Estudos expõem dependência da imprensa africana de agências estrangeiras

Pesquisas mostram que a cobertura internacional da África privilegia conflitos e crises, enquanto ciência, cultura e desenvolvimento recebem menos atenção. Novas parcerias de comunicação ampliam o debate sobre soberania informacional

Da Redação

Quem tem o poder de contar a história de um continente também participa da construção da imagem que o mundo faz de seus povos, de suas economias e de suas possibilidades de desenvolvimento. Essa questão, aparentemente restrita ao jornalismo, ocupa posição central nas disputas internacionais contemporâneas e ganhou novo destaque nesta terça-feira, 27 de outubro de 2026, com a publicação de uma análise do jornalista e acadêmico líbio Mustafa Fetouri pela RT. O artigo questiona a predominância das grandes empresas ocidentais de comunicação na formação das narrativas internacionais sobre a África e apresenta dados que revelam uma desigualdade estrutural: embora os países africanos possuam milhares de jornais, emissoras de rádio, canais de televisão e plataformas digitais, grande parte das notícias que circulam internacionalmente sobre o continente continua sendo selecionada, produzida e distribuída por organizações sediadas fora dele.

A questão ultrapassa o lugar de nascimento dos jornalistas ou a nacionalidade das empresas de comunicação. Envolve quem define os acontecimentos considerados relevantes, quais fontes recebem credibilidade, que países aparecem nas manchetes, quais experiências são apresentadas como representativas do continente e quem dispõe dos recursos necessários para transformar uma informação local em notícia internacional.

Durante séculos, a África foi descrita por instituições estrangeiras que mantinham relações diretas ou indiretas com os processos de conquista territorial, escravização, exploração econômica e dominação colonial. A imagem do continente construída nesses ambientes frequentemente refletia interesses políticos e comerciais externos, contribuindo para naturalizar desigualdades e justificar diferentes formas de intervenção.

A independência política conquistada pela maioria dos países africanos ao longo do século XX modificou profundamente essa realidade, mas não eliminou automaticamente as assimetrias de poder que organizam a circulação internacional da informação. Décadas depois do fim formal de grande parte dos regimes coloniais, numerosas redações africanas ainda dependem de agências estrangeiras para acompanhar acontecimentos ocorridos em outros países do próprio continente.

Uma pesquisa da organização Africa No Filter oferece evidências concretas dessa dependência. O estudo How African Media Covers Africa, elaborado a partir da análise de 60 veículos de comunicação de quinze países africanos, identificou que aproximadamente um terço das notícias sobre outros países do continente publicadas pela amostra tinha origem em serviços informativos estrangeiros.

A investigação analisou conteúdos publicados entre setembro e outubro de 2020 e ouviu jornalistas e dirigentes de redações. Seus resultados continuam relevantes para compreender a estrutura do setor, embora representem uma amostra de um período específico e não uma medição atualizada de todos os veículos africanos.

Os pesquisadores identificaram que 63% dos meios de comunicação examinados não possuíam correspondentes próprios em outros países africanos. Essa ausência de profissionais no terreno ajuda a explicar por que notícias sobre acontecimentos regionais frequentemente são obtidas por meio de empresas sediadas na Europa ou em outras regiões do planeta.

O resultado é uma situação paradoxal. Um veículo de comunicação localizado em determinado país africano pode depender de uma agência europeia para descobrir e relatar acontecimentos registrados em um país vizinho. A notícia percorre circuitos internacionais de produção e distribuição antes de retornar ao público do continente onde os fatos ocorreram.

Essa estrutura não significa que todas as informações fornecidas pelas agências estrangeiras sejam incorretas ou que jornalistas internacionais sejam incapazes de produzir reportagens rigorosas. As grandes agências possuem correspondentes experientes, sistemas de verificação e capacidade de cobrir acontecimentos complexos em diferentes regiões.

O problema identificado pela pesquisa é a concentração do poder de seleção e distribuição, somada à insuficiência de recursos para que organizações africanas construam uma cobertura continental mais ampla e independente.

Quando poucas empresas internacionais definem os acontecimentos que merecem atenção, determinadas realidades podem se tornar excessivamente visíveis, enquanto outras permanecem praticamente desconhecidas.

