Atitude Popular

“Quem tem projeto nacional somos nós”

Renato Roseno alerta, em entrevista ao Democracia no Ar, para a escalada imperial do trumpismo, o uso industrial de desinformação por big techs e os riscos da IA nas eleições de 2026

A entrevista foi ao ar no Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, e reuniu a apresentadora Sara Goes e o deputado Renato Roseno para discutir a hegemonia predatória que Donald Trump tenta impor ao mundo, com impactos diretos sobre a democracia, a economia e a soberania de países do Sul Global. O debate começou com uma situação concreta: a manhã de chuva forte em Fortaleza, que gerou relatos de emergência em comunidades e demandou acionamento de órgãos de resposta rápida.

Logo no início, Roseno informou que a Comissão de Direitos Humanos passou a receber pedidos de apoio de áreas atingidas e divulgou um canal institucional para encaminhar ocorrências. Segundo ele, em casos de emergência, a população pode acionar o “zap da cidadania” da Comissão de Direitos Humanos, pelo número (85) 99995-4700, com localização para que a demanda seja encaminhada aos órgãos responsáveis.

Negacionismo e a política do choque

A conversa conectou os eventos climáticos locais ao debate internacional. Roseno apontou que o trumpismo combina militarismo, imperialismo e negacionismo climático, ao defender expansão do uso de petróleo e atacar consensos científicos num momento em que eventos extremos se multiplicam pelo planeta. Para ele, a crise não é apenas ambiental: é política e informacional.

A ignorância virou motivo de orgulho”, disse o deputado, ao comentar o ambiente cultural que, segundo ele, transforma desconhecimento em identidade e hostiliza especialistas. Ele citou como exemplo Robert F. Kennedy Jr., apontando que o atual responsável por uma agência de saúde nos EUA teria feito declarações públicas desqualificando recomendações técnicas, em sintonia com esse clima de desprezo ao conhecimento.

“A mentira como método” e o inimigo fabricado

Roseno argumentou que a desinformação não aparece como desvio, mas como ferramenta deliberada. Ele classificou a “mentira” como método de mobilização, capaz de criar um inimigo ideal e produzir coesão interna. Na leitura do parlamentar, esse mecanismo permite justificar medidas extremas e sustentar políticas de exceção.

Existem elementos históricos que nos permitem fazer um paralelo… entre elementos do trumpismo e o nazi-fascismo”, afirmou, ao citar o uso de racismo, narrativa autoproclamatória e a criação de inimigos como peças centrais. Ele acrescentou que a extrema direita se alimenta desse “inimigo necessário” para se legitimar e para deslocar a sociedade do debate real — direitos, trabalho, desigualdade — para uma guerra permanente de identidades e medos fabricados.

Soberania sob ataque e desprezo ao direito internacional

Na parte geopolítica, Roseno sustentou que o trumpismo não apenas tensiona acordos multilaterais: ele rebaixa o próprio conceito moderno de soberania, tratando o direito internacional como “formalidade” e reposicionando a força militar como idioma central das relações entre Estados.

Ao citar declarações do entorno de Trump, ele disse que há uma orientação explícita para agir como superpotência sem considerar limites jurídicos. A consequência, na sua avaliação, é um cenário de instabilidade, chantagens e intervenções, com efeito cascata sobre países periféricos e emergentes.

Big techs, propaganda industrial e a ameaça da IA em 2026

Roseno destacou a aliança entre poder político e plataformas digitais e afirmou que a desinformação é produzida “industrialmente”, em escala, sustentada por infraestrutura tecnológica e impulsionamento algorítmico. Para ele, não se trata de um fenômeno espontâneo: é engenharia política.

Sobre o Brasil, o deputado alertou que 2026 deve ser marcado por uma “inundação” de conteúdo automatizado e manipulação por inteligência artificial, elevando o risco de falsificações, montagens e campanhas subterrâneas. Ele disse temer que instituições ainda não tenham resposta proporcional ao tamanho da ameaça.

Nordeste estratégico, soberania digital e o risco de “desenvolver para entregar”

O debate também abordou a inserção do Nordeste na disputa global por infraestrutura digital e recursos estratégicos. Roseno defendeu que soberania, hoje, inclui soberania sobre dados e sobre decisões de desenvolvimento.

Os dados são o petróleo do século XXI”, afirmou, advertindo que a instalação de grandes estruturas digitais pode significar captura de valor e dependência, caso seja conduzida sem controle social, transparência e contrapartidas reais. Ele criticou o que chamou de “comemoração da submissão”, quando projetos são apresentados como modernização, mas deixam o ganho estruturante fora do território.

O parlamentar disse que o Ceará possui base técnica e científica — universidades, institutos e formação qualificada — para pensar alternativas soberanas, sem transformar seu valor estratégico em plataforma de extração para empresas estrangeiras.

“Quem tem projeto nacional somos nós”

Ao falar de disputa política, Roseno distinguiu nacionalismo de retórica. Na sua avaliação, setores da extrema direita não defendem o país: defendem interesses externos e privados, e operam com uma simbologia patriótica dissociada de projeto de desenvolvimento social.

Quem tem hoje projeto nacional somos nós… Eles não gostam do Brasil”, declarou, defendendo que soberania deve significar proteger recursos estratégicos, biodiversidade e autonomia tecnológica, além de enfrentar desigualdades históricas.

Convocação final: “entrar em campo”

No encerramento, o deputado afirmou que o cenário de 2026 exige mais do que indignação passiva. Ele criticou a postura de quem atua apenas como espectador da política e conclamou engajamento cotidiano — na organização social, na disputa informacional e na construção de alternativas.

Não dá para ser só eleitor… Não dá para ser comentarista da luta de classes”, disse, defendendo que a democracia não se protege apenas no voto, mas na capacidade de mobilização social para enfrentar autoritarismo, desinformação e captura corporativa do debate público.

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