Da Redação
Apuração jornalística aponta consultores argentinos contratados pelo Fuerza Popular, páginas políticas administradas do exterior, mais de mil anúncios no Facebook e peças produzidas com inteligência artificial durante a eleição peruana. Fernando Cerimedo aparece conectado ao ecossistema dos operadores investigados, mas as evidências disponíveis exigem distinguir vínculos documentados de alegações ainda não comprovadas sobre comando da operação ou influência sobre o resultado eleitoral.
Uma investigação sobre a campanha presidencial de Keiko Fujimori abriu uma nova frente de discussão sobre a internacionalização das estruturas de comunicação política na América Latina. A apuração, originalmente atribuída ao veículo peruano El Foco e repercutida neste sábado (6) pelo Brasil 247, identificou consultores argentinos contratados pelo Fuerza Popular, páginas políticas administradas a partir da Argentina, publicidade digital segmentada e conteúdos produzidos com inteligência artificial. Fernando Cerimedo, consultor argentino que já apareceu em controvérsias envolvendo operações digitais em outros países da região, é citado como uma figura de referência no entorno dessa estrutura.
Os números apresentados pela investigação são expressivos. Segundo a reportagem, mais de 658 mil soles — aproximadamente US$ 170 mil — teriam sido movimentados a partir da Argentina para financiar ações digitais relacionadas à disputa peruana. A apuração menciona ainda pagamentos de aproximadamente 69 mil soles a dois consultores argentinos: Esteban José de Apellaniz teria recebido 36 mil soles, enquanto Federico Javier Falco teria recebido 32 mil. Falco possui outra conexão política relevante: foi sócio de Santiago Caputo, um dos principais assessores de Javier Milei, na consultoria argentina MUF.
É importante, entretanto, estabelecer desde o início o limite das evidências atualmente públicas. A existência desses contratos e relações profissionais não demonstra, isoladamente, que Cerimedo tenha comandado pessoalmente toda a operação descrita, nem permite concluir que as atividades digitais tenham determinado o resultado da eleição peruana. Parte das reportagens publicadas nos últimos dias apresenta interpretações muito mais abrangentes sobre seu papel. Algumas chegam a afirmar que a estrutura foi decisiva eleitoralmente. Essa causalidade exige evidências adicionais — dados de alcance, segmentação, engajamento, conversão eleitoral e comparação com outros fatores da campanha — que não aparecem demonstradas de maneira conclusiva no material disponível.
O que a investigação apresenta de maneira mais concreta é uma arquitetura de comunicação que ultrapassava as fronteiras peruanas. Pelo menos dez páginas do Facebook teriam sido administradas a partir da Argentina. Entre agosto de 2025 e junho de 2026, essas páginas publicaram 1.041 anúncios pagos. Parte do conteúdo promovia mensagens favoráveis ao fujimorismo, enquanto outra parte atacava adversários políticos.
Entre os canais mencionados está a página “La Resistencia Web”. Segundo a investigação reproduzida pelo 247, páginas desse ecossistema divulgaram acusações contra integrantes da coalizão Juntos por el Perú e associaram adversários do fujimorismo a organizações subversivas. O elemento central da estratégia descrita não é simplesmente a existência de propaganda negativa — prática comum em campanhas eleitorais —, mas a possível separação entre a mensagem política apresentada ao eleitor e a identidade de quem efetivamente financiava, administrava ou produzia aquela comunicação.
Essa diferença é decisiva para compreender o problema. Uma campanha oficial que publica propaganda identificada está sujeita às regras eleitorais, às obrigações de prestação de contas e ao escrutínio público. Uma rede de páginas aparentemente independentes pode produzir a impressão de que determinadas narrativas surgem espontaneamente de diferentes setores da sociedade. Quando essas páginas possuem administração comum, financiamento coordenado ou ligação não declarada com campanhas, surge uma questão legítima sobre transparência e responsabilidade eleitoral.
A inteligência artificial acrescentou outra camada. A investigação identificou 24 anúncios no YouTube utilizando avatares produzidos por IA para promover Fujimori. Segundo o levantamento, essas peças foram financiadas pelo argentino-peruano Lucas Ariel Brizuela. O simples emprego de inteligência artificial em propaganda não demonstra fraude; o problema jurídico depende do conteúdo, da identificação do responsável, das normas eleitorais peruanas aplicáveis e de eventual uso enganoso da tecnologia.