As consequências aparecem no conteúdo das notícias. O levantamento da Africa No Filter mostrou que 81% das reportagens analisadas pertenciam à categoria de notícias factuais imediatas, frequentemente relacionadas a acontecimentos políticos e crises. Aproximadamente 13% abordavam especificamente violência política, conflitos armados ou agitação civil.

Guerras, epidemias, corrupção, instabilidade governamental e catástrofes são acontecimentos reais e precisam ser investigados. Ocultá-los seria incompatível com a função pública do jornalismo.

Mas existe uma diferença entre investigar problemas e transformar esses problemas na representação predominante de todo um continente.

A África reúne 54 países reconhecidos internacionalmente, centenas de milhões de trabalhadores, uma enorme diversidade linguística, tradições culturais distintas e sistemas econômicos que vão de grandes centros industriais e tecnológicos a comunidades agrícolas e regiões dependentes de atividades extrativas.

Reduzir essa multiplicidade a uma sequência de crises empobrece a compreensão do mundo e obscurece acontecimentos igualmente relevantes: desenvolvimento científico, transformações urbanas, movimentos culturais, experiências educacionais, conquistas sociais, iniciativas empresariais e processos de organização popular.

Uma segunda pesquisa, publicada em maio de 2024 pela Universidade da Cidade do Cabo, em parceria com Africa No Filter e The Africa Center, ampliou a investigação para os grandes meios internacionais de comunicação.

O estudo, denominado Global Media Index for Africa, examinou mais de mil reportagens publicadas por vinte organizações jornalísticas de projeção mundial durante um período de seis meses.

Entre os veículos analisados estavam CNN, BBC, Reuters, Associated Press, Agence France-Presse, Al Jazeera, Deutsche Welle, The Guardian, Le Monde, Bloomberg, The Economist, Financial Times, The New York Times, The Washington Post, Wall Street Journal, RT, CGTN e Xinhua.

A seleção permitiu comparar organizações ocidentais, asiáticas, russas e internacionais com diferentes estruturas de financiamento e orientações editoriais.

Os pesquisadores avaliaram quatro dimensões: diversidade dos países mencionados, variedade de assuntos abordados, diversidade das fontes consultadas e profundidade da cobertura.

Os resultados confirmaram a persistência de uma representação limitada do continente.

A maioria dos veículos concentrava a cobertura num conjunto relativamente pequeno de países, enquanto grandes parcelas da África recebiam atenção internacional esporádica. Política, conflitos, pobreza e corrupção permaneciam entre os assuntos mais frequentes. Ciência, cultura, artes, inovação e transformações sociais apareciam em proporções menores.

Outro problema identificado foi a predominância de homens pertencentes às elites políticas e econômicas entre as fontes utilizadas.

Essa concentração produz efeitos importantes sobre a compreensão dos acontecimentos. Quando uma reportagem sobre desenvolvimento econômico utiliza principalmente declarações de ministros, presidentes de empresas e representantes de organismos financeiros, outras experiências podem ficar ausentes: trabalhadores afetados pelas decisões, pequenos produtores, sindicatos, comunidades tradicionais, pesquisadores locais e organizações de mulheres.

Não se trata de substituir uma fonte por outra por critérios exclusivamente identitários. O objetivo é ampliar a diversidade de perspectivas para que os acontecimentos sejam examinados a partir de suas consequências reais sobre diferentes grupos sociais.

A pesquisa também demonstrou que os veículos internacionais não apresentam comportamento uniforme.

Algumas organizações registraram cobertura mais diversificada, enquanto outras concentraram sua atenção em poucos países e assuntos. Os resultados são relevantes justamente porque impedem a conclusão simplificadora de que todo o jornalismo ocidental reproduz o mesmo padrão ou de que toda cobertura produzida fora da África seja necessariamente prejudicial.

O que os estudos documentam é uma desigualdade estrutural na distribuição de recursos, na seleção de acontecimentos e na representação das sociedades africanas.

Essa desigualdade possui raízes históricas profundas.

A formação dos grandes sistemas internacionais de comunicação ocorreu paralelamente à expansão do capitalismo industrial, à consolidação dos impérios coloniais e ao desenvolvimento das redes de comércio mundial.

No século XIX, as potências europeias ampliaram o domínio sobre territórios africanos, organizaram sistemas de exploração de matérias-primas e estabeleceram infraestruturas destinadas a conectar regiões colonizadas aos mercados metropolitanos.

Portos, ferrovias, sistemas telegráficos e instituições administrativas foram construídos em muitos territórios para atender prioritariamente às necessidades comerciais e políticas das administrações coloniais.

