Quem é Maurício Marcon, deputado do PL que travou a PEC do fim da escala 6×1

O deputado federal Maurício Marcon (PL-RS) tornou-se um dos principais rostos da resistência ao fim da escala 6×1 no Congresso Nacional após pedir vista e interromper temporariamente a tramitação da Proposta de Emenda Constitucional que reduz a jornada semanal de trabalho no Brasil.

O gesto colocou o parlamentar gaúcho no centro de uma das discussões sociais mais explosivas do país. A proposta do fim da escala 6×1 ganhou enorme adesão popular nos últimos meses ao atingir diretamente trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas no comércio, supermercados, telemarketing, logística, serviços e trabalho terceirizado.

Enquanto sindicatos e movimentos sociais defendem a redução da jornada sem corte salarial, Marcon se consolidou como um dos principais articuladores parlamentares contra a proposta.

Economista, empresário e integrante da ala bolsonarista mais ideológica da Câmara, o deputado construiu sua trajetória política baseada no liberalismo econômico radical, no confronto com a esquerda e em sucessivas polêmicas públicas.

O homem que nunca trabalhou na escala 6×1

Um dos aspectos que mais chamam atenção no debate é que Maurício Marcon nunca trabalhou sob o regime da escala 6×1, segundo levantamento sobre sua trajetória profissional. Sua única experiência formal como empregado ocorreu no setor bancário, categoria cuja jornada tradicionalmente funciona no modelo 5×2. Depois disso, passou a atuar como empresário, investidor e sócio de empresas ligadas ao mercado financeiro, construção civil e comércio. Filho de patrão e patrão. Ainda jovem, trabalhou nos negócios do pai em Caxias do Sul e posteriormente ingressou no setor bancário antes de migrar para o empreendedorismo. Apesar disso, tornou-se um dos parlamentares mais ativos contra a proposta de redução da jornada.

A “PEC da Alforria”

Marcon argumenta que o fim da escala 6×1 sem redução salarial provocaria aumento de custos, inflação e desemprego. Como alternativa, apresentou uma proposta apelidada por ele próprio de “PEC da Alforria”. O texto defende ampla liberdade contratual entre patrões e empregados, reduzindo a intervenção estatal sobre jornada e salários. Na prática, o parlamentar sustenta que trabalhadores deveriam ter “liberdade” para negociar diretamente suas jornadas, inclusive podendo trabalhar sete dias por semana, caso desejassem ampliar a renda.

Em maio deste ano, também protocolou um projeto propondo salário mínimo de R$ 100 mil com reajuste anual de 50%. O próprio deputado admitiu que a proposta era irônica e tinha caráter de protesto político contra o que chama de “populismo econômico” da esquerda.

Guerra contra servidores públicos

Antes de chegar à Câmara Federal, Marcon foi vereador em Caxias do Sul e ganhou projeção local por confrontos frequentes contra servidores municipais.

Durante o mandato, atacou publicamente mecanismos de reposição inflacionária do funcionalismo e afirmou que determinados reajustes funcionariam como um “14º salário” pago pelo contribuinte.

A postura ajudou a consolidar sua imagem junto a setores liberais e antipetistas do Rio Grande do Sul.

Expulsão do Partido Novo

A trajetória partidária de Marcon também foi marcada por conflitos internos. Antes de chegar ao PL, passou por PSDB, Partido Novo e Podemos.

Em 2021, acabou expulso do Partido Novo após atacar publicamente o processo interno da legenda para escolha de candidato à Presidência da República. Em transmissão nas redes sociais, chamou o modelo partidário de “fake” e “não verdadeiro”. O caso aprofundou sua aproximação com setores mais radicalizados do bolsonarismo.

Fraude à cota de gênero

Maurício Marcon também enfrenta um processo que pode resultar na perda de seu mandato. Em 2024, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul decidiu pela cassação de sua chapa por fraude à cota de gênero nas eleições de 2022.

Segundo o TRE-RS, houve uso de candidaturas femininas fictícias, irregularidades na distribuição de recursos e descumprimento das regras destinadas a mulheres e pessoas negras. Apesar da decisão unânime, Marcon segue no cargo enquanto recorre ao Tribunal Superior Eleitoral.

Racismo

Em 2023, o deputado virou alvo de forte repercussão nacional após comparar a Bahia ao Haiti durante uma transmissão nas redes sociais. Na ocasião, afirmou que o estado era marcado por “pobreza”, “pichação” e “sujeira”. As declarações provocaram acusações de xenofobia e racismo. Parlamentares e entidades de direitos humanos apontaram que o preconceito contra nordestinos frequentemente é entendido, no contexto brasileiro, como expressão de racismo estrutural. O caso gerou representação no Conselho de Ética da Câmara, investigação policial e envio do caso ao STF. Posteriormente, a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento da investigação criminal.

O protesto com orégano e STF

Outro episódio que projetou Marcon nacionalmente ocorreu em 2023, quando levou um pacote de orégano para a tribuna da Câmara durante debate sobre descriminalização da maconha no STF. O deputado utilizou o produto como encenação visual para atacar ministros do Supremo e defender posições conservadoras sobre drogas e segurança pública.

Marcon também se tornou presença constante em discursos contra o Supremo Tribunal Federal e especialmente contra o ministro Alexandre de Moraes. O deputado acusa o STF de interferência política e costuma defender investigações e impeachment de ministros da Corte. Sua atuação o aproximou ainda mais da ala bolsonarista radical ligada aos atos de contestação do sistema eleitoral e às mobilizações após o 8 de janeiro.

Portas fechadas em Washington

Em 2025, Marcon viajou aos Estados Unidos para acompanhar a posse de Donald Trump ao lado de outros parlamentares bolsonaristas. O episódio acabou se tornando constrangedor para parte da comitiva brasileira.

Após horas em filas sob frio intenso, integrantes da elite bolsonarista permaneceram do lado de fora de eventos ligados à posse presidencial sem acesso aos espaços centrais da cerimônia. Marcon chamou a posse de Trump de “o dia mais importante do século”.

A disputa sobre o trabalho

A atuação de Maurício Marcon contra o fim da escala 6×1 acabou transformando o deputado em símbolo de uma disputa mais ampla sobre os rumos das relações de trabalho no Brasil. De um lado, trabalhadores e movimentos sociais defendem redução da jornada, ampliação do descanso e combate à precarização. Do outro, parlamentares liberais e setores empresariais argumentam que mudanças desse tipo poderiam afetar custos e empregos. O próprio presidente do PL, Valdemar Costa Neto, admitiu recentemente preocupação eleitoral com o tema ao afirmar que “se não aprovarmos o 6×1, Lula ganha as eleições”.

Nesse contexto, a Atitude Popular está propondo aos movimentos sociais e entidades populares uma campanha nacional em defesa da soberania nacional e de um Congresso Amigo do Povo. A iniciativa articula debates sobre valorização do trabalho, combate à precarização e defesa de direitos sociais.

Os apoiadores interessados podem acompanhar e assinar o manifesto em:

Campanha Brasil Soberano

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