Atitude Popular

Tensão Institucional em Alta

Da Redação

Enquanto Lula enfrenta retaliações de Trump e vê apoio crescer — inclusive entre bolsonaristas fragilizados —, o Congresso adia anistia e Eduardo Bolsonaro consolida exílio político nos EUA, elevando o risco de polarização institucional e redefinindo as margens da soberania democrática.

O Brasil vive, neste 14 de julho de 2025, um momento decisivo de reorganização do tabuleiro político e institucional. A crescente tensão entre os Poderes, agravada por fatores externos, especialmente a escalada retórica e tarifária de Donald Trump contra o país, começa a provocar realinhamentos que ultrapassam a tradicional clivagem entre direita e esquerda. Lula, que resistia com dificuldades às turbulências dos dois primeiros anos de mandato, agora ganha terreno num campo inesperado: o das instituições, até mesmo entre setores bolsonaristas que demonstram fadiga com os excessos golpistas da extrema-direita.

Esse cenário se complexifica ainda mais com três movimentos centrais: a decisão da Câmara de engavetar, ao menos por ora, o pedido de urgência da anistia aos envolvidos no 8 de janeiro; a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde vem atuando como uma espécie de embaixador informal do trumpismo; e o crescimento da adesão institucional a um pacto silencioso em defesa da estabilidade — mesmo que isso implique, para alguns setores, uma reaproximação pragmática com o governo Lula.

A retaliação de Trump e a resposta do Planalto

Tudo começou a se intensificar com a surpreendente decisão de Trump de aplicar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, como forma de pressionar o governo Lula e demonstrar solidariedade ao seu aliado, Jair Bolsonaro. A medida foi justificada pelo ex-presidente norte-americano como resposta à “perseguição política” sofrida pelo bolsonarismo no Brasil. O governo Lula reagiu rapidamente, anunciando tarifas recíprocas e acionando o Itamaraty para consultas com a OMC. Além disso, criou-se um comitê de crise para monitorar os impactos e articular o setor privado.

Mais do que um embate comercial, o gesto de Trump teve valor simbólico: ele reconectou, na prática, a extrema-direita global, acenando ao bolsonarismo com um gesto concreto de apoio e provocando a reação imediata de setores democráticos e moderados no Brasil, preocupados com a soberania nacional diante de ameaças externas. O episódio, por sua vez, fortaleceu o discurso do Planalto, que passou a associar a pauta da defesa institucional a uma agenda de soberania nacional, num resgate simbólico que remete aos governos Lula I e II.

A anistia engavetada e o novo xadrez no Congresso

O segundo grande movimento institucional do momento foi a decisão do presidente da Câmara, Hugo Motta, de não colocar em votação o regime de urgência para o projeto de anistia aos golpistas de 8 de janeiro. Essa manobra representa muito mais do que uma simples questão de pauta legislativa: ela sinaliza que parte do centrão não quer vincular sua imagem a um projeto de impunidade num momento em que a sociedade civil, o Supremo e a imprensa internacional observam com atenção redobrada os desdobramentos do bolsonarismo.

Essa decisão também escancara o dilema do campo conservador: manter-se fiel ao bolsonarismo, mesmo diante das evidências de deslegitimação crescente, ou redefinir seus vínculos com a institucionalidade para preservar seus espaços de poder? O resultado, por ora, é uma posição ambígua, mas que tende a favorecer Lula de forma indireta, ao reforçar o papel moderador das instituições e desarmar parcialmente a retórica do caos mobilizada por bolsonaristas radicais.

Eduardo Bolsonaro nos EUA e o esvaziamento simbólico do clã

Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro segue licenciado de seu mandato e cada vez mais distante da cena institucional brasileira. Com a justificativa de articulações internacionais e apoio à campanha de Donald Trump, o deputado optou por permanecer nos Estados Unidos, abandonando na prática suas funções no Congresso. Essa ausência começa a ser interpretada como um exílio estratégico: ao mesmo tempo que reforça sua imagem entre os ultraconservadores internacionais, Eduardo esvazia sua própria força no Brasil.

O simbolismo disso não passa despercebido. A permanência de Eduardo nos Estados Unidos — e sua possível desistência de retornar — representa a dificuldade do clã Bolsonaro de lidar com as consequências jurídicas, políticas e históricas de sua atuação. Ao manter distância do país, ele também evita confrontos com a Justiça e enfraquece a base bolsonarista no Congresso. Isso reforça a sensação de esvaziamento e abandono que muitos ex-apoiadores vêm expressando nos bastidores.

A reconfiguração institucional e o risco da polarização

Esses três movimentos — retaliação externa, anistia travada e afastamento estratégico de Eduardo — configuram um momento singular da política brasileira: uma convergência heterogênea de forças institucionais em torno da defesa da democracia e da soberania, mesmo que com motivações distintas. De um lado, setores da direita e do centro veem no fortalecimento institucional uma forma de barrar aventuras autoritárias e preservar o regime democrático. De outro, o governo Lula percebe nesse novo pacto uma oportunidade para se reposicionar como defensor da estabilidade e da ordem constitucional, mesmo sob ataques externos.

No entanto, esse rearranjo institucional não está isento de riscos. A polarização latente não desapareceu: ela apenas migrou de campo. Se antes a tensão se dava principalmente entre Executivo e Judiciário ou entre esquerda e extrema-direita, agora ela se desloca para o interior das instituições, onde diferentes visões de soberania e estabilidade disputam protagonismo. Setores da esquerda, por exemplo, temem que o novo conservadorismo institucional acabe engessando pautas progressistas em nome da governabilidade. Já segmentos do centro temem que Lula utilize o discurso da defesa da democracia como escudo para ações personalistas.

O que esperar dos próximos dias

O cenário é, portanto, de tensão institucional elevada, mas ainda sob controle. Os próximos dias serão decisivos. Se Lula conseguir manter o apoio de setores estratégicos do Congresso e consolidar a imagem de liderança responsável, pode sair fortalecido da crise. Por outro lado, se a retórica bolsonarista ganhar tração nas redes com apoio direto de Trump, novas manifestações podem ser incentivadas, o que elevaria o risco de instabilidade.

Além disso, o Supremo Tribunal Federal terá papel central nos próximos capítulos. Já visto como árbitro da legalidade desde os processos do 8 de janeiro, o STF agora será forçado a se posicionar em disputas mais amplas — sobre o alcance das sanções comerciais, sobre a legitimidade da permanência de Eduardo fora do país, e sobre possíveis iniciativas legislativas que possam tentar ressuscitar a anistia.

Se o país caminha para um novo pacto democrático, ainda é cedo para dizer. O que é certo, no entanto, é que o momento atual revela um realinhamento silencioso: o bolsonarismo perde protagonismo, Trump ganha influência como operador externo, e Lula, paradoxalmente, se torna o fiador de uma institucionalidade que ele mesmo ajudou a refundar em outros tempos. O que virá em seguida dependerá menos dos discursos e mais dos atos concretos de quem ainda tem poder para agir — dentro ou fora do país.