O desenvolvimento da imprensa internacional acompanhou esse processo.

As grandes agências de notícias europeias cresceram num ambiente em que os principais centros financeiros, comerciais e diplomáticos também se encontravam nas metrópoles coloniais.

A relação entre informação e poder econômico não significa que cada jornalista atuasse conscientemente em defesa do colonialismo. A imprensa europeia também abrigou movimentos de oposição à escravidão e críticas à violência colonial.

Entretanto, os interesses das classes proprietárias e das instituições imperiais influenciavam o ambiente no qual as notícias eram produzidas e interpretadas.

Um exemplo documentado dessa relação aparece na própria história do jornal britânico The Guardian.

Em 2023, uma investigação encomendada pelo Scott Trust, responsável pela publicação, revelou que seu fundador, John Edward Taylor, mantinha relações comerciais com empresas envolvidas na importação de algodão produzido por pessoas escravizadas nos Estados Unidos.

O levantamento também identificou vínculos de financiadores do antigo Manchester Guardian com a economia escravista atlântica.

A organização reconheceu publicamente essas relações históricas, apresentou desculpas e anunciou medidas de justiça reparatória.

O episódio demonstra como instituições que posteriormente participaram de debates sobre direitos humanos e democracia também se desenvolveram em sociedades cuja riqueza foi parcialmente construída por sistemas de exploração colonial e escravista.

A existência dessas contradições não elimina a importância do jornalismo independente produzido atualmente por esses veículos. Mas reforça a necessidade de investigar a formação histórica das instituições que passaram a exercer influência sobre a representação de outras sociedades.

Durante o período colonial, a produção de conhecimento sobre a África também esteve associada a universidades, administrações imperiais, expedições científicas e instituições culturais europeias.

A história, a geografia, as línguas e as estruturas sociais de diferentes povos africanos foram frequentemente estudadas por organizações externas que possuíam maior capacidade de publicar, arquivar e distribuir internacionalmente seus trabalhos.

Muitas dessas pesquisas contribuíram para ampliar o conhecimento científico, mas outras reproduziram hierarquias raciais e interpretações destinadas a justificar a dominação.

O problema da autoridade sobre o conhecimento tornou-se, por isso, uma questão importante para movimentos anticoloniais e intelectuais africanos.

Pensadores como Frantz Fanon, Amílcar Cabral, Kwame Nkrumah e outros representantes das lutas pela independência examinaram a relação entre dominação política, estruturas econômicas e produção cultural.

A independência, nessa perspectiva histórica, não poderia ser reduzida à substituição de administradores estrangeiros por governantes nacionais. Exigia também a transformação das condições materiais e institucionais que sustentavam a dependência.

No campo da comunicação, essa preocupação permaneceu presente depois da descolonização formal.

Os novos Estados africanos precisavam construir sistemas de informação capazes de conectar suas populações, registrar suas experiências e participar do debate internacional sem depender exclusivamente das estruturas herdadas das antigas metrópoles.

O desafio envolvia infraestrutura, formação profissional, financiamento, distribuição e diversidade linguística.

Décadas depois, esses problemas continuam presentes, embora tenham adquirido novas características com a expansão da internet e das plataformas digitais.

A dependência informacional não é apenas uma questão cultural. Também possui consequências econômicas.

Um estudo publicado pela Africa No Filter em colaboração com a consultoria Africa Practice procurou estimar os custos financeiros associados à persistência de representações negativas do continente.

A pesquisa analisou a relação entre a cobertura internacional de acontecimentos políticos e as condições de financiamento externo de determinados países africanos.

Os pesquisadores compararam o tratamento jornalístico recebido por economias africanas com aquele destinado a países de outras regiões que possuíam características de risco consideradas comparáveis.

O levantamento encontrou uma associação entre percepções negativas e maiores custos de financiamento, estimando que a permanência de estereótipos poderia representar até US$ 4,2 bilhões anuais em despesas adicionais com juros para países africanos.

O valor não constitui uma perda diretamente observada em cada contrato de empréstimo. Trata-se de uma estimativa construída a partir de hipóteses econométricas, sujeita a limitações metodológicas reconhecidas pelos próprios autores.

Ainda assim, o estudo apresenta uma questão relevante: a maneira como países são representados internacionalmente pode influenciar avaliações de risco, decisões de investimento e expectativas econômicas.