O caso ganha relevância regional porque não é a primeira vez que o nome de Cerimedo aparece associado a operações políticas digitais fora da Argentina. No Brasil, ele ficou conhecido principalmente por sua participação no ambiente que questionou a confiabilidade das eleições presidenciais de 2022. Desde então, investigações e reportagens passaram a reconstruir suas relações com atores políticos e consultores de diferentes países latino-americanos. Reportagens recentes também o relacionam a estruturas empresariais e midiáticas com presença nos Estados Unidos.
No caso peruano existe ainda uma segunda frente que merece atenção: a plataforma chamada Ojo de Cóndor. Uma investigação anterior, repercutida pelo 247 em 1º de setembro, informou que Cerimedo registrou o domínio da plataforma utilizando informações de contato de sua empresa argentina justamente no período decisivo da eleição. A ferramenta se apresentava como um sistema de “contagem paralela cidadã”, destinado à coleta de atas eleitorais e comparação com os resultados oficiais.
Andrés Salas, oficial aposentado da Marinha peruana, aparecia publicamente como porta-voz da iniciativa. Inicialmente, a plataforma teria sido apresentada como projeto relacionado à Associação União Naval, composta por militares aposentados, sem menção à participação de Cerimedo. Posteriormente, ao ser questionado pela imprensa peruana, Salas reconheceu ter realizado reuniões virtuais com o argentino, embora tenha declarado não conhecer precisamente sua função no projeto. Também atribuiu a iniciativa a empresários cujas identidades não revelou.
Uma contagem eleitoral paralela não é necessariamente ilícita. Partidos, organizações civis, veículos de comunicação e observadores podem realizar verificações independentes quando a legislação local permite. O problema aparece se uma estrutura apresentada como iniciativa cidadã independente estiver, na realidade, ligada de forma não transparente a atores diretamente interessados no resultado. Nesse caso, a questão deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver transparência política.
É justamente a repetição de determinados métodos que torna o episódio relevante para além do Peru. As ferramentas descritas incluem segmentação de públicos, publicidade política digital, páginas aparentemente independentes, conteúdo produzido por inteligência artificial, plataformas próprias de informação e estruturas empresariais distribuídas entre diferentes países. Nenhuma dessas tecnologias é necessariamente irregular. O problema surge quando sua utilização impede o eleitor de identificar quem está financiando e dirigindo a mensagem que recebe.
Cerimedo também é fundador do La Derecha Diario, plataforma de comunicação criada em parceria com o espanhol Javier Negre. Durante a campanha peruana, o veículo publicou conteúdos favoráveis a Fujimori e críticos de seu adversário Roberto Sánchez. Reportagens peruanas afirmam ainda que Negre manteve contato pessoal com Fujimori e posteriormente compareceu à cerimônia de posse da presidente. Esses fatos demonstram proximidade política e midiática; não constituem, por si mesmos, prova de coordenação ilegal.
A dimensão transnacional se torna ainda mais evidente quando se examinam as conexões empresariais atribuídas ao grupo. Reportagens anteriores identificaram a NUMEN Advisors LLC, registrada na Flórida em maio de 2023, como parte do ecossistema empresarial relacionado a Cerimedo. Documentos americanos também registrariam um acordo de colaboração firmado naquele ano entre Cerimedo e Damián Merlo, consultor argentino-americano ligado ao Latin America Advisory Group, inicialmente relacionado à campanha presidencial de Javier Milei.
Outros nomes aparecem nesse circuito, entre eles Brad Parscale, que trabalhou nas campanhas presidenciais de Donald Trump. Essas relações são relevantes para mapear redes profissionais internacionais de consultoria política, mas precisam ser descritas sem saltos causais: conhecer, contratar tecnologia ou trabalhar com alguém ligado anteriormente a uma campanha americana não demonstra automaticamente participação do governo dos Estados Unidos numa operação eleitoral latino-americana. Para estabelecer interferência estatal seria necessário demonstrar participação, financiamento, orientação ou conhecimento de órgãos governamentais — algo que as evidências apresentadas nesta investigação específica não estabelecem.
