descreveu a circulação do material produzido por ele, mas decidiu não denunciá-lo naquele processo. Essa distinção é essencial: a Polícia Federal apontou suspeitas e indiciamento; a Procuradoria não o levou a julgamento na primeira denúncia.

O que torna o caso ainda mais sensível para 2026 é que essa relação não ficou congelada em 2022. Em julho deste ano, Eduardo Bolsonaro realizou uma nova transmissão ao vivo com Cerimedo para voltar a questionar a confiabilidade e a auditabilidade das urnas eletrônicas brasileiras. A live ocorreu apenas dois dias depois de Flávio Bolsonaro, agora candidato à Presidência, ter apresentado a diplomatas estrangeiros alegações falsas sobre o sistema eleitoral. O intervalo e a coincidência temática chamaram atenção porque reproduziram, em outra escala, uma estratégia familiar ao bolsonarismo: criar antecipadamente suspeitas sobre o processo eleitoral antes que os votos sejam contados.

É justamente por isso que a prisão de Cerimedo possui relevância direta para o Brasil. O argentino não é simplesmente um personagem estrangeiro que apareceu em fotografias antigas com integrantes da família Bolsonaro. Ele voltou a participar de uma ação pública relacionada à integridade das eleições brasileiras poucas semanas antes de ser preso. O Intercept destacou esse ponto ao lembrar que Eduardo Bolsonaro dividiu a transmissão com Cerimedo em julho e que a atuação do consultor continuava conectada à construção de narrativas sobre fraude eleitoral. A reportagem descreve Cerimedo como um especialista em milícias digitais, estruturas de viralização e fazendas de cliques. Algumas dessas caracterizações são analíticas e refletem a avaliação do veículo; outras possuem base em investigações e reportagens sobre seu trabalho com redes digitais. O ponto factual incontornável é que sua presença na campanha informacional da extrema direita brasileira reapareceu em 2026.

Há, portanto, uma continuidade impressionante. Em novembro de 2022, Cerimedo ajuda a espalhar uma tese falsa sobre urnas depois da derrota de Jair Bolsonaro. Em 2024, é indiciado pela Polícia Federal na investigação sobre a trama golpista. Em 2025, fica fora da primeira denúncia da PGR, embora sua live continue citada nos autos como parte da cadeia de desinformação. Em julho de 2026, reaparece ao lado de Eduardo Bolsonaro questionando novamente o sistema eleitoral. Em agosto, é preso na Bolívia sob suspeita de ordenar um ataque contra sua ex-companheira. A linha do tempo transforma o caso numa investigação de interesse continental.

É também necessário entender Cerimedo dentro da arquitetura política de Milei. O argentino desempenhou papel importante na campanha presidencial de 2023 e esteve ligado à estratégia digital que ajudou o libertário a romper o sistema partidário tradicional argentino. Atuou na organização de fiscais eleitorais e foi associado à construção de redes de militância e comunicação capazes de impulsionar conteúdos favoráveis ao candidato. O La Derecha Diario funcionou como uma peça relevante desse ecossistema. Posteriormente, Cerimedo se afastou do núcleo formal do governo Milei, mas permaneceu conectado à rede política e midiática da direita regional.

É justamente essa circulação entre países que transforma sua trajetória num objeto de interesse muito maior que sua biografia pessoal. A nova extrema direita latino-americana não funciona apenas como uma soma de partidos nacionais independentes. Existe uma infraestrutura transfronteiriça de consultores, influenciadores, plataformas, veículos digitais, empresários e estrategistas que compartilham métodos, narrativas e tecnologias. Temas diferentes são adaptados para cada país, mas a estrutura é semelhante: guerra cultural, deslegitimação das instituições, construção de inimigos internos, ataques à imprensa tradicional, valorização de lideranças personalistas e uso intensivo de redes sociais para mobilização emocional.

Isso não significa que todas as campanhas da direita latino-americana façam parte de uma organização secreta ou de uma cadeia de comando única. Seria irresponsável afirmar isso sem provas. O que existe, de maneira documentada, é uma circulação permanente de profissionais e técnicas. Cerimedo trabalhou ou esteve associado a lideranças da Argentina, Brasil, Bolívia e outros países. Sua trajetória ilustra como operadores digitais podem atravessar fronteiras com muito mais facilidade que partidos e instituições formais.

A denúncia feita por Nadia Beller adiciona a essa discussão uma camada ainda mais grave. Ela afirma que Cerimedo não atuava apenas em comunicação, mas também movimentava grandes somas, estabelecia relações com empresas e possuía redes destinadas a remunerar jornalistas, influenciadores e operadores digitais. O jornal chileno El Mostrador publicou as declarações de Beller segundo as quais o consultor trabalhava com fazendas de bots e pagamentos destinados a distorcer informação e influenciar a opinião pública. Essas acusações ainda precisam ser verificadas, mas encontram ressonância no histórico público de Cerimedo como estrategista de operações digitais.