O custo do financiamento público depende de numerosos fatores, incluindo endividamento, inflação, crescimento econômico, estabilidade institucional, receitas externas e condições dos mercados internacionais.

A percepção produzida pelas notícias é apenas um dos elementos desse processo.

Mas a possibilidade de que uma representação sistematicamente negativa amplie determinados custos econômicos demonstra por que a disputa sobre informação não pode ser considerada um assunto secundário.

Uma imagem internacional construída quase exclusivamente em torno de guerras, corrupção e instabilidade pode limitar o reconhecimento das capacidades produtivas, científicas e culturais de sociedades que apresentam realidades muito mais complexas.

Essa discussão também está relacionada ao debate contemporâneo sobre reparações históricas.

Em setembro de 2026, o governo da Jamaica apresentou uma petição ao rei Charles III solicitando o encaminhamento de questões jurídicas sobre a escravidão de africanos ao Comitê Judicial do Conselho Privado, que exerce funções de instância judicial superior para determinados países ligados à Coroa britânica.

A iniciativa procura esclarecer se o sequestro, o transporte forçado e a escravização de africanos eram compatíveis com o direito inglês e com as obrigações internacionais aplicáveis, além de examinar a existência de deveres reparatórios.

A ministra jamaicana da Cultura, Olivia Grange, esclareceu que a petição não apresentava uma cobrança monetária determinada. Seu objetivo imediato era obter uma avaliação jurídica sobre a legalidade da escravidão e as responsabilidades decorrentes de sua prática.

A maneira como reivindicações desse tipo são noticiadas ajuda a demonstrar o papel dos enquadramentos jornalísticos.

Uma demanda pode ser apresentada predominantemente como ameaça de custos financeiros para antigos impérios, ou examinada como discussão jurídica sobre a escravidão e seus efeitos históricos.

Ambas as dimensões podem ser relevantes, mas a escolha de uma delas como perspectiva principal influencia a compreensão pública do acontecimento.

Esse é um dos argumentos desenvolvidos por Mustafa Fetouri na RT.

O jornalista líbio sustenta que a disputa não se limita à identidade de quem escreve uma reportagem. Envolve a capacidade de estabelecer as perguntas que organizam o debate e determinar quais experiências recebem legitimidade.

A reflexão ganhou atualidade diante da expansão das relações de comunicação entre Rússia e países africanos.

Entre 26 e 29 de outubro, Moscou recebe o Fórum de Mídia Rússia–África, organizado pela RT em parceria com as agências Sputnik e TASS, no contexto dos encontros econômicos e humanitários realizados durante a terceira Cúpula Rússia–África.

Segundo a organização do evento, são esperados mais de duzentos participantes de 46 países africanos, incluindo dirigentes de veículos de comunicação, jornalistas, representantes governamentais e produtores de conteúdo digital.

A programação contempla debates sobre a cooperação entre redações, formação profissional, circulação de notícias, compartilhamento de recursos técnicos e ampliação da presença internacional de perspectivas africanas.

Entre os participantes anunciados estão representantes da União Africana de Radiodifusão, dirigentes de veículos regionais e integrantes de governos africanos.

A organização também prevê atividades com descendentes de lideranças históricas dos processos de independência e emancipação, incluindo familiares de Patrice Lumumba, Nelson Mandela, Samora Machel e Gamal Abdel Nasser.

A escolha desses nomes possui significado simbólico. Eles estão associados a diferentes experiências de luta contra estruturas coloniais, segregação racial e dependência política.

Sua presença num fórum internacional de comunicação insere a discussão atual numa memória histórica que continua influenciando as relações entre a África e as grandes potências.

Mas essa aproximação também precisa ser examinada dentro dos interesses geopolíticos contemporâneos.

A Rússia procura ampliar sua presença econômica, diplomática e comunicacional no continente africano, especialmente depois do agravamento das tensões com Estados Unidos e União Europeia em consequência da guerra na Ucrânia.

A expansão envolve acordos militares, cooperação energética, comércio de armamentos, exploração de recursos naturais e iniciativas de comunicação.

Os meios russos RT, Sputnik e TASS participam dessa estratégia internacional, oferecendo conteúdos, serviços de distribuição e programas de formação para jornalistas.

