Luciano Simplício analisa o bolsonarismo como força social persistente, alerta para o peso do Congresso em 2026 e aponta a disputa religiosa e a máquina de desinformação como campos decisivos
No retorno da grade de 2026 da Rádio e TV Atitude Popular, o programa Democracia no Ar abriu o ano com um tema que, nas palavras da própria apresentadora Sara Goes, “tem gente que já tá fazendo cara feia”: a ascensão — e a suposta queda — de Jair Bolsonaro e do bolsonarismo. A edição, transmitida pela rede de rádios e TVs comunitárias que integra a iniciativa, reuniu a jornalista e âncora com o presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Luciano Simplício, para um debate que atravessou eleições, extrema direita, igrejas, sofrimento social e a disputa por narrativas no país.
Ao apresentar o contexto do programa, Sara Goes situou o momento como “um ano importantíssimo” e afirmou que 2026 pode marcar “a eleição mais importante da história do país”. Para ela, a proximidade do calendário eleitoral exige que o campo progressista compreenda “melhor esse inimigo”, que descreveu como “um monstro com várias cabeças”: além de Bolsonaro, os filhos e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro — figura que, segundo a apresentadora, tem ampliado protagonismo. O convite a Simplício, brincou Sara, viraria quase fixo: “A gente convoca, ele tem que vir mesmo”.
Logo no início, o dirigente sindical contestou a premissa central do tema. Para ele, falar em “queda” é perigoso porque subestima o fenômeno político que emergiu com força em 2018. “Eu não concordo muito com essa questão da queda, não”, afirmou, antes de reforçar a necessidade de vigilância permanente. Ao descrever o ambiente pós-2018, Simplício foi direto: “Pela primeira vez, 2018, a gente viu destampar essa cornocópia do mal. Então por isso que nós temos que estar atentos”.
“Bolsonaro é uma ideia” e o risco de subestimar o adversário
O ponto central do argumento de Simplício é que a extrema direita não se resume a um líder adoecido, investigado ou acuado — mas a um conjunto de valores e desejos sociais que encontraram representação. Em um dos trechos mais enfáticos, ele recuperou um raciocínio que associou ao que Lula disse no passado sobre não se matar ideias e aplicou ao bolsonarismo: “Bolsonaro é uma ideia”. Na leitura do dirigente, a força do fenômeno está em ter “dado voz a esse povo que acredita na esperteza, que acredita na falcatrua, que vai se dar bem”, e que rejeita vínculos de proteção social e planejamento do futuro.
A apresentadora concordou com a cautela e insistiu no caráter multiforme do grupo político. Ela descreveu um contraste entre o “ser humano Bolsonaro”, que estaria “apodrecendo por dentro”, e a capacidade do bolsonarismo de se reorganizar por outros polos familiares e aliados. Ao mapear as peças do tabuleiro, citou Flávio Bolsonaro como nome “presidenciável” em pesquisas, apontou Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e destacou Michelle como liderança com “um olé na família inteira”.
O campo religioso como arena política
Uma parte substantiva da conversa se concentrou na relação entre bolsonarismo e igrejas. Sara relatou que o debate sobre diálogo com evangélicos gerou críticas a Lula até dentro da esquerda e avaliou que houve “um desgaste natural” no meio religioso, com jovens preferindo se apresentar como “cristãos” porque “pega mal falar que é crente”, após a associação entre templos e bolsonarismo.
Simplício, por sua vez, fez uma distinção entre as bases e as cúpulas religiosas. “As pequenas igrejas… nunca compactuaram com esse tipo de coisa. Quem se envolveu com isso até a medula foram as grandes igrejas”, disse. E arrematou com uma frase que sintetiza sua crítica moral e política: “O verdadeiro pastor ele leva a ovelha para o aprisco, ele não leva ovelha para o abismo”.
No mesmo eixo, ele acusou figuras que “foram se esconder por trás da igreja, por trás da Bíblia para fazer grandes falcatruas”, o que, na visão dele, teria “sujado” o termo “crente”. Em tom provocativo, completou: “Porque quando disse crente, às vezes até o diabo foi crente, foi. O diabo acreditou também”.
Michelle Bolsonaro, “Lula de saias”, e o cálculo eleitoral do bolsonarismo
A discussão sobre sucessão e candidaturas foi um dos momentos de maior tensão analítica. Ao comentar a habilidade política de Michelle, Simplício disse que ela “mexe com isso muito bem” no universo evangélico e atribuiu racionalidade estratégica ao seu comportamento. “A Michele comparando mal, ela é um Lula de saias. Ela aprendeu a política na prática, nos corredores do Congresso”, afirmou, sustentando que ela não deve ser subestimada.