A pergunta central para o Brasil é até onde chegaram essas relações. Quem financiou os serviços realizados por Cerimedo em 2022? Quem financiou ou articulou sua participação nas discussões eleitorais brasileiras de 2026? Houve contratos formais? Pagamentos privados? Recursos provenientes de estruturas estrangeiras? A participação foi voluntária ou profissional? Existem outros operadores internacionais conectados a campanhas brasileiras? Essas perguntas não possuem respostas públicas definitivas e não podem ser preenchidas com especulação. Mas são legítimas justamente porque a influência estrangeira sobre processos eleitorais se tornou uma das grandes preocupações das democracias contemporâneas.

Há ainda um paradoxo político evidente. Enquanto setores da extrema direita brasileira denunciam constantemente o risco de interferência estrangeira quando governos, organizações ou empresas internacionais criticam o bolsonarismo, um operador argentino participou diretamente de campanhas de questionamento das urnas brasileiras e voltou a fazê-lo em plena eleição de 2026. O problema não está na nacionalidade de Cerimedo nem no simples fato de um consultor estrangeiro trabalhar para uma campanha — algo comum na política internacional. A questão surge quando a atuação envolve desinformação sobre as instituições eleitorais de outro país e quando esses conteúdos se integram a estratégias destinadas a minar antecipadamente a confiança no resultado.

O episódio também revela como a disputa política contemporânea se deslocou da propaganda tradicional para aquilo que poderíamos chamar de infraestrutura de percepção. Não basta convencer o eleitor de que determinada candidatura é melhor. É possível tentar definir previamente quais fatos serão considerados verdadeiros, quais instituições são confiáveis, quais derrotas serão legítimas e quais resultados serão aceitos. As operações digitais atuam nessa camada anterior ao voto. Quando uma eleição chega, parte do ambiente cognitivo já foi organizada.

Cerimedo demonstrou compreender muito bem esse terreno. Sua influência nunca dependeu de ocupar um ministério, liderar um partido ou aparecer diariamente na televisão. O poder de um operador digital está justamente em criar redes, distribuir narrativas, alimentar influenciadores e transformar conteúdos periféricos em assuntos centrais. A transmissão de 2022 é um exemplo. Um suposto relatório de origem obscura, apresentado por um consultor argentino num canal digital, atravessou grupos de WhatsApp e redes bolsonaristas e acabou integrado à disputa política brasileira.

A investigação da PGR mostrou posteriormente que aquela live não permaneceu isolada. Materiais relacionados a ela foram discutidos por pessoas envolvidas na tentativa de desacreditar as eleições e utilizados na construção de argumentos destinados a contestar a vitória de Lula. Isso não prova que Cerimedo conhecesse todo o plano posterior nem que participasse de todas as etapas da trama. Explica, porém, por que a Polícia Federal considerou sua atuação relevante o suficiente para indiciá-lo.

A prisão na Bolívia recoloca agora todas essas conexões sob uma nova luz. Não porque uma acusação de tentativa de feminicídio prove automaticamente qualquer crime político anterior, mas porque um personagem que operava em áreas extremamente sensíveis passou a ter seus dispositivos, relações financeiras e comunicações examinados por autoridades de outro país. Se a investigação boliviana encontrar registros relacionados a campanhas estrangeiras, contratos políticos ou redes digitais internacionais, poderá produzir consequências muito além de Santa Cruz.

O caso também pode ter efeitos sobre a eleição brasileira de 2026. Flávio Bolsonaro tenta construir sua candidatura presidencial como uma continuidade do campo político criado pelo pai, mas com uma imagem parcialmente renovada e mais institucional. A reaparição de Cerimedo ao lado de Eduardo justamente na discussão sobre urnas liga novamente a campanha ao repertório que antecedeu a ruptura institucional de 2022 e 2023. Mesmo sem existir, até o momento, prova pública de contrato entre Cerimedo e a campanha presidencial de Flávio, a proximidade política e temática exige explicações.

Há uma diferença essencial entre afirmar que Cerimedo “comanda” a campanha de Flávio — algo que as evidências disponíveis não permitem — e reconhecer que ele continua inserido no ecossistema político e digital ligado à família Bolsonaro. O primeiro seria uma afirmação não comprovada. O segundo é demonstrado por sua trajetória, pelas transmissões públicas e por sua atuação anterior.