Segundo pesquisa publicada em outubro de 2025 pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores, mais de mil jornalistas africanos participaram de cursos promovidos pela RT Africa, abrangendo profissionais de 35 países.

O mesmo estudo relatou a ampliação da presença das agências russas no continente, incluindo centros editoriais destinados à produção de conteúdos em diferentes idiomas africanos.

A expansão ocorreu paralelamente à redução de determinadas operações internacionais de veículos ocidentais, causada por cortes orçamentários e mudanças nas prioridades de financiamento.

Essa combinação abre espaço para novas parcerias, mas também produz uma disputa pelo acesso aos públicos africanos.

O Conselho Europeu de Relações Exteriores interpreta parte dessas iniciativas russas como instrumentos de influência política e critica conteúdos utilizados em programas de formação.

A análise de Fetouri apresenta uma perspectiva diferente: argumenta que a presença de novos parceiros pode ampliar as oportunidades de formação e distribuição de informações, mas reconhece que o acesso a conteúdos alternativos não equivale automaticamente à conquista de independência editorial.

As duas avaliações partem de preocupações distintas, porém ajudam a estabelecer uma questão verificável: quais condições efetivas essas parcerias oferecem aos jornalistas africanos para investigar, publicar e questionar seus próprios parceiros?

A resposta não pode depender exclusivamente de discursos sobre multipolaridade ou soberania.

É necessário examinar os contratos, as fontes de financiamento, a liberdade editorial, os mecanismos de fiscalização e a possibilidade de publicar informações que contrariem interesses de governos e empresas participantes.

Uma redação não se torna independente simplesmente porque substitui conteúdos de uma agência europeia por notícias produzidas por uma organização russa ou chinesa.

A autonomia depende da capacidade de verificar informações, investigar diferentes centros de poder e publicar conclusões sem sofrer censura ou punições por contrariar interesses políticos.

Essa exigência se aplica também às organizações financiadas pelos governos ocidentais e aos meios controlados por autoridades africanas.

A preocupação é especialmente importante porque diversos países do continente enfrentam problemas graves de liberdade de imprensa.

O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026, elaborado pela organização Repórteres Sem Fronteiras, apresenta um quadro preocupante em grande parte da África Subsaariana.

Segundo o levantamento, a situação da liberdade de imprensa é classificada como difícil em 24 dos 48 países examinados na região e muito grave em outros cinco.

Eritreia, Djibuti, Sudão, Etiópia e Ruanda aparecem entre os países com restrições mais severas.

No Sahel, os regimes militares de Níger, Mali e Burkina Faso ampliaram medidas contra veículos de comunicação, jornalistas e organizações consideradas críticas às autoridades.

O relatório registra detenções arbitrárias, suspensão de emissoras e utilização de legislações relacionadas à segurança nacional para restringir a divulgação de informações.

Em países atravessados por guerras, como Sudão e República Democrática do Congo, profissionais da imprensa enfrentam ameaças de grupos armados, deslocamento forçado e dificuldades para manter o funcionamento das redações.

Essas situações demonstram que a soberania informacional também depende de condições políticas internas.

Uma sociedade não conquista autonomia jornalística quando suas autoridades impedem investigações independentes, reprimem profissionais ou determinam quais informações podem circular.

O direito de produzir narrativas próprias inclui necessariamente a liberdade de questionar governos nacionais, empresas locais e lideranças políticas africanas.

A mesma lógica se aplica à própria Rússia.

O país ocupa a 172ª posição entre 180 países e territórios no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026. A Repórteres Sem Fronteiras documenta restrições severas sobre veículos independentes, censura relacionada à guerra na Ucrânia e processos contra jornalistas.

Esses dados não impedem que instituições russas estabeleçam acordos legítimos de cooperação com organizações africanas. Mas demonstram que a defesa da liberdade editorial precisa ser avaliada por critérios consistentes, independentemente da orientação geopolítica do parceiro.

A construção de uma comunicação africana autônoma não depende de escolher entre submissão a antigos centros coloniais e alinhamento automático a novas potências.

Depende da criação de instituições capazes de produzir, investigar e distribuir informação com recursos próprios e garantias profissionais.

Existem experiências importantes nessa direção.

Uma delas é a agência Bird, criada em 2021 pela Africa No Filter para ampliar a circulação de reportagens produzidas a partir de perspectivas africanas.