Essa cautela é particularmente importante porque algumas das reportagens sobre Cerimedo avançam para uma tese muito mais ampla: a existência de uma operação continental destinada a alterar eleições latino-americanas em benefício de forças políticas alinhadas à direita regional e aos Estados Unidos. Há elementos suficientes para justificar investigação jornalística sobre conexões transnacionais entre consultores, plataformas, financiamento e campanhas. Mas uma rede de relações profissionais e ideológicas não é automaticamente equivalente a uma operação dirigida por um Estado estrangeiro.
O caminho investigativo mais sólido passa pelo dinheiro e pela infraestrutura. Quem contratou cada consultor? Quem pagou os anúncios? Quais contas administravam simultaneamente diferentes páginas? Quem forneceu bases de dados? Quais públicos foram segmentados? Houve compartilhamento de informações pessoais de eleitores? Quem financiou a infraestrutura tecnológica? Os gastos foram declarados à autoridade eleitoral peruana? Houve coordenação formal ou informal entre páginas apresentadas como independentes e o Fuerza Popular?
A investigação citada pelo 247 já fornece um ponto de partida importante porque identifica valores, nomes e anúncios concretos. A ausência de resposta da tesoureira do Fuerza Popular, Cecilia Chacón, aos questionamentos apresentados pelos jornalistas deixa questões abertas sobre financiamento e prestação de contas, mas silêncio diante da imprensa tampouco pode ser interpretado como admissão de irregularidade.
O caso também evidencia um problema regulatório que ultrapassa qualquer partido específico. Campanhas políticas contemporâneas podem operar simultaneamente em Facebook, YouTube, X, TikTok, aplicativos de mensagens, páginas independentes e redes de influenciadores. Empresas de consultoria podem estar domiciliadas em outro país, servidores podem estar numa terceira jurisdição e pagamentos podem atravessar sistemas financeiros diferentes. A legislação eleitoral, construída historicamente para controlar televisão, rádio, material impresso e doações domésticas, enfrenta dificuldades para reconstruir essas cadeias digitais.
Na América Latina, onde eleições nacionais ocorrem em países linguisticamente próximos e com ecossistemas digitais parcialmente integrados, esse mercado de consultoria pode operar regionalmente. Uma mesma equipe consegue reaproveitar tecnologia, técnicas de segmentação, formatos audiovisuais e redes de distribuição em campanhas diferentes. Isso não significa que todas essas campanhas façam parte de uma única operação coordenada. Significa que a infraestrutura política digital deixou de respeitar as mesmas fronteiras nacionais que ainda organizam a maior parte da legislação eleitoral.
É nesse sentido que o caso peruano merece acompanhamento cuidadoso. O fato mais relevante não é simplesmente que consultores argentinos trabalharam para uma candidatura peruana — consultoria política internacional existe há décadas. A questão é saber se houve uma estrutura digital paralela cuja origem, financiamento ou vinculação partidária permaneceu deliberadamente oculta dos eleitores.
As informações publicadas até agora justificam investigação sobre essa hipótese. Ainda não autorizam afirmar que Cerimedo tenha comandado pessoalmente toda a rede, que uma potência estrangeira tenha dirigido a operação ou que as ações digitais tenham decidido a eleição de Keiko Fujimori. São três proposições diferentes e exigiriam três conjuntos diferentes de provas.
O que já emerge com clareza é um fenômeno maior: campanhas eleitorais latino-americanas estão inseridas num mercado transnacional de tecnologia, consultoria, publicidade e produção de narrativas políticas. Quando financiamento, administração de páginas e produção de conteúdo atravessam fronteiras sem transparência suficiente, a questão deixa de ser apenas comunicação eleitoral. Passa a envolver a capacidade de cada democracia de identificar quem tenta influenciar seus cidadãos, com quais recursos e utilizando quais tecnologias.
No Peru, a investigação sobre a rede ligada ao entorno de Fernando Cerimedo está apenas começando a responder essas perguntas. O próximo passo não é antecipar culpados ou atribuir causalidade eleitoral sem demonstração. É reconstruir documentalmente a cadeia completa — dinheiro, contratos, anúncios, administradores, dados, empresas e relações com a campanha. É nessa trilha verificável, e não apenas na retórica das redes sociais, que poderá ser estabelecido o alcance real da operação.