Mais adiante, ele arriscou um prognóstico: “Eu penso que vai ser a Michele, que vai ser terrível. Todos os caminhos tá levando para Michele”. Para ele, o cálculo dos demais nomes do campo bolsonarista é atravessado por processos e riscos jurídicos. Sobre Flávio Bolsonaro, afirmou: “Eu não acredito que o Flávio seja candidato a presidente, porque ele não pode perder o mandato… se ele perder o mandato, ele vai preso também”.
Sara ponderou que certos ataques ao passado de Michelle podem ser ineficazes no ambiente religioso e alertou para a lógica de “conversão” como apagamento simbólico: “Para determinado público evangélico, quanto pior o passado, melhor, porque mostra que a conversão foi mais forte”. E completou: “O batismo… é um evento que zera a vida da pessoa”.
O alvo real: Senado e Câmara
Se houve um consenso explícito no programa, foi sobre a centralidade do Legislativo. Sara lembrou que o próprio Bolsonaro já explicitava esse objetivo ao falar em controlar cadeiras no Senado e no Congresso. Simplício reforçou o diagnóstico: “O interesse da extrema direita é Senado e Câmara, porque se eles tiverem maioria lá, eles casam e batizam”.
A partir desse ponto, a conversa se deslocou do personagem para o método: como enfrentar uma força política que combina rede religiosa, poder econômico e desinformação. Simplício afirmou que, sem regulamentação, o país seguirá “correndo atrás” de mentiras já disseminadas: “Primeiramente regulamentar essa loucura que é a fake news”. Na mesma linha, apontou que a disputa se tornou mais complexa: do combate a notícias falsas em 2018, passando por distorções em 2022, até a construção de “realidades” em 2026 — como sintetizou Sara: “Agora em 2026 a gente tem que lutar contra realidades que estão sendo construídas”.
Fortaleza como alerta: 6 mil votos e campanha “de rua”
A apresentadora recorreu à experiência recente do Ceará para sustentar que a próxima eleição tende a exigir corpo a corpo. Ela descreveu a disputa municipal em Fortaleza como um termômetro do que viria pela frente: “Fortaleza… teve a eleição… decidida por 6.000 votos”. E insistiu que a vitória apertada demonstrou o peso das ruas e da militância tradicional.
Simplício concordou com a ênfase na organização territorial e criticou a desigualdade material na disputa, mencionando o poder financeiro de grupos religiosos e empresariais. “Esse povo tem muito dinheiro”, disse, ao defender que o campo progressista deve “afinar o nosso diálogo… com os movimentos sociais”. Para ele, a esquerda não conseguirá competir “na relação de grana” e precisa reforçar credibilidade e presença cotidiana: “Nós não podemos perder isso… credibilidade junto à população”.
A conversa também incorporou exemplos concretos do cotidiano social, como a paralisação envolvendo o hospital Sopai, citado por Simplício como símbolo de crise e abandono: trabalhadores reivindicando “o pagamento do salário”, enquanto faltaria “o mínimo para os pacientes, para as crianças, bolacha, suco”. Para ele, a degradação material se mistura ao adoecimento coletivo — tema que apareceu quando mencionou aumento de afastamentos do trabalho por depressão e a normalização do uso de medicamentos.
Ponto fraco e disputa narrativa: corrupção, cinismo e formação política
Ao final, Sara pediu que o convidado apontasse “ponto fraco” da família Bolsonaro e como enfrentá-la “sem cair no baixo nível”. Simplício voltou à desinformação e sugeriu que a fragilidade está nas contradições internas e nas disputas por espólio político: “Essas brigas entre eles”. Mas alertou que a extrema direita opera com cinismo: “Eles são descarados”. E, por isso, uma estratégia meramente moralista pode não funcionar sem trabalho de base e formação: “Tem que ter um processo de formação mínimo necessário para esse povo… não é só questão de comunicação, é questão do dia a dia, é questão da conversa”.
O encerramento veio com agradecimentos mútuos e um chamado à ética do serviço, que virou síntese do programa — e título desta matéria. Ao se despedir, Luciano Simplício afirmou: “Quem não vive para servir, não serve para viver”.
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