A iniciativa desenvolveu uma rede de colaboradores e parcerias com veículos do continente, distribuindo conteúdos sobre ciência, cultura, negócios, tecnologia e transformações sociais que recebem atenção limitada na cobertura convencional.

Segundo reportagem publicada pelo Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, da Universidade de Oxford, a Bird já havia produzido centenas de reportagens e estabelecido relações com aproximadamente cem organizações jornalísticas nos primeiros anos de funcionamento.

O projeto procura ampliar a presença de assuntos que não se restringem a conflitos, pobreza ou escândalos políticos.

Entre as experiências documentadas estão iniciativas de pesquisa científica, empreendimentos tecnológicos e transformações econômicas desenvolvidas em diferentes países africanos.

A proposta não consiste em produzir notícias exclusivamente positivas.

Consiste em ampliar os assuntos investigados e permitir que acontecimentos frequentemente ignorados sejam examinados com o mesmo rigor dedicado às crises.

Outra experiência é a Africa Check, organização independente de verificação de informações criada em 2012, com presença na África do Sul, no Quênia, na Nigéria e no Senegal.

A entidade investiga declarações de autoridades, conteúdos digitais e informações de interesse público, atuando também na formação de profissionais e no desenvolvimento de técnicas de checagem.

Sua trajetória demonstra que o fortalecimento da comunicação africana envolve não apenas produzir mais notícias, mas também ampliar a capacidade de identificar erros, exigir correções e responsabilizar figuras públicas por declarações falsas.

A produção de informação confiável constitui um elemento essencial para que cidadãos possam avaliar políticas públicas, acompanhar eleições e participar de debates sobre o futuro de seus países.

Essas iniciativas precisam enfrentar, entretanto, obstáculos econômicos importantes.

O financiamento do jornalismo tornou-se mais difícil em numerosas regiões do mundo devido à transferência de receitas publicitárias para plataformas digitais e à transformação dos hábitos de consumo de notícias.

Redações locais enfrentam concorrência de empresas tecnológicas que concentram audiência, publicidade e infraestrutura de distribuição.

O problema atinge particularmente veículos que operam em economias com mercados publicitários menores e recursos limitados para manter correspondentes internacionais.

A expansão das plataformas também alterou os mecanismos de visibilidade.

Uma notícia pode ser produzida por jornalistas africanos, publicada numa empresa africana e distribuída inicialmente ao público local, mas sua capacidade de alcançar audiência internacional depende frequentemente de sistemas privados de recomendação, mecanismos de busca e redes sociais controlados por grandes companhias estrangeiras.

A concentração da infraestrutura digital cria, assim, uma nova dimensão da dependência informacional.

Não basta possuir capacidade de produzir reportagens. É necessário também conseguir distribuí-las, preservar arquivos, alcançar leitores e financiar continuamente as redações.

A inteligência artificial acrescenta novas oportunidades e riscos.

Ferramentas de tradução, transcrição e análise documental podem facilitar a circulação de informações entre países africanos que utilizam diferentes línguas oficiais e nacionais.

Entretanto, sistemas treinados predominantemente com conteúdos de outras regiões podem reproduzir vieses, erros e interpretações inadequadas sobre sociedades pouco representadas nos conjuntos de dados utilizados.

O desenvolvimento de tecnologias adaptadas às línguas e às experiências africanas tornou-se, por isso, uma questão de soberania tecnológica e cultural.

A diversidade linguística do continente torna esse desafio particularmente relevante.

Inglês, francês, português, árabe e outras línguas utilizadas em instituições oficiais convivem com centenas de línguas africanas presentes nas comunidades, nos mercados, nas escolas e nos ambientes familiares.

A produção jornalística exclusivamente em idiomas de circulação internacional pode limitar a participação de públicos que utilizam prioritariamente suas línguas locais.

Rádios comunitárias, veículos regionais e plataformas digitais voltadas a esses públicos cumprem uma função importante na circulação de informações sobre saúde, educação, agricultura e decisões públicas.

A expansão da conectividade representa outra condição necessária.

Segundo a União Internacional de Telecomunicações, aproximadamente 42% da população da região africana utilizada em suas estatísticas estava conectada à internet em 2026.

Embora o acesso tenha crescido, a proporção permanece abaixo da média mundial e apresenta desigualdades relevantes entre áreas urbanas e rurais, grupos de renda e diferentes faixas etárias.

Milhões de pessoas continuam enfrentando limitações de infraestrutura, custos elevados e dificuldades para utilizar serviços digitais.

