Convenção do PL oficializa o senador como candidato à Presidência em evento marcado por apoio internacional, ausência de alianças amplas, vídeo com inteligência artificial e críticas às instituições
Da Redação
O Partido Liberal (PL) oficializou neste sábado (25) a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (RJ) à Presidência da República durante convenção realizada no Mercado Pago Hall, no complexo do Pacaembu, em São Paulo. O evento marcou o início formal da campanha do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas também evidenciou os desafios políticos enfrentados pelo partido para ampliar sua base eleitoral.
Embora tenha reunido milhares de apoiadores e lideranças bolsonaristas, a convenção ocorreu sem o anúncio de um candidato a vice, sem a presença da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e sem demonstração de apoio de partidos do chamado Centrão. Em contrapartida, o PL apostou na presença do presidente argentino Javier Milei e em uma mensagem gravada do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para reforçar o caráter internacional da campanha.
Convenção confirma candidatura, mas vice permanece indefinido
Flávio Bolsonaro foi oficializado como candidato por aclamação. Apesar da formalização da chapa presidencial, o partido optou por não anunciar o nome que disputará a Vice-Presidência. A indefinição reflete negociações ainda em curso com legendas de centro e direita, que poderão influenciar a composição da chapa nos próximos meses.
A ausência de alianças formalizadas foi um dos aspectos mais observados da convenção, já que o PL busca ampliar seu espaço político para além do eleitorado tradicionalmente identificado com o bolsonarismo.
Michelle Bolsonaro envia vídeo e fica fora do evento
Outra ausência que chamou atenção foi a da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Ela participou apenas por meio de uma mensagem gravada, na qual declarou apoio à candidatura de Flávio e afirmou permanecer em Brasília ao lado de Jair Bolsonaro. A decisão ocorreu poucas semanas após divergências públicas envolvendo Michelle e o senador, posteriormente minimizadas por integrantes do partido.
Sem a presença da ex-primeira-dama, a convenção perdeu uma das figuras de maior popularidade do campo conservador.
Milei transforma convenção em ato internacional da direita
O principal convidado do evento foi o presidente da Argentina, Javier Milei. Recebido anteriormente pelo governador Tarcísio de Freitas, Milei subiu ao palco para defender a candidatura de Flávio Bolsonaro, voltou a criticar governos de esquerda e afirmou que Brasil e Argentina enfrentam desafios semelhantes diante do avanço do socialismo.
A participação do presidente argentino reforçou a aproximação entre os dois grupos políticos e transformou a convenção em uma demonstração de articulação internacional da direita latino-americana.
Milei também é conhecido por declarações que extrapolam o debate político. Antes de chegar à Presidência da Argentina, afirmou em diversas entrevistas que se comunicava espiritualmente com seu cachorro Conan, morto em 2017, por intermédio de uma médium, além de atribuir ao animal influência em decisões pessoais e políticas. As declarações voltaram a repercutir nas redes sociais durante sua participação na convenção.
Netanyahu envia mensagem de apoio
Além de Milei, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, enviou uma mensagem em vídeo desejando sucesso à candidatura de Flávio Bolsonaro. O gesto amplia a aproximação política entre o bolsonarismo e o governo israelense. A manifestação ocorre enquanto Netanyahu enfrenta crescente isolamento internacional em razão da guerra na Faixa de Gaza.
Em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional (TPI) expediu um mandado de prisão contra Netanyahu por acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade relacionados ao conflito. O premiê nega todas as acusações.
Discurso reforça legado de Jair Bolsonaro
Em sua fala, Flávio Bolsonaro apresentou a candidatura como continuidade do projeto político iniciado pelo pai. O senador prometeu reduzir impostos, ampliar a liberdade econômica, endurecer o combate ao crime organizado, revisar políticas do governo Lula e defender pautas conservadoras.
Também voltou a afirmar que Jair Bolsonaro sofre perseguição política e declarou esperar receber do pai a faixa presidencial em janeiro de 2027. Durante o discurso, fez novas críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e às decisões relacionadas aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023.
Vídeo produzido por inteligência artificial pode gerar disputa jurídica
Um dos momentos mais comentados da convenção foi a exibição de um vídeo produzido por inteligência artificial simulando Jair Bolsonaro.
Na gravação, uma versão sintética do ex-presidente dirigiu uma mensagem aos apoiadores. O vídeo informava que havia sido produzido com IA, mas especialistas em Direito Eleitoral avaliam que isso não elimina automaticamente eventuais questionamentos. A Resolução nº 23.732/2024 do Tribunal Superior Eleitoral estabelece regras específicas para o uso de inteligência artificial em campanhas e proíbe determinadas formas de manipulação capazes de induzir o eleitor a erro.
Segundo especialistas ouvidos pelo UOL, a principal discussão será saber se o material exibido representa apenas uma dramatização claramente identificada ou se configura manifestação eleitoral produzida artificialmente em nome de uma pessoa que não participou efetivamente do ato.
Caso partidos adversários ou o Ministério Público Eleitoral apresentem representação, a convenção do PL poderá se transformar em um dos primeiros grandes testes da regulamentação brasileira sobre inteligência artificial nas eleições.
Fachin reage às declarações
As manifestações feitas durante a convenção provocaram reação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Edson Fachin. Sem mencionar diretamente Flávio Bolsonaro, Fachin afirmou que declarações incompatíveis com a civilidade democrática não contribuem para o processo eleitoral e reiterou o compromisso da Justiça Eleitoral com o respeito às instituições e à Constituição.
Convenção ocorre sob desgaste político
O lançamento da candidatura também acontece em meio a uma sequência de desgastes envolvendo Flávio Bolsonaro. Nas últimas semanas vieram a público documentos relacionados ao financiamento do filme Dark Horse, além de contratos e notas fiscais emitidas por seu escritório de advocacia para empresas ligadas ao entorno do Banco Master.
O senador afirma que todas as relações comerciais foram legais, que prestou serviços advocatícios regularmente e que não recebeu qualquer pagamento referente às notas fiscais posteriormente canceladas. Mesmo assim, as revelações ampliaram o escrutínio sobre sua atuação empresarial justamente no momento em que inicia a disputa pela Presidência da República.
O cenário da campanha
A convenção do PL deixou claro que Flávio Bolsonaro inicia sua campanha apoiado principalmente pela base bolsonarista e por aliados internacionais, enquanto ainda busca ampliar alianças internas capazes de fortalecer sua candidatura.
Sem um vice definido, sem a presença de Michelle Bolsonaro no palco e sem demonstrações públicas de apoio de partidos do Centrão, o senador aposta na transferência do capital político de Jair Bolsonaro e na mobilização do eleitorado conservador para tentar chegar competitivo ao primeiro turno.