Em entrevista o psicólogo e gerontólogo Erismar Silva analisa o tema da redação do Enem, desmonta o mito do “envelhecer individual” e defende políticas públicas estruturantes para garantir dignidade à população idosa brasileira
Quando o Enem 2025 escolheu como tema de redação “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, muita gente enxergou apenas uma boa surpresa de prova. Para o psicólogo e bacharel em Gerontologia Erismar Silva, porém, o assunto expôs algo muito mais profundo: o modo como o Brasil lida – ou não lida – com o envelhecer em meio a desigualdades brutais, precarização do trabalho e avanço do neoliberalismo.
As reflexões foram feitas em entrevista ao programa Democracia no Ar, da rádio e TV Atitude Popular, idealizado pelo movimento Democracia Participativa e apresentado pela jornalista Sara Goes, com transmissão em rede de rádios comunitárias pelo país. A partir da provocação do Enem, Erismar desdobrou o tema em política pública, mercado de trabalho, cuidado, previdência e modelo de Estado.
Envelhecer começa no nascimento
Logo no início da conversa, Erismar chamou atenção para algo óbvio e ao mesmo tempo ignorado pela maior parte da sociedade – especialmente pelos jovens:
“O envelhecimento ocorre para todas as idades. Você começa a envelhecer a partir do momento que você nasce.”
A partir dessa premissa, ele defendeu que o debate não pode ser restrito à “terceira idade” como um bloco homogêneo, mas compreendido como processo contínuo, atravessado por classe, gênero, território e acesso – ou não – a políticas públicas.
O convidado lembrou que o Brasil vive simultaneamente transição ecológica, transição epidemiológica e transição demográfica, e que o envelhecimento populacional, num país profundamente desigual, “exige uma participação do Estado brasileiro”, porque autocuidado e força de vontade não bastam para garantir velhice saudável.
“Quem realiza o cuidado neste país não é o Estado, são as mulheres”
Um dos pontos centrais da entrevista foi o trabalho de cuidado. Erismar foi direto ao dizer aquilo que a experiência de qualquer hospital, casa de repouso ou domicílio popular confirma:
“Quem realiza o cuidado neste país não é o Estado, são as mulheres.”
Segundo ele, o modelo dominante é o da família chefiada por mulheres – mãe, avó, tia – sobre as quais recaem as tarefas de cuidar de crianças, pessoas idosas, acamadas e parentes com deficiência, quase sempre sem remuneração, sem seguridade social e sem descanso.
“Esse trabalho que esta mulher tá desenvolvendo é informal, sem remuneração e sem seguridade”, explicou, lembrando que em muitos casos a cuidadora está mais fragilizada do que a pessoa de quem cuida.
Ele relatou situações em que mulheres idosas cuidam de três outros idosos acamados, sem apoio do Estado, sem rede de cuidado formal e com saúde física e emocional comprometidas.
Envelhecimento, classe e etarismo: quando o idoso vira “estorvo”
A partir do tema do Enem, Erismar criticou a visão estreita de parte da juventude, que enxerga as pessoas idosas apenas como força de trabalho a ser “aproveitada” ao máximo. Para ele, isso é também uma forma de etarismo, combinada com a lógica de exploração capitalista:
“Uma parcela da juventude acredita que a saída é empurrar o idoso para o mercado de trabalho, porque ele vai gerando renda. Mas qual é a perspectiva real de trabalho digno para um idoso pobre, com baixa escolaridade, que trabalhou a vida inteira na roça, na coleta de lixo ou na informalidade?”
Ele insistiu que há uma manipulação de consciência que naturaliza a ideia de que, se a pessoa idosa não é “produtiva” dentro da lógica do lucro, ela se torna descartável. A imagem é dura, mas coerente com a realidade que o convidado denuncia:
“O sistema capitalista quer que esse cidadão que na lógica dele não é produtivo desapareça.”
Ao mesmo tempo, o Estado e o mercado tratam idosos como reservatório de renda: uma aposentadoria ou um BPC que sustentam filhos, netos, bisnetos e, muitas vezes, têm o cartão sequestrado por familiares.
“Muita gente idosa paga pensão de neto. E nós temos casos em que a pessoa idosa passa o dia com uma colherzinha de leite porque o benefício é o único dinheiro de uma casa cheia de gente.”
Trabalho, precarização e o “gerontariado”
Erismar também relacionou o envelhecimento com a precarização brutal do trabalho nas últimas décadas. Citando debates acadêmicos, ele lembrou que hoje o precarizado não é o “lumpen”, mas o trabalhador com diploma universitário, pós-graduação e doutorado dirigindo carro de aplicativo ou fazendo entrega para plataformas.
Essa geração, que envelhecerá sem estabilidade, sem contribuição linear para a previdência e com vínculos frágeis, compõe o que ele chamou de “gerontariado”: pessoas que chegam à velhice após uma vida inteira submetidas à lógica da uberização, sem garantias mínimas de proteção social.