A construção de uma esfera pública africana mais integrada depende, portanto, de investimentos em telecomunicações, alfabetização digital, educação e infraestrutura, além da formação de jornalistas.

A desigualdade informacional possui uma base material.

Países e empresas com maior capacidade de financiar redes de correspondentes, satélites, sistemas digitais, centros de processamento de dados e agências de notícias também dispõem de melhores condições para influenciar a circulação internacional dos acontecimentos.

A superação dessa diferença não se realiza apenas por meio de campanhas destinadas a valorizar a imagem do continente.

Exige políticas e investimentos capazes de ampliar a produção independente de informação.

Também exige reconhecer que não existe uma única narrativa africana.

As sociedades do continente apresentam divergências políticas, interesses econômicos, conflitos sociais e interpretações históricas próprias.

Governos, trabalhadores, empresas, movimentos feministas, organizações camponesas, pesquisadores e comunidades indígenas ou tradicionais não necessariamente compartilham as mesmas posições sobre os rumos de seus países.

Uma comunicação verdadeiramente plural precisa permitir que essas diferenças sejam conhecidas, em vez de substituir a narrativa estrangeira por uma versão oficial única apresentada em nome da África.

Essa é uma das contribuições centrais do debate atual.

A crítica à cobertura internacional não deve conduzir à idealização das instituições africanas nem ao silenciamento de conflitos reais.

Corrupção, violência estatal, guerras e desigualdades precisam continuar sendo investigadas, inclusive quando envolvem governos que se apresentam como defensores do anti-imperialismo e da soberania.

Da mesma maneira, empresas estrangeiras que investem em infraestrutura, mineração, tecnologia ou comunicação devem estar sujeitas à fiscalização pública, independentemente de sua origem nacional.

A independência editorial exige capacidade de questionar todos esses poderes.

A discussão também possui relevância direta para o Brasil.

A história brasileira está profundamente ligada à África pela escravidão atlântica, pela diáspora, pela formação cultural e pelas relações econômicas construídas durante séculos.

A presença africana integra a formação da sociedade brasileira em dimensões fundamentais, incluindo trabalho, religião, música, culinária, linguagem, conhecimento e formas de organização comunitária.

Apesar dessa proximidade histórica, a cobertura da África nos grandes meios brasileiros também enfrenta limitações estruturais.

Numerosos acontecimentos internacionais chegam ao país por meio de agências estrangeiras, enquanto a presença permanente de correspondentes brasileiros em diferentes regiões africanas é restrita.

Essa condição dificulta a construção de uma compreensão abrangente dos processos políticos, econômicos e sociais do continente.

A ampliação da cooperação jornalística entre Brasil e países africanos poderia contribuir para diversificar fontes, fortalecer a circulação de pesquisas e ampliar a divulgação de experiências locais.

Os países africanos de língua portuguesa ocupam uma posição especialmente relevante nesse debate.

Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe mantêm vínculos linguísticos, culturais e históricos com o Brasil, embora possuam trajetórias políticas e estruturas sociais muito diferentes.

A cooperação entre redações desses países pode facilitar a produção de reportagens sobre desenvolvimento econômico, recursos naturais, educação, saúde pública, cultura e relações internacionais.

O intercâmbio de jornalistas, pesquisadores e produtores audiovisuais também pode ampliar o conhecimento direto sobre as realidades africanas, reduzindo a dependência de interpretações produzidas exclusivamente fora da comunidade lusófona.

Mas a aproximação não deve reproduzir uma relação paternalista na qual o Brasil se apresenta como responsável por explicar ou representar sociedades africanas.

A cooperação precisa reconhecer a autoridade dos profissionais locais e estabelecer condições de produção conjunta, com autonomia e respeito às diferentes experiências nacionais.

O mesmo princípio vale para as relações com Rússia, China, Estados Unidos e Europa.

As parcerias internacionais podem oferecer recursos, tecnologia, formação e maior circulação de conteúdos. Sua contribuição para a soberania informacional dependerá da capacidade de fortalecer instituições africanas que possam continuar funcionando sem subordinação editorial aos financiadores.

Esse é o ponto em que o debate lançado pela RT adquire sua dimensão mais ampla.

A multipolaridade internacional pode modificar a distribuição de poder entre Estados e ampliar as alternativas diplomáticas e econômicas disponíveis aos países africanos.

