A frase de Francisco Julião ressurge na voz da historiadora Marcília Gama ao explicar por que Galileia segue sendo o exemplo mais poderoso de mobilização camponesa no Brasil
No programa Café com Democracia do dia 19 de novembro, apresentado por Luiz Regadas, a historiadora e arquivista Marcília Gama revisitou um dos capítulos mais decisivos – e menos conhecidos – da história brasileira: o Memorial das Ligas Camponesas Francisco Julião, no Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão (PE).
As informações e reflexões apresentadas nesta matéria têm como base a entrevista concedida pela pesquisadora à Atitude Popular.
Marcília, doutora em História e especialista em Arquivologia, dedicou anos ao estudo do acervo das Ligas Camponesas e à catalogação dos documentos da família de Francisco Julião, principal articulador político do movimento. “É um tema extremamente importante para compreender o golpe de 1964”, afirmou.
O engenho que inaugurou a primeira reforma agrária bem-sucedida do Brasil
O Engenho Galileia, conhecido como “engenho morto” por estar desativado desde os anos 1950, tornou-se o berço das Ligas Camponesas. O movimento começou ainda nos anos 1940 com iniciativas do PCB, mas foi reprimido. Apenas a partir de 1950, com a criação da Sociedade dos Plantadores e Pecuaristas de Galileia, a organização ganhou forma.
Quando os trabalhadores rurais decidiram lutar pela desapropriação do engenho, caminharam 50 km até o Recife para pedir apoio ao jovem advogado Francisco Julião, que abraçou a causa e a levou para a Assembleia Legislativa. A desapropriação ocorreu em 1961, assinada pelo governador Cid Sampaio.
“Galileia é o primeiro exemplo real de reforma agrária que deu certo no Brasil”, afirmou Marcília. O assentamento segue existindo até hoje, com famílias descendentes dos primeiros camponeses.
Liga Camponesa: um movimento que aterrorizou as oligarquias rurais
A desapropriação de Galileia ultrapassou os limites do engenho. Transformou-se em símbolo nacional de que a organização popular podia enfrentar o poder secular das famílias proprietárias de terra. Esse impacto explica, em parte, o temor que se instalou entre elites agrárias, forças militares e o governo dos EUA.
“Vivíamos o contexto da Guerra Fria. Depois da Revolução Cubana, os Estados Unidos olhavam para Pernambuco como uma panela de pressão prestes a explodir”, lembrou a pesquisadora.
A repressão veio rápido: assassinatos, ações de milícias privadas e violência policial. A historiadora recordou depoimentos marcantes, como o de um trabalhador que caminhou até o Recife com o crânio aberto após uma enxadada, buscando ajuda jurídica.
A frase que incendiou o país: reforma agrária na lei ou na marra
Segundo Marcília, Julião possuía uma habilidade singular de comunicação: “uma retórica enorme, um carisma fora do comum”. Ele sabia falar com os trabalhadores rurais que, até então, sequer tinham consciência de que eram uma categoria laboral.
Sua frase mais famosa – “reforma agrária na lei ou na marra” – sintetizava a urgência de um país que deixava milhões de camponeses sem direitos trabalhistas.
Essa mobilização crescente, somada às pressões internacionais, contribuiu para o golpe civil-militar-empresarial de 1964. O Estatuto do Trabalhador Rural, aprovado em 1963, e a organização das Ligas Camponesas foram vistos como ameaças diretas ao poder dos latifúndios.
Com o golpe, Julião foi para o exílio – primeiro em Cuba, depois em outros países. Sua esposa, Alexina, e seus filhos também enfrentaram a clandestinidade. Marcília destacou um relato sensível de Anacleto Julião: o sentimento de perder a referência da pátria enquanto jovem expulso da própria terra.
O Memorial de Galileia: um arquivo vivo da resistência
O trabalho coordenado pela historiadora inclui a catalogação de mais de 5 mil documentos do acervo das Ligas e da família Julião. O projeto, financiado pelo Funcultura, pretende reconstruir três eixos:
- Organização e higienização do acervo histórico, já concluída.
- Criação do Centro de Memória e Pesquisa Francisco Julião, ainda sem financiamento.
- Percurso e Prosa, que instalará placas indicando os locais simbólicos da luta camponesa, incluindo a bomba de irrigação doada por Edward Kennedy – um símbolo do monitoramento norte-americano sobre Galileia.
O sítio histórico recebe pesquisadores, estudantes e visitantes do Brasil e da América do Sul. A memória das Ligas segue viva em figuras como Zito da Galileia, descendente direto dos primeiros líderes.
Do passado ao presente: o que Galileia ensina ao debate atual sobre reforma agrária
Para Marcília, Galileia continua sendo a maior inspiração para o debate contemporâneo sobre direitos rurais e acesso à terra.
O assentamento existe, produz hortaliças e abastece a Ceasa, mas enfrenta entraves estruturais: falta de estradas, famílias ilhadas no período das chuvas e ausência de apoio estatal. Muitas famílias ainda não possuem título de terra, o que impede acesso a crédito e políticas públicas.
A descaracterização do território também preocupa: casas luxuosas aparecem onde antes havia moradias de agricultores – sinal de compra informal de lotes e expulsão indireta de trabalhadores.
A memória que a ditadura tentou apagar
Durante a ditadura, a repressão desarticulou o movimento, mas não apagou sua história. Galileia foi cenário das primeiras cenas de Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, cuja filmagem foi interrompida pelo regime e só retomada 17 anos depois.
O legado de Julião e das Ligas ecoa no MST e em outros movimentos de luta pela terra. “É memória viva, é resistência, é imaginação política”, resumiu Marcília Gama.
Encerramento
A entrevistada agradeceu a oportunidade e reforçou a importância de divulgar essas histórias nas rádios populares e comunitárias: “a história também é feita de luta, resistência e criatividade”.
Luiz Regadas destacou que compreender o passado é fundamental para transformar o futuro: “conhecer a história é formar-se para o amanhã”.
Assista à entrevista completa:
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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