O mesmo cuidado precisa ser aplicado às acusações contra Milei e Rodrigo Paz. Nadia Beller fez denúncias graves de corrupção e influência política, mas elas não podem ser convertidas automaticamente em fatos estabelecidos. Karina Milei e outras figuras mencionadas possuem direito de defesa, e o governo boliviano rejeita a narrativa de que Cerimedo comandava suas decisões. Jornalismo responsável precisa manter essa separação.

Mas responsabilidade factual não significa ignorar o significado político do conjunto.

Cerimedo está preso preventivamente por ordem judicial. Beller foi efetivamente baleada três vezes. Uma perícia realizada no celular dele encontrou mensagens que a acusação considera relevantes para a tentativa de feminicídio. Autoridades encontraram dezenas de milhares de dólares em buscas e abriram uma investigação paralela sobre patrimônio. O consultor participou comprovadamente de campanhas políticas em diferentes países. Foi comprovadamente uma das fontes de desinformação sobre as eleições brasileiras de 2022. Foi comprovadamente indiciado pela Polícia Federal. E voltou comprovadamente a questionar o sistema eleitoral brasileiro ao lado de Eduardo Bolsonaro em julho de 2026. Esses fatos, considerados em conjunto, justificam uma investigação muito mais ampla sobre suas conexões políticas e financeiras.

A América Latina conheceu durante décadas formas clássicas de intervenção política: golpes militares, financiamento externo de partidos, operações de inteligência, campanhas de propaganda e pressão econômica. O século XXI não eliminou essas práticas; adicionou novas ferramentas. Bots, redes automatizadas, publicidade segmentada, dados comportamentais, influenciadores e operações algorítmicas permitem interferir na formação de opinião de maneira muito menos visível e muito mais descentralizada.

Nesse ambiente, personagens como Cerimedo tornam-se particularmente importantes porque ocupam um espaço híbrido. Não são diplomatas. Não são dirigentes partidários formais. Não são necessariamente servidores públicos. Circulam entre empresas, campanhas, governos, mídias digitais e redes ideológicas. Essa fluidez pode produzir enorme poder sem a correspondente transparência institucional.

É exatamente por isso que a prisão do argentino não deveria ser vista no Brasil apenas como uma curiosidade criminal ocorrida na Bolívia.

Existe uma conexão brasileira objetiva e documentada.

O consultor que hoje está em Palmasola é o mesmo que, quatro anos atrás, ajudou a espalhar uma falsa narrativa sobre fraude eleitoral depois da derrota de Bolsonaro; o mesmo cuja transmissão apareceu nos documentos utilizados por integrantes da trama golpista; o mesmo que a Polícia Federal incluiu entre os indiciados; e o mesmo que, poucas semanas antes de sua prisão, voltou a discutir urnas eletrônicas com Eduardo Bolsonaro enquanto Flávio disputava a Presidência.

A pergunta decisiva, portanto, não é apenas se Fernando Cerimedo mandou ou não matar Nadia Beller — questão que caberá à Justiça boliviana responder com provas e devido processo.

A pergunta política mais ampla é como um operador privado, sem mandato e capaz de circular entre Buenos Aires, Brasília e La Paz, acumulou influência suficiente para atuar sobre campanhas eleitorais, governos e ecossistemas digitais de diferentes países da América Latina.

É uma pergunta sobre Cerimedo.

Mas é, principalmente, uma pergunta sobre a nova infraestrutura política da extrema direita continental.

A investigação boliviana talvez termine restrita ao crime cometido contra Nadia Beller. Talvez produza elementos adicionais sobre corrupção. Talvez revele relações financeiras e digitais que ainda não conhecemos. Não é possível antecipar o resultado.

Mas há algo que já está suficientemente claro: Fernando Cerimedo não é um personagem periférico da história política recente da América Latina.

Sua trajetória passa pelas falsas denúncias contra as urnas brasileiras, pela ascensão de Javier Milei, pela estrutura de poder montada ao redor de Rodrigo Paz e pela rede política que ainda orbita a família Bolsonaro.

Agora, essa trajetória está sendo examinada a partir de um celular apreendido, de uma vítima que sobreviveu a três tiros e de uma investigação criminal capaz de abrir arquivos que durante anos permaneceram escondidos nos bastidores das campanhas digitais.

Para o Brasil, ignorar essa história seria um erro.

Porque o homem preso em Palmasola já participou de uma tentativa de destruir a confiança dos brasileiros em suas próprias eleições — e, em julho de 2026, voltou exatamente ao mesmo assunto.

A democracia brasileira tem, portanto, razões concretas para acompanhar cada novo documento produzido pela investigação.