Mas a existência de vários centros de influência não assegura, por si só, maior liberdade para jornalistas e cidadãos.

Uma ordem internacional com múltiplas potências também pode apresentar disputas por mercados, recursos minerais, infraestrutura, sistemas digitais e influência sobre a opinião pública.

A autonomia africana dependerá da capacidade de participar dessas relações preservando instituições próprias e condições de decisão independentes.

A comunicação constitui parte importante desse processo porque influencia a maneira como os acontecimentos são compreendidos dentro e fora do continente.

O jornalismo pode contribuir para tornar visíveis experiências sociais ignoradas, revelar conflitos econômicos, fiscalizar autoridades e ampliar a circulação de conhecimentos.

Também pode reproduzir estereótipos, reforçar interesses poderosos ou limitar a compreensão pública quando depende excessivamente de fontes concentradas.

A diferença está nas condições de produção, nos critérios profissionais e nas possibilidades efetivas de independência.

O fórum realizado em Moscou coloca essas questões diante de representantes de países africanos e instituições russas. Seus resultados poderão ser examinados a partir dos acordos efetivamente celebrados, dos recursos disponibilizados e da liberdade concedida aos profissionais envolvidos.

Cursos, intercâmbios e sistemas de distribuição podem contribuir para ampliar capacidades técnicas. Mas a medida fundamental será a possibilidade de jornalistas africanos investigar governos nacionais, questionar empresas estrangeiras e produzir reportagens que contrariem os interesses de qualquer parceiro.

Esse princípio também precisa orientar iniciativas de comunicação financiadas por fundações ocidentais, organizações multilaterais ou grandes plataformas tecnológicas.

O problema histórico da representação da África não será resolvido simplesmente pela substituição de um centro estrangeiro de poder por outro.

A superação da dependência exige que meios de comunicação africanos tenham condições de financiar correspondentes, produzir investigações, desenvolver infraestrutura, formar profissionais, ampliar suas audiências e preservar autonomia editorial.

O estudo da Universidade da Cidade do Cabo demonstra que a representação internacional do continente continua desigual. A pesquisa da Africa No Filter revela que parte significativa da própria imprensa africana ainda depende de serviços estrangeiros. Os dados sobre conectividade mostram que milhões de pessoas permanecem afastadas dos ambientes digitais. E os relatórios sobre liberdade de imprensa evidenciam que a construção de uma comunicação independente também exige enfrentar restrições impostas por governos nacionais.

São problemas diferentes, mas relacionados.

O conjunto revela que o direito de contar a própria história depende de condições materiais, políticas e institucionais.

A África não precisa ser apresentada como um continente sem conflitos para que sua diversidade seja reconhecida. Também não precisa trocar a investigação de seus problemas por uma comunicação destinada exclusivamente a promover governos ou atrair investimentos.

O que pesquisadores e jornalistas africanos reivindicam é a possibilidade de construir uma representação mais completa, produzida a partir das experiências concretas de suas sociedades e capaz de alcançar o debate internacional em condições menos desiguais.

Uma cobertura que investigue guerras sem ignorar as iniciativas de paz, examine a pobreza sem apagar as capacidades produtivas, denuncie a corrupção sem reduzir todos os governos à mesma imagem e acompanhe a economia sem limitar suas fontes aos dirigentes empresariais.

Uma cobertura capaz de reconhecer a contribuição de pesquisadores, artistas, agricultores, trabalhadores, movimentos sociais, mulheres, jovens e comunidades locais para a construção das sociedades africanas contemporâneas.

A questão levantada por Mustafa Fetouri possui, portanto, um significado que ultrapassa a disputa entre meios ocidentais e russos.

O verdadeiro problema é quem dispõe dos instrumentos necessários para selecionar, investigar, interpretar e distribuir informações sobre sociedades que durante séculos tiveram sua imagem submetida a estruturas externas de poder.

A resposta exige mais do que novas alianças diplomáticas.

Exige redações independentes, pluralidade de fontes, condições de trabalho dignas, investimentos em tecnologia, liberdade de imprensa e capacidade de produzir conhecimento a partir das próprias realidades africanas.

A África possui suas vozes, suas histórias e seus jornalistas. O desafio é assegurar que tenham os meios, a liberdade e o alcance necessários para que essas histórias sejam conhecidas sem depender da autorização, dos interesses ou dos filtros de qualquer potência estrangeira.