“Não existe solução fácil para um problema complexo, que é esse”, resumiu, ao criticar respostas simplistas do tipo “basta o idoso se manter ativo e fazer caminhada”. Para ele, hábitos saudáveis são importantes, mas não substituem políticas públicas.
Previdência, dívida pública e o modelo de Estado
Outro eixo da entrevista foi a chamada “crise previdenciária”. Erismar apontou que o problema não é exclusivo do Brasil, mas atinge países que envelhecem num contexto de Estado mínimo e financeirização da economia.
Ele citou a situação dos regimes próprios de previdência de prefeituras e estados, que muitas vezes não fizeram os repasses, aplicaram mal os recursos e caminham para um cenário em que o que resta em caixa pode não cobrir os benefícios de quem já está aposentado.
Ao contrário do discurso dominante de que “falta dinheiro”, o psicólogo lembrou que boa parte do orçamento público é sugada para o pagamento de juros da dívida interna, beneficiando o sistema financeiro:
“A lógica é cortar na saúde, na educação, no BPC, no Bolsa Família, em nome da responsabilidade fiscal. E onde fica a responsabilidade social?”
Para ele, é impossível discutir envelhecimento sem enfrentar o modelo de Estado que escolhe proteger bancos e grandes corporações, enquanto desmonta a seguridade social e transfere o custo do cuidado para famílias exauridas.
Política Nacional de Cuidados: lei no papel, vazio nos municípios
Um dos pontos mais fortes da fala de Erismar foi a defesa da Política Nacional de Cuidados, sancionada pelo presidente Lula em dezembro de 2024 e regulamentada em julho de 2025. A política abrange pessoas idosas, pessoas com deficiência, população em situação de rua e cuidadoras, entre outros grupos.
O problema, segundo ele, é que a implementação está travada na ponta:
Estados precisam aprovar políticas estaduais de cuidado.
Municípios devem construir suas políticas municipais e planos locais de cuidado.
“Até agora, no Ceará, só um município aprovou política municipal de cuidado. Fortaleza não tem, Crateús não tem, Maracanaú não tem, Caucaia não tem, Eusébio não tem. Mas todos adoram dizer que têm qualidade de vida. Qualidade de vida de quem?”, questionou.
Ele denunciou o uso indevido de recursos do Fundo do Idoso para bancar grandes festas e shows caros, enquanto faltam equipamentos essenciais como centros-dia, transporte para hemodiálise, banheiros adaptados e cadeiras adequadas em postos de saúde.
SUS, saúde das mulheres e avaliação multidimensional
O convidado criticou a falta de prioridade à população idosa no SUS, inclusive na formação de profissionais. Ele citou unidades básicas de saúde com cadeiras quebradas, onde idosos se machucam à espera de atendimento, e lembrou que as quedas são uma das principais causas de internação desse grupo.
Na saúde das mulheres, a crítica foi específica: há campanhas fortes e consolidadas para o câncer de mama e de colo de útero, mas quase nenhum investimento em envelhecimento feminino, como osteoporose, alterações hormonais, menopausa precoce e sobrecarga de cuidado.
Erismar também destacou a importância da avaliação multidimensional da pessoa idosa, proposta pelo governo federal, que envolve mapear condições de saúde, moradia, mobilidade, segurança, renda e violência:
“É inadmissível que Fortaleza esteja entre as últimas capitais na realização de avaliação multidimensional. Sem dado, não há gestão.”
Ele citou o exemplo de Sobral, no interior cearense, como referência nacional nessa política.
Demografia do envelhecimento: o que está vindo pela frente
Para dimensionar o problema, Erismar apresentou alguns números:
O Brasil tem hoje cerca de 35 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, número que deve chegar a 70 milhões nas próximas décadas.
Fortaleza tem aproximadamente 400 mil pessoas idosas e poderá chegar a 800 mil.
O Ceará tem em torno de 1,4 milhão de idosos, com projeção de chegar a 3 milhões.
Ele lembrou que, em muitos municípios, o número de pessoas idosas já se aproxima ou ultrapassa o de crianças pequenas, o que exige reorientar prioridades – sem abandonar infância e juventude, mas incorporando o envelhecimento como eixo estruturante das políticas públicas.
“Não tem saída individual”: organização, sindicato e pressão social
Ao final, Erismar reforçou que o envelhecimento digno só será possível com organização coletiva:
“Não tem saída individual.”
Ele defendeu que pessoas idosas se aproximem de sindicatos e movimentos sociais, participem de conselhos, conferências e espaços de controle social, e cobrem de prefeitos, governadores e parlamentares a implementação de políticas de cuidado, saúde, previdência e proteção social.
Para o psicólogo e gerontólogo, a alternativa colocada diante da juventude que fez o Enem – e da sociedade como um todo – é dura e clara: ou se consolida um Estado cuidador, com políticas universais, ou o país caminhará para um cenário de barbárie em que o envelhecer será luxo de poucos.
“Nós temos que saber o que é prioridade. Tem muita gente se dando muito bem com o sofrimento de quem envelhece na miséria. E é isso que precisa mudar.”
Assista à entrevista completa:
📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 33.829.340